50 Anos Depois, O Estudo dos Chimpanzés Feito Por Jane Goodall Ainda Proporciona Novas Descobertas

Pela primeira vez em décadas, cientistas abordaram quantitativamente a informação contida no famoso trabalho da primatologista sobre o temperamento dos chimpanzés.segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Os chimpanzés selvagens do Gombe Stream National Park, na Tanzânia são o centro da pesquisa inovadora de Jane Goodall. Agora, pela primeira vez em décadas, cientistas comportamentais revisitaram algumas das observações originais de Goodall sobre a personalidade dos animais.

O novo estudo proporciona uma outra perspetiva, que sugere que, tal como as dos humanos, as personalidades dos chimpanzés são estáveis ao longo da vida – uma descoberta que poderia ajudar os cientistas a testar ideias que estudem a evolução do temperamento humano.

“Este é o grupo de chimpanzés mais famoso do mundo, e eu pensei que esta seria uma oportunidade fantástica”, afirma o responsável pelo estudo Alexander Weiss, um psicólogo da Universidade de Edimburgo.

“Fazer um estudo de personalidade em ambiente de jardim zoológico tem as suas vantagens, mas se quiser explorar questões que se prendem com, por exemplo, a relação da personalidade com o sucesso reprodutivo... esse estudo não é possível com espécimes em cativeiro. Temos de fazer o estudo com animais em estado selvagem.”

As suas classificações das personalidades de 128 chimpanzés – muitas das quais foram estudadas pela própria Goodall no decorrer dos anos 60 e 70, do século passado – foram publicados a 24 de outubro no jornal Scientific Data.

CHIMPANZÉ CANIBAL

As observações de campo de Goodall acerca dos chimpanzés de Gombe, com o apoio da National Geographic Society, revelaram que os chimpanzés não só comem carne, mas também utilizam ferramentas, constroem-nas e têm traços de personalidade únicos.

Em 1973, o investigador Peter Buirski visitou Gombe com a permissão de Goodall, para continuar a investigação sobre personalidade. Com base nos levantamentos feitos pelos funcionários de Gombe, a equipa analisou 10 traços comportamentais diferentes dos perfis de 24 dos chimpanzés de Gombe, como, por exemplo, a beligerância e a ludicidade.

Jane
Jane Goodall foi a pessoa que mais ensinou ao mundo sobre chimpanzés. O seu sonho de estudar os nossos parentes mais chegados começou em 1960, em Gombe Park, na Tanzânia.

O estudo de sucesso mostrou que os chimpanzés-machos e os chimpanzés-fêmeas tendem para personalidades diferentes; por exemplo, as fêmeas têm tendência para ter mais confiança e para ser mais tímidas do que os machos.

A equipa escolheu não incluir um caso atípico: uma fêmea chamada Passion, que os funcionários de Gombe viam como um indivíduo “perturbado, isolado e agressivo”, Buirski e um colega escreveram mais tarde. Em 1975, Passion teve um surto e iniciou uma onda de assassinatos canibais, raptou e comeu, pelo menos, três crias de chimpanzé.

A carcaça foi consumida da mesma forma que são consumidas as presas normais, devagar e com deleite, cada bocado de carne foi mastigado acompanhado de algumas folhas verdes”, observou Goodall no seu livro de 1990, Through a Window.

EM BOA COMPANHIA

A pesquisa de 1973 estava provavelmente, à frente do seu tempo; o interesse científico na personalidade animal só começou a despertar interesse no final de 1990 e no princípio de 2000.

No meio do turbilhão do novo estudo, os cientistas que estudavam os chimpanzés em cativeiro tinham já desenvolvido uma nova forma de questionário comportamental que inspirou Weiss e os seus colegas a refazer a pesquisa junto dos assistentes de campo que trabalham em Gombe.

Em outubro de 2010, Weiss viajou primeiro para o noroeste da Tanzânia, encontrou-se com os 18 assistentes de campo de Gombe, e pediu-lhes que avaliassem as personalidades de 128 chimpanzés. Ao fim de oito semanas, Weiss e os seus colegas tinham recolhido mais de 11 mil respostas de questionários dos assistentes, alguns deles observavam os chimpanzés do parque há já 35 anos.

“Foi bastante inspirador – já tinha ouvido falar destes assistentes de campo, ao ler o trabalho de Goodall”, afirma Weiss. “Foi um privilégio incrível eles terem dedicado o seu tempo a isto.” Quando Weiss e os seus colegas compararam as novas pesquisas com os resultados de 1973, encontraram informação sobre a personalidade dos chimpanzés que se manteve constante ao longo do tempo.

Por exemplo, muitos dos macacos que foram classificados como sendo “gregários” em 1970 foram considerados “extrovertidos” nesta nova pesquisa. Alguns daqueles que no primeiro estudo foram considerados “deprimidos” foram agora classificados como tendo um carácter “agradável”.

SÓ O PRINCÍPIO

Desde que percebeu que as duas bases de dados eram maioritariamente concordantes, a equipa defende que as personalidades dos chimpanzés não mudam muito ao longo do tempo.

Esta estabilidade, sugerida já noutros estudos, poderia ajudar os cientistas a testar como é que diferentes personalidades afetam o sucesso reprodutivo e outros aspetos da vida das pessoas. Estas questões são apenas um pequeno exemplo das respostas que estes dados nos podem dar – e foi essa a razão pela qual Weiss e a sua equipa decidiram publicar integralmente o seu estudo. “Eu não tenho tempo de vida suficiente para fazer tudo o que quero com esta informação, então pensei: porque não deixar que outras pessoas a explorem?”, explica Weiss. “Será muito interessante de ver.”

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