Animais

Os Pandas-gigantes Já Não São Considerados uma Espécie Ameaçada

Já os hominídeos estão cada vez mais perto da extinção. Segunda-feira, 30 Outubro

Por Christine Dell'Amore

Em Honolulu, capital do Havai, ao fim de meio século, os esforços desenvolvidos para salvar os pandas-gigantes estão finalmente a dar frutos: o icónico mamífero preto-e-branco já não é considerado uma espécie em vias de extinção – anunciou a Unidade Internacional para a Proteção da Natureza (UIPN).

Naturais das florestas de bambu da China, os pandas deixaram de ser considerados uma espécie ameaçada, passando assim para a categoria dos animais vulneráveis na Lista Vermelha das Espécies Ameaçadas da UIPN. Na última atualização da lista constam 82,954 espécies, das quais 23,928 correm risco de extinção. 

Na década que culminou em 2014, as comunidades de pandas-gigantes (considerados uma espécie ameaçada desde 1990) aumentaram de forma estável em 17%, quando um levantamento de dados a nível nacional encontrou 1850 pandas-gigantes a viver na natureza, na China. O levantamento anterior, em 2003, registava apenas 1600.

“É um ótimo dia para se ser panda,” afirma Ginette Hemley, vice-presidente sénior da organização sem fins lucrativos World Wildlife Fund (WWF) cujo logo é, curiosamente, um panda gigante. “Estamos muito entusiasmados!”

Este sucesso deve-se, principalmente, a dois fatores: um considerável decréscimo da caça furtiva, que teve o seu apogeu nos anos 80; e uma expansão significativa das áreas protegidas que constituem habitat para os pandas.

“A China conta agora com 67 reservas de pandas-gigantes, semelhantes aos parques naturais dos Estados Unidos,” diz-nos Hemley.  Contou-nos, ainda, que o antílope-tibetano, uma espécie ameaçada, perseguida no passado por causa da sua pele, também está, a pouco e pouco, a deixar de correr perigo de extinção. Esta espécie montanhesa é agora considerada ‘apenas’ como vulnerável, segundo a Lista Vermelha das Espécies Ameaçadas da UIPN.

“É um rótulo merecido,” afirma M. Sanjayan, investigador sénior na organização sem fins lucrativos Conservation International. “O governo chinês investiu 30 anos de trabalho na conservação dos pandas – ninguém vai permitir que os pandas sejam extintos.”

Contudo, Marc Brody, conselheiro sénior para a conservação e o desenvolvimento sustentável na Reserva Natural de Wolong, defende que, “Ainda é demasiado cedo para concluirmos que as comunidades de pandas estão mesmo a aumentar na natureza – talvez estejamos apenas melhores a contar pandas. Apesar de o governo merecer o crédito e o nosso respeito pelos progressos alcançados no que diz respeito ao tratamento dos pandas (tanto em cativeiro como na natureza), creio que ainda não há um motivo plausível para se considerar os pandas como uma espécie, apenas, vulnerável.”

"Na verdade, com o aumento da fragmentação do território, a construção de novas autoestradas, o aumento do turismo na província de Sichuan e outras atividades económicas, a qualidade dos habitats adequados para os pandas tem vindo a decrescer.”

OS HOMINÍDEOS ESTÃO EM PERIGO

As notícias a respeito dos nossos primos afastados também não são as melhores. O maior primata vivo, o gorila-ocidental-das-terras-baixas, encontra-se no limiar da extinção, tendo a sua comunidade sofrido um declínio de 70% ao longo dos últimos 20 anos.

“Somos a única espécie de hominídeos que não está seriamente ameaçada,” declara Carlo Rondinini, coordenador do Programa Global de Avaliação de Mamíferos do UIPN.

A caça furtiva, o comércio de espécies selvagens e dos seus derivados, bem como a perda de habitats têm contribuindo em grande escala para o declínio destas comunidades.

“Estamos a conduzir os nossos familiares mais próximos para o abismo”, diz Sanjayan.

A caça furtiva é o maior flagelo para os gorilas-ocidentais-das-terras-baixas, uma subespécie que sofreu um declínio na ordem dos 76,5% entre 1994 e 2015.

 

“O estatuto de animal seriamente ameaçado vai fazer com que se preste mais atenção à chacina de que estes gorilas estão a ser vítimas,” afirma Andrew Plumptre, coordenador do projeto de atualização da lista de gorilas-ocidentais-das-terras-baixas e conservacionista sénior no Programa do Uganda da Wildlife Conservation Society. “Trata-se hominídeo mais desprezado em África, apesar de ser o maior do mundo.”

O relatório da Lista Vermelha sublinha, ainda, “o impacto devastador das espécies invasoras” – 87% das 415 plantas nativas do Havai correm perigo de extinção. “Quando perdemos espécies de plantas, perdemos tesouros culturais insubstituíveis,” explica-nos Matt Keir, membro de um grupo de especialistas em plantas associado ao UIPN.

SALVÁMOS A ESPÉCIE, MAS A NOSSA MISSÃO NÃO TERMINA AQUI

A boa notícia é que as comunidades de gorilas-das-montanhas, uma subespécie do gorila-ocidental-das-terras-baixas, parecem não estar a diminuir consideravelmente por causa do ecoturismo na República Democrática do Congo, Uganda e no Rwanda, conta-nos Hemley, da WWF.

No entanto, Hemley alerta-nos para o facto de a população de gorilas-das-montanhas ser ainda muito pouco numerosa, contendo menos de mil indivíduos.

Da mesma forma, com uma população de apenas 2000 indivíduos, os pandas-gigantes também não estão livres de perigo. Vários modelos de previsão, alertam para a possibilidade de as alterações climáticas reduzirem a abundância das florestas de bambu em 30% ao longo dos próximos 80 anos.

O sucesso alcançado ainda sabe a pouco. “A conservação da natureza é um compromisso a longo-prazo”, afirma Hemley.

Sanjayan, da Conservation Internacional, concorda: “Podemos celebrar as pequenas vitórias, mas não nos podemos esquecer que a guerra ainda não acabou.”

No fundo, o sucesso alcançado, o aumento do número de pandas, é uma prova de que “a conservação funciona,” acrescenta Inger Andersen, diretor geral da UIPN.

“Podemos ajustar o barómetro da vida.”

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