Estas Mulheres Desbloquearam o Mistério das Profundezas do Mar

Numa expedição que bateu recordes na década de 1930, um grupo de mulheres – uma cientista, uma artista e uma investigadora – ajudou a definir a ciência do mar.sexta-feira, 13 de março de 2020

Em 1930, os exploradores subaquáticos William Beebe e Otis Barton submergiram nas águas do Oceano Atlântico, perto das Bermudas, numa pequena esfera de aço chamada batisfera. Foi a primeira incursão tripulada deste género nas profundezas do mar, e rapidamente se tornou notícia internacional.

O mundo de vida que encontraram, escreveu Beebe num artigo da National Geographic de 1931, era “quase tão desconhecido quanto o de Marte ou Vénus”. O que a oceanografia moderna sabia sobre o fundo do mar, acrescentou Beebe, era como se fosse um estudante de animais africanos que investigava roedores, mas que ainda não sabia que existiam elefantes e leões a vaguear pela natureza.

À superfície, um grupo de mulheres cientistas garantia que este novo e ousado mecanismo funcionava sem problemas. No convés do barco, a assistente de laboratório Jocelyn Crane Griffin ajudava a identificar a vida marinha. Nas comunicações telefónicas estava Gloria Hollister Anable, a chefe técnica do Departamento de Pesquisa Tropical – agora Wildlife Conservation Society – que apoiou a missão. Esta ligação telefónica, feita através de um cabo que ia da embarcação até à batisfera, era a única ligação de Beebe com o mundo exterior, e a linha não podia estar em silêncio. (Numa das fotografias da expedição, Anable está sentada numa caixa de madeira com os auscultadores na cabeça e a legenda diz: “Quando a comunicação era interrompida, Anable não tinha forma de saber se era estática ou um acidente mortal.”)

Anable e Beebe estavam sempre animados nas comunicações, e toda a vida marinha observada era descrita por Beebe e transcrita por Anable. Na tarde de 19 de junho de 1930, Anable transcreveu um relatório feito por Beebe a uma profundidade de 240 metros: “Presença constante de pequenas luzes cintilantes à distância, têm uma cor pálida esverdeada. Enguias, uma escura e uma clara. Um enorme Argyropelecus em aproximação; parece uma minhoca vista de frente.” Anable também transmitia informações a Beebe sobre a profundidade e condições atmosféricas.

Depois de cada mergulho, os esboços de Beebe e as transcrições eram entregues a Else Bostelmann, no laboratório nas Bermudas, onde ela as transformava em cenas dramáticas. Apesar de Else não ter feito observações dentro da batisfera, usava frequentemente um capacete de mergulho – amarrava os pincéis a uma paleta de tintas a óleo e levava a tela para debaixo de água, para pintar e encontrar inspiração. A vista era um “país das maravilhas”, escreveu Else mais tarde, e as criaturas que encontrou nas águas pouco profundas – peixes-anjo-azul, peixes-soldado vermelhos e outros – “brincavam ou faziam perseguições na minha tela, individualmente ou em cardumes.”

Os habitantes das Bermudas, escreveu Anable, deram ao laboratório de Else o apelido de “Casa da Magia”. Neste laboratório, a equipa dissecou e registou uma captura interminável de espécimes do fundo do mar. Muitos nunca tinham sido vistos por cientistas. “À nossa frente, na mesa do laboratório, temos uma variedade de formas transparentes e fantasmagóricas que, até há pouco tempo, eram apenas seres estranhos a quilómetros de profundidade”, escreveu Else no Boletim da Sociedade Zoológica de Nova Iorque em 1930. Através das análises feitas com corantes, raios-X e soluções químicas, Anable esperava descobrir como é que estas criaturas funcionavam e como se tinham adaptado para sobreviver em profundidades tão inóspitas.

William Beebe foi ridicularizado por contratar mulheres, mas defendeu sempre a sua equipa. “Ele foi realmente ridicularizado”, disse ao Smithsonian Katherine McLeod – historiadora e antropóloga ambiental – depois de ter ajudado a organizar uma exibição sobre a expedição no museu em 2017. “Diziam-lhe que a inclusão de mulheres nestes espaços era uma desprofissionalização do ramo.” A resposta de Beebe foi a de que tinha contratado a sua equipa pelas suas “boas ideias e investigações científicas”.

EXPLORE AS CARTAS DA TRIPULAÇÃO DA BATISFERA DO NOSSO ARQUIVO

Gloria Anable e Jocelyn Griffin também fizeram mergulhos por turnos na batisfera. Descendo até aos 368 metros num dos mergulhos, Anable estabeleceu o recorde para a maior profundidade alcançada por uma mulher.

Quando a expedição terminou, Else Bostelmann continuou a fazer ilustrações para a National Geographic, e Anable chefiou uma expedição científica ao Guiana. Durante a Segunda Guerra Mundial, Anable recebeu uma medalha da Cruz Vermelha pelas suas 8 mil horas de trabalho voluntário.

Em 1950, William Beebe comprou uma casa antiga na selva de Trinidad e fundou uma estação de investigação de borboletas – ou hotel, como lhe chamavam. Jocelyn Griffin juntou-se à equipa para documentar e estudar a “vida privada” das borboletas, escreveu Jocelyn num artigo de 1957 para a National Geographic. “Temos de salvaguardar não só o conforto do lar e uma alimentação excelente para os nossos insetos, como a companhia e o espaço adequados para o berçário.” Mais tarde, Jocelyn fez a gestão de estações de campo nas Caraíbas e conduziu um estudo global sobre caranguejos Uca. Quando William Beebe morreu em 1962, Jocelyn substituiu-o na direção do Departamento de Pesquisa Tropical.

Hoje, uma réplica da batisfera está na entrada da sede da National Geographic, em Washington, D.C. Mais de 90 anos depois de a original ter sido construída, continua a alimentar a imaginação dos exploradores.

Numa entrevista feita em 1991, a pioneira subaquática Sylvia Earle foi questionada sobre o que a inspirou a seguir oceanografia. Sylvia citou as histórias de William Beebe. “Os aquários do mundo, por mais maravilhosos e diversos que sejam... não têm o tipo de criaturas que Beebe descreveu na década de 1930. E isso foi algo que eu achei completamente inspirador.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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