Animais

Um Olhar Sobre A Missão De Um Homem Para Construir Uma Arca Fotográfica (Photo Ark) Para Os Animais

Joel Sartore, fotógrafo da National Geographic, conta-nos o que o inspirou para levar a cabo este seu projeto de documentar 12 000 espécies animais em cativeiro em todo o mundo. Quinta-feira, 9 Novembro

Por Christy Ullrich Barcus

Entrevista feita em Novembro de 2015

Há precisamente doze anos, foi diagnosticado um cancro da mama à mulher do fotógrafo da National Geographic Joel Sartore, Kathy.

Este diagnóstico, bem como a subsequente necessidade de Sartore ficar a cuidar da mulher e dos filhos na casa da família, em Lincoln, no Nebrasca, deu origem a um projeto fotográfico não planeado — e sem precedentes — denominado Photo Ark (Arca Fotográfica), destinado a ajudar a preservar a biodiversidade mundial.

Para este projeto, Sartore fez retratos fotográficos de mais de 7000 animais em jardins zoológicos e aquários de todo o mundo — e não irá parar, diz, enquanto não fotografar todas as 12 000 espécies existentes em cativeiro.

A National Geographic conversou com Sartore, para saber mais sobre a sua paixão pelo projeto Photo Ark. 

O que inspirou a criação do Photo Ark?

Eu era um fotógrafo da National Geographic que, durante anos, viajou por todo o mundo e esteve envolvido na elaboração de muitos artigos. Até que a minha mulher foi diagnosticada com cancro da mama, e teve de fazer quimioterapia e radioterapia durante praticamente um ano. 

Quando a Kathy já estava a melhorar, comecei a ir ao Jardim Zoológico Infantil de Lincoln, que ficava a apenas 1,6 quilómetros de minha casa, e comecei a tirar fotografias aos animais sobre fundos pretos e brancos, coisa que nunca tinha feito antes. O primeiro foi um rato-toupeiro-nu.

Como é que o Photo Ark evoluiu para o projeto que é hoje?

Já se passaram dez anos, e já visitei mais de 200 jardins zoológicos e aquários só nos Estados Unidos, e muitos mais no estrangeiro. Desde essa altura, já atingi a marca das 7000 espécies, havendo, no total, 12 000 espécies em cativeiro em todo o Planeta. O objetivo é fotografá-las a todas antes de morrer e mostrar ao mundo o aspeto da biodiversidade neste ponto do tempo.

Uso fundos pretos e brancos porque são um ótimo equalizador. Um tigre não é mais importante que um besouro-tigre. E um rato é tão importante quanto um urso-polar. Com este trabalho, quero que as pessoas prestem atenção, se preocupem com a crise da extinção da biodiversidade, enquanto ainda há tempo para salvar estes animais.

O que despertou a sua paixão pelos animais?

Sempre me interessei por história natural, pois os meus pais interessavam-se por história natural. A minha mãe comprou-me um livro da Time Life, intitulado As Aves, que tinha uma foto de Martha, o último pombo-viajante em todo o mundo. Martha morreu em 1914, no Jardim Zoológico de Cincinnati.

Veja esta galeria com 10 dos animais raros do nosso planeta.

Passei uma série de tempo a olhar para aquela imagem, regressando ao livro e a ela vezes sem conta. Existiram, outrora, milhões de pombos-viajantes, e o homem perseguiu-os e caçou-os até restar apenas este único indivíduo. O livro referia a permanência da extinção, e isto foi algo que eu guardei comigo desde então. Nunca me esqueci daquele livro nem daquela imagem.

Como se leva as pessoas a agirem?

Atualmente, é uma corrida, uma vez que metade das espécies poderão desaparecer até 2100. Isso prejudicará a humanidade de uma forma muito real. Precisamos de insetos como as abelhas ou mesmo as moscas para a polinização, para termos frutas e vegetais. Precisamos de florestas húmidas saudáveis, para ajudar a regular o clima e a manter as chuvas sobre as nossas colheitas. Precisamos de oceanos saudáveis, para nos darem alimento e também ajudarem a regular o clima.

Cada espécie retratada no Photo Ark é uma nova oportunidade para cativar as pessoas e fazer com que elas se interessem pela conservação, antes que seja tarde demais. É essencial que as pessoas prestem atenção e se apercebam das criaturas espantosas com que partilhamos o Planeta. Caso contrário, esta arca fotográficas será mais para as gerações vindouras do que para nós próprios, pois significa que não fizemos um bom trabalho a preservar aquilo que tínhamos. Imagine que está em alto-mar, a bordo de um salva-vidas a arder. Será que conseguimos que o público perceba isso? Que quando salvamos as outras espécies, estamos, na verdade, a salvar-nos a nós próprios?

Porque é que lhe parece que os jardins zoológicos e os aquários são cruciais para a sobrevivência destas espécies?

Os jardins zoológicos e os aquários são hoje as verdadeiras arcas, e, com frequência, é aqui que se encontram os últimos exemplares reprodutores de muitas espécies animais, praticamente extintas em meio selvagem. Além disso, para a maioria das pessoas que vivem nas cidades, os jardins zoológicos são também o único sítio onde se podem ver animais ao vivo. Não é a mesma coisa se os estivermos a ver na TV ou na Internet. Aqui temos a oportunidade de ouvir o animal, vê-lo, cheirá-lo. Termos um animal a olhar-nos nos olhos, isso sim é algo que toca as pessoas e mexe com elas.

Num país desenvolvido, onde muitos de nós vivemos através dos computadores, um local onde se podem observar aves, mamíferos, anfíbios e peixes é uma recordação importantíssima que estamos nisto juntos, que estamos todos indelevelmente ligados ao mundo natural. Os jardins zoológicos e os aquários têm uma importância vital na educação. Precisamos deles se queremos despertar consciências, salvar a natureza, restaurar os habitats e restabelecer as populações de animais selvagens. Os jardins zoológicos de todo o mundo financiam muito mais trabalho de conservação do que aquilo que se pensa.

Já fotografou muitos animais. Quais foram os mais memoráveis?

Quando as pessoas me perguntam qual é o meu preferido, geralmente digo-lhes que é o próximo. Estou sempre empolgado para saber qual vai ser, e adoro ter a oportunidade de me cruzar com tantos animais que precisam que alguém conte a sua história, ainda que esta possa ser triste.

Por exemplo, acabei de regressar de Madagáscar, onde vi os únicos sifackas-de-decken existentes em cativeiro. Eles parecem usar casacos brancos de lã, realmente muito interessantes, e, no entanto, praticamente não se ouve falar destes animais. É uma honra poder contar a sua história.

O que é que o público pode fazer, aqui e agora?

As pessoas têm de perceber que não precisam de salvar o mundo inteiro, apenas o seu próprio quintal. Andar menos de carro. Comer mais frutas e vegetais produzidos localmente. Isolar melhor as suas casas. Reduzir, reutilizar e reciclar as coisas que compram.

Descobrir aquilo que realmente as apaixona e fazer alguma coisa para tornar o mundo um sítio melhor. Tornarem-se membros do jardim zoológico ou aquário mais próximo e visitá-lo com frequência. É um ótimo e divertido ponto de partida, especialmente para quem tem filhos.

O que vai fazer quando acabar de fotografar todos os animais para o Photo Ark?

Descansar em paz [risos]. Não me restará nada quando terminar, daqui por uns 15 anos. O meu pescoço, costas e joelhos estarão a dar as últimas, uma vez que ando sempre a rastejar pelo chão quando estou a trabalhar.

Ah, e gostava de ir à pesca. Captura e libertação apenas, claro.

Esta entrevista foi editada e resumida.

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