Animais

Metade de Todas as Espécies Está Em Movimento e As Provas Estão à Vista

As alterações climáticas estão levar as mais variadas espécies a procurarem outros habitats, desde alces a micróbios, e isto está a ter efeitos nos alimentos, nas atividades e nas doenças dos seres humanos.Thursday, November 9, 2017

Por Craig Welch
De acordo com as conclusões de um estudo federal recente, a primavera está a chegar vinte dias mais cedo no sudoeste dos Estados Unidos — o que é visível mesmo em áreas tão a norte como o Jardim Botânico de Nova Iorque, onde os áceres espalham as suas folhas.

Os arbustos foram, provavelmente, os primeiros a reagir. No século XIX, a altura dos amieiros e dos salgueiros a florir no Ártico alasquiano não era superior à de uma criança pequena — não chegavam a um metro. Mas com o aumento da temperatura provocado pelas emissões de combustível fóssil e da duração das épocas de crescimento, os arbustos multiplicaram-se e prosperaram. Agora, muitos têm praticamente 1,80 metros.

O facto de os arbustos terem crescido atraiu alces, que, antes do século XX, raramente atravessavam a Brooks Range. Estes animais de pernas esguias vão percorrendo o leito do rio Ártico, sempre que a vegetação tem uma altura suficiente para cortar a densa neve. Atrás destas, as lebres-americanas, que também andam à procura de comida nos arbustos.

Atualmente, os alces e as lebres fazem parte da dieta de subsistência dos caçadores indígenas, no norte do Alasca, uma vez que o degelo do mar dificulta a caça de animais como as focas, um alimento tradicional. (Noutro lugar distante do Planeta, veja como um caminho de ferro controverso divide os parques do Quénia e ameça a vida selvagem).

Esta é apenas uma entre as milhares de alterações que as mudanças climáticas estão a provocar na vida de plantas e animais, e que, ao longo deste processo, estão a ter um impacto direto e, em alguns casos, profundo, nos seres humanos. À medida que o Planeta aquece, as espécies estão a alterar o local onde se desenvolvem, bem como a forma como o fazem e o momento em que isto acontece. Estão a movimentar-se para zonas mais altas nas encostas e em direção aos polos. Isto representa já mudanças na alimentação das pessoas; o aparecimento de novos riscos de doenças; a criação de novos setores importantes; e alterações na forma como os povos estão a utilizar a terra e o mar.

“Estamos a referir-nos à redistribuição das espécies de todo o Planeta”, afirma Gretta Pecl, a autora principal de um novo estudo publicado em Science, que analisou as implicações da vida selvagem em movimento.

À medida que o Atlântico aquece, a cavala dirigiu-se mais para Norte, originando a sua pesca ao largo da Islândia.

GERMES E EPIDEMIAS EM MARCHA

As alterações já são bastante significativas. A malária, por exemplo, é agora detetada em áreas mais elevadas das encostas das montanhas, na Colômbia e na Etiópia, uma vez que o aumento das temperaturas abre caminho para os mosquitos voarem até uma altitude superior. A leishmaniose, uma doença que pode ser fatal e que, inicialmente, afetava apenas zonas tropicais, encontra-se agora no norte do Texas, porque os mosquitos que hospedam o parasita que causa a doença dirigiram-se para norte.

A agricultura também está a sentir as consequências, à medida que as pragas nas culturas agrícolas se vão multiplicando. As traças (Plutella xylostella), que devastam diferentes tipos de couves cultivadas por agricultores pobres do meio urbano, estão a alastrar-se na África do Sul. Na América Latina, começam a surgir fungos e pragas na planta do café em novas áreas, ameaçando um setor de atividade de extrema importância. O mesmo está a acontecer com as azeitonas, as uvas e a alfazema, em França. Nos Estados Unidos, os cientistas suspeitam de que a mudança climática impulsionou a rápida disseminação de sorgo-bravo, uma planta extremamente invasiva que impede o crescimento de legumes, do milho, do sorgo e da soja.

Há quem esteja a ser beneficiado: a sarda do Atlântico deslocou-se tão para norte que a frota islandesa, que em tempos raramente conseguia apanhar peixe, partilha agora com a Europa um dos setores mais importantes. A ideia a reter é a de que os efeitos das mudanças climáticas na vida selvagem são já significativos, seja para o bem ou (na maioria) para o mal.

“Os dados biológicos são incrivelmente surpreendentes, mas ainda não estamos a par de tudo”, refere Pecl. “Estamos a assistir à maior mudança dos nossos sistemas ambientais que o mundo registou em milhões de anos. E está a afetar as pessoas.”

METADE DE TODOS OS SERES ESTÃO EM MOVIMENTO

Há já muito tempo que era do conhecimento dos cientistas que a distribuição das espécies mudaria em função das alterações climática. Não estavam a contar era que tal pudesse vir a acontecer tão rapidamente.

Uma amostra de mais de 4000 espécies provenientes de todo o mundo demonstra que cerca de metade estão em movimento. As espécies terrestres estão a deslocar-se, em média, mais de 16 quilómetros por década, enquanto as espécies marinhas estão a deslocar-se a uma velocidade quatro vezes superior. Algumas espécies específicas estão a deslocar-se muito mais rapidamente. De acordo com Camille Parmesan, cientista na Universidade de Plymouth, no Reino Unido, o bacalhau do Atlântico e a borboleta Apatura iris, da Europa, moveu-se mais de 200 quilómetros em apenas dez anos.
 

O aquecimento está também a mudar os períodos dos ciclos biológicos. Globalmente, os sapos e outros anfíbios estão a reproduzir-se, em média, oito dias mais cedo a cada década que passa, ao passo que os pássaros e as borboletas estão a reproduzir-se quatro dias mais cedo. (Esta rã foi descoberta há pouco tempo e já se encontra em perigo de extinção.)

Após a análise aos registos feitos por Henry David Thoreau, autor de Walden, os cientistas demonstraram que plantas de todos os tipos, em Concord, Massachusetts, florescem agora 18 dias mais cedo, em comparação com a data de florescimento registada nos anos 50 do século XIX.  

“Em todos os cantos do mundo, as coisas estão a acontecer mais cedo na primavera — na China, no Japão, na Coreia, pela Europa... — estes são os sinais mais fortes de todos”, refere Richard Primack, biólogo e professor na Universidade de Boston. “A altura em que as árvores e os arbustos ganham folha na primavera determina todo o período da época de crescimento. Pode mudar por completo toda a ecologia da floresta.”

Não é fácil prever o momento em que a mudança vai parar; quando as espécies dentro de um determinado ecossistema se deslocam no espaço e no tempo, nem todas têm o mesmo ritmo de mudança nem respondem da mesma forma aos mesmos sinais. Algumas estão a adaptar-se às mudanças de temperatura, outras são mais influenciadas pela luz do sol ou pelas alterações na precipitação. Na Califórnia, algumas plantas da montanha, como a cicuta, estão, na verdade, a surgir nas zonas mais baixas da montanha, em busca de temperaturas mais amenas, uma vez que as alterações climáticas provocaram um aumento na precipitação nos vales outrora áridos. Numa região do Colorado, as flores silvestres permanecem agora mais um mês, porque as flores deixaram de brotar todas ao mesmo tempo.

Por todo o mundo, surgem novas espécies híbridas — sapos, tubarões, borboletas, ursos e trutas são algumas das espécies documentadas até ao momento. O resultado híbrido tem origem na reprodução cruzada de espécies que se misturaram recentemente devido às mudanças climáticas.
(Descubra a espécie de Tartaruga que já só tem 3 exemplares vivos no mundo).

Há outras espécies ameaçadas devido à destruição de relações ecológicas. A seixoeira, por exemplo, é uma ave marinha que migra dos trópicos para o Ártico todas as primaveras para reproduzir-se e alimentar-se de insetos. Uma vez que o gelo do Ártico está a derreter e a incubação acontece semanas antes de os pássaros chegarem, sobra muito pouco alimento para as crias da seixoeira — e, pelo menos no caso da população que migra do oeste de África,  os bicos dos jovens pássaros são muito pequenos para arrancar moluscos das praias de areia.

Uma rena no Parque Nacional de Denali, no Alaska. Na Gronelândia, a mudança climática aumentou a mortalidade das renas, visto que a abundância de plantas forrageiras tem agora o seu pico antes da chegada destes animais.

Do mesmo modo, no oeste da Gronelândia, a taxa de mortalidade das jovens renas está a aumentar porque as plantas de que as mães se alimentam na época de nascimentos já não são abundantes. No Japão, a erva Cordyalis ambigua está agora a florescer antes de as abelhas saírem para a polinizar, o que está a provocar a diminuição da produção de sementes. Ao mesmo tempo, e de uma forma global, as abelhas estão a ser obrigadas a deslocaram-se para zonas mais a sul do seu habitat habitual, devido ao aumento das temperaturas e, por alguma razão, não estão a ocupar áreas mais para norte.

“Qualquer pessoa que passe tempo no exterior a observar pássaros, a pescar ou a caçar já se apercebeu de mudanças nas épocas e na migração”, diz David Inouye, professor emérito na Universidade de Maryland, College Park, que trabalhou durante décadas nas Montanhas Rochosas. “Penso que o que pode ser visto como novidade é o facto de todas as comunidades estarem a ser afetadas.”

Em acréscimo, estas mudanças nas espécies começam a ter um impacto nas pessoas, especialmente no extremo norte, de uma forma que ninguém previu.

NÃO HÁ CANÇÕES SOBRE AS ZIBELINAS

Tero Mustomen, que trabalha com o grupo finlandês Snowchange Cooperative, ouviu uma queixa curiosa por parte de líderes indígenas na Sibéria: “Não há canções sobre a zibelina, não há histórias antigas sobre a zibelina”, disseram-lhe. As zibelinas são criaturas da floresta que não habitavam normalmente na tundra do Ártico. A recente chegada não representa, por si só, um grande desafio — mas simboliza, como explica Mustonen, a medida em que os territórios do Ártico deixaram de ser totalmente reconhecidos pelos povos indígenas que ali vivem há séculos. Na Suécia, existe um lago que tem sido desde sempre conhecido como O Lago dos Pinheiros; está agora rodeado de bétulas.

Algumas das mudanças representam, obviamente, desafios maiores. A constituição de pergelissolo altera os solos e está a provocar o desaparecimento de lagos onde antigamente nómadas naturais da Lapónia pescavam e as renas bebiam água. Na Suécia, lagos e riachos cuja água era antes utilizada para consumo estão agora contaminados com o parasita giárdia, responsável por doenças no aparelho intestinal dos seres humanos. Os castores que acompanham o aparecimento de salgueiros a norte foram, provavelmente, os responsáveis pela propagação do parasita, afirma a investigadora Maria Furberg, que está a acompanhar o aparecimento de surtos de doenças no extremo norte.

A incidência de tularémia transmitida por insetos, também conhecida como a febre dos coelhos, cresceu dez vezes mais no norte da Suécia, em 30 anos, regista Furberg. Apenas no mês anterior, os cientistas anunciaram que a encefalite transmitida por carraças aumentou 23 vezes mais na República de Komi, nos Montes Urais a oeste da Rússia. As mudanças climáticas permitiram que as carraças se expandissem.

Todas estas alterações estão a provocar desconforto, em especial, entre siberianos e escandinavos, refere Mustonen. “A Natureza já não confia mais em nós”,  foram as palavras que alguns anciãos lhe disseram.

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