Animais

Um Gorila Que Perdeu a sua Mãe Foi Criado Por Esta Mulher

A crescente comercialização de carne de animais selvagens põe em risco crias de primatas quando os adultos são mortos por caçadores furtivos. Quinta-feira, 9 Novembro

Por Jani Actman

Rachel Hogan sentou-se no chão a mastigar uma folha de bananeira enquanto Nkan Daniel, um gorila bebé, a observava. Hogan esperou que o gorila lhe desse algum indício de que conseguia imitar o que estava a fazer. Efetivamente, segundos depois, o próprio macaco agarrou algumas folhas e começou a petiscar.

Corria o ano 2001, e Hogan estava nos Camarões numa estadia de três meses de voluntariado na Ape Action Africa, uma organização sem fins lucrativos que salva primatas. Conhecer Nkan Daniel (Nkan significa gorila no dialeto local) mudou a sua vida, como a própria diz. Hogan ficou nos Camarões e, em 2010, tornou-se diretora da Ape Action Africa.

O bebé gorila, de apenas duas semanas, foi encontrado pelo governo camaronês em casa de uma mulher que esperava vendê-lo como animal de estimação, por cerca de 27 euros. Os caçadores furtivos tinham matado a sua progenitora e os seus outros familiares para o comércio da “carne de animais selvagens”. Um pouco por toda a África, mas especialmente nos Camarões e nos países vizinhos da baía do Congo, a procura de carne de animais selvagens – símios e macacos, mas também morcegos, porcos-espinhos e uma variedade de outras espécies – tem estado a aumentar.

Quando Nkan Daniel chegou ao santuário africano da Ape Action no Parque Nacional de Mefou, que fica a 45 minutos de carro da capital dos Camarões, Laundé, alguém o entregou a Hogan. “Eu peguei nele ao colo à minha frente, tal como faria uma gorila fêmea, e foi aí que ele ficou apegado a mim”, recorda.

Daí em diante, quase nunca a largava. Hogan, que não estava preparada e estava aterrorizada, começou a desempenhar o papel de mãe gorila. Ensinou-o a comer e atendeu os seus queixumes. Quando dormia, ele dormitava, deitado no seu peito. Enquanto tomava duche e se vestia, ele continuava firmemente abraçado. “Aprendi a fazer tudo com uma só mão”, diz a rir. “Nessa altura, cuidar dele era o mais importante.”

Mas, atualmente, Hogan divide os seus esforços por todos os animais que estão espalhados pelos 1012 hectares do santuário: 213 macacos, 111 chimpanzés e 23 gorilas, alguns recolhidos na floresta e outros salvos do comércio ilegal de animais de estimação. Todos ficaram órfãos muito cedo, quando os caçadores furtivos mataram os adultos das suas famílias para vender a sua carne.

Os habitantes das vilas há muito que capturam ou matam animais da floresta para subsistir. Mas este tipo de caça tem vindo a aumentar bastante, favorecida pelo aumento da construção de estradas na floresta, para transporte dos produtos da indústria madeireira e mineira, e impulsionada pelo aumento da procura nos mercados urbanos, onde consumidores com maior poder de compra consideram a proteína de fonte selvagem uma iguaria e um símbolo de estatuto social. Um nicho de mercado internacional começa a aparecer na Europa e nos Estados Unidos.

O comércio de carne de animais selvagens, na sua grande maioria ilegal, já deu origem a negócios subsidiários: por exemplo, restos de crânios de primatas são enviados para os Estados Unidos, onde são apreciados como troféus. São também enviados para a China para ser usados na medicina popular. E as crias órfãs de primatas, que têm ainda pouca carne para render no negócio dos talhos, podem originar algum lucro aos caçadores, sendo vendidas no mercado de animais de estimação exóticos.  

Os preservacionistas estimam que mais de seis milhões de toneladas de carne de animais selvagens sejam tiradas da bacia do Congo todos os anos. Denis Mahonghol, um agente florestal e do comércio que trabalha com a TRAFFIC, a organização que monitoriza o comercio global de animais selvagens, diz que nos Camarões “o problema aumenta de ano para ano.”

O comércio de primatas – especialmente vulneráveis à caça, porque se reproduzem mais lentamente do que outras espécies mais pequenas – constitui a maior parte do negócio. Por exemplo, intensa caça furtiva é uma das grandes ameaças aos gorilas-do-oriente bem como aos gorilas-do-ocidente, duas espécies que podemos ainda encontrar na bacia do Congo. Todo o ecossistema sofre com o decréscimo do número de primatas: os animais alimentam-se de fruta fresca da floresta e, pelas fezes, dispersam as sementes, ao andar de um lado para o outro na selva.

Muitos países africanos, incluindo os Camarões, ilegalizaram a caça de espécies que estejam em risco de extinção, como os grandes símios e os pangolins, e um tratado das Nações Unidas proíbe a venda além fronteiras desses animais, inteiros ou em pedaços. Para além disso os Estados Unidos, a Inglaterra e outros países baniram a importação de carnes exóticas por terem um elevado potencial para espalhar doenças: já foram encontradas ligações entre o consumo de carnes de animais selvagens e a transmissão de doenças como o Ébola e o HIV.

Hogan diz que as campanhas educacionais e a repressão exercida pelas forças da lei ajudaram na sensibilização do público para este problema e foram eficazes na diminuição do negócio ilegal. “Já todos sabem que é ilegal”, esclarece.

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Mas Mahonghol, que tem trabalhado no combate do negócio da carne de animais selvagens desde 2008, afirma que a corrupção generalizada tem posto muitos entraves ao progresso real da situação: “As leis e regulamentações estão feitas, mas implementá-las no terreno é um grande problema.” Explica-nos ainda que, em troca de subornos, alguns agentes de autoridade fingem que não vêm o que se passa ou chegam mesmo a emitir licenças de caça.  

Para alguns caçadores e comerciantes, a perspectiva de fazer grandes lucros faz com que valha a pena correr o risco de serem presos. Na ilha de Bioko, situada na costa da Guiné Equatorial, um lugar onde, de acordo com o Centro Para o Desenvolvimento Global, 77 por cento da população vive com menos de 670 euros por ano, um caçador pode ganhar 1800 euros por ano a vender carne de animais selvagens. (Leia mais sobre a caça de carne de animais selvagens na ilha de Bioko)

Nkan Daniel vive no santuário, a salvo dos caçadores – é hoje, um macho dominante gorila-do-ocidente – e lidera um bando de mais 10 gorilas que lá permanecerão até ao fim das suas vidas. Apesar de se ter tornado num líder da sua família, ele não perdeu o afeto pela mulher que o criou. “Há 16 anos que ele me vê como a sua mãe”, diz Hogan. “Ele é o amor da minha vida.”

Ainda assim, lamenta que tenham sido forçados a juntar-se. “Ficaria muito feliz se nunca tivesse conhecido o Nkan Daniel, e digo o mesmo de todos estes animais do santuário, porque o lugar deles não devia ser aqui connosco”, declara. “Eles deviam estar na floresta.”

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