Assaltantes Estão a Invadir Jardins Zoológicos Para Roubar Animais Raros

Os funcionários dos jardins zoológicos europeus atacados acreditam que a responsabilidade é do crime organizado.segunda-feira, 27 de novembro de 2017

No primeiro dia de escola em Krefeld, uma cidade alemã próxima das margens do Reno, o jardim zoológico estava praticamente vazio. Chuviscava e os animais deveriam estar a desfrutar da calma e do sossego após a agitada época estival.

“Aqui em Krefeld, as pessoas podem aproximar-se dos animais”, diz Wolfgang Dressen, o diretor do jardim zoológico. Encontrávamo-nos ao lado da exposição dos camelos, onde uma vedação baixa de corda impede que os visitantes entrem no cercado. “No ano passado, decidi pôr aqui esta corda por causa das selfies”, continua.

A caminho do alojamento dos gorilas, Dressen, um homem de meia-idade, olhos azuis a cabelo castanho grisalho, percorreu com os seus dedos o gradeamento metálico que tinha mandado instalar nas janelas. “Consegue cheirá-los?”, perguntou entusiasticamente. “Temos este tipo de gradeamento para que os visitantes possam cheirar os gorilas.”

Mas eu não tinha ido ao Jardim Zoológico de Krefeld para visitar as exposições que tanto orgulhavam o seu diretor. Ele conduziu-me por um caminho que passava pelos suricatas, pelos porcos-vermelhos e pelos pelicanos-rosados, até chegarmos a um lago com uma ilha coberta de vegetação no centro.

“É este o cercado”, diz Dressen. Alguns patos, os intrusos da natureza, repousavam nas margens da ilha. Além destas aves, a ilha estava deserta. A única indicação dos seus anteriores ocupantes era dada por uma placa, onde se podia ler: “No verão de 2015, os nossos preciosos micos-leões-dourados foram roubados por vendedores de animais profissionais.”

Os ladrões invadiram o jardim zoológico na noite de 24 de julho e levaram consigo a jaula onde um casal de micos-leões-dourados e a sua cria adolescente dormiam. Apesar de o jardim zoológico já ter sido invadido após o fecho noutras ocasiões — um “brincalhão” abriu o cercado das chitas, permitindo que uma fêmea escapasse e matasse 10 cangurus — nunca tinha havido nenhum roubo de animais desde que Dressen assumiu o cargo de diretor, em 2003.

Na manhã seguinte, quando Dressen descobriu o roubo, chamou a polícia e começou a avisar os outros jardins zoológicos. O diretor ficou surpreendido ao saber que Krefeld não era a primeira vítima deste tipo de crime. Apenas dois meses antes, em maio de 2015, sete micos-leões-dourados tinham desaparecido do Parque Zoológico de Beauval, na França. No ano anterior, cinco micos-leões-dourados foram roubados do Parque de Primatas de Apenheul, nos Países Baixos.

Em cada um dos casos, os criminosos foram eficientes e profissionais. Os assaltantes de Krefeld terão, possivelmente, observado e estudado o local, e planeado cuidadosamente o golpe. “Isto é, sem sombra de dúvida, crime organizado”, afirma Dressen.

É fácil perceber porque é que alguém pode querer um mico-leão-dourado como animal de estimação — estes pequenos macacos ‘de bolso’ tem uma pelagem tão laranja que parecem ter sido tingidos com Tang, o sumo concentrado em pó. Contudo, são uma espécie em perigo, autóctone do Brasil, e a sua comercialização é proibida ao abrigo da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção, que regula o comércio global da vida selvagem. No mercado negro, um casal reprodutor pode chegar a valer mais de 25 000 euros.

(Já viu a Sessão Fotográfica de Joel Sartore no Jardim Zoológico de Lisboa)

“UM PROBLEMA GRAVÍSSIMO”

Os micos-leões-dourados estão longe de ser o único saque dos ladrões de jardins zoológicos. Desde 2011, foram roubados cerca de 400 animais de jardins zoológicos europeus. Só em 2015, 25 membros da Associação Europeia de Jardins Zoológicos e Aquários denunciaram roubos.

“É um problema gravíssimo”, afirma Volker Homes, diretor da Associação de Jardins Zoológicos alemã. Os jardins zoológicos perderam vários pequenos primatas, incluindo lémures-de-cauda-anelada, saguis-brancos e macacos-esquilo. Os répteis e as aves exóticas, tais como papagaios e pinguins, são também alvos frequentes. Num destes casos, os ladrões roubaram 79 tartarugas de um jardim zoológico francês de uma única vez.

Os roubos dos micos-leões-dourados foram particularmente perturbadores para a comunidade de jardins zoológicos, uma vez que estes animais têm servido como espécie emblemática para a transformação dos jardins zoológicos nas últimas décadas.

Até aos anos 50, os jardins zoológicos capturavam os animais na natureza, sem grande preocupação com o seu bem-estar. Mas quando o movimento conservacionista começou a ganhar expressão, na segunda metade do século XX, os jardins zoológicos repensaram os seus objetivos e alteraram os seus métodos: estas instituições queriam ser vistas como protetoras dos animais no seu ambiente selvagem, e a pedra angular desta mudança foi a reprodução cooperativa. Foram desenvolvidos programas de reprodução, nos quais os animais eram permutados entre os jardins zoológicos, para reduzir a consanguinidade e criar populações em cativeiro sustentáveis.

Um animal de zoológico já não era uma mera atração enjaulada, mas antes um “embaixador”, que servia para despertar consciências acerca das situações que a sua espécie encontrava na natureza. Em alguns casos, se o programa de reprodução fosse bem-sucedido, os animais poderiam, inclusivamente, ser devolvidos ao seu habitat natural.

Nenhuma espécie foi tão eloquente a contar a sua história como o mico-leão-dourado. Nos anos 70, a desflorestação tinha conduzido estes pequenos primatas à beira da extinção: apenas cerca de 150 indivíduos continuavam a habitar a floresta húmida atlântica do Brasil. Em 1983, vários conservacionistas e funcionários de jardins zoológicos, liderados pela equipa do Jardim Zoológico Nacional de Washington, D.C., deram início ao Programa de Conservação do Mico-leão-dourado, que se propunha a reproduzir estes primatas em cativeiro para depois os reintroduzir no seu habitat. Os micos-leões reproduziam-se com tal facilidade que os jardins zoológicos começaram a reintroduzi-los em explorações florestais privada, e, em 1998, a organização e os seus parceiros ajudaram o governo brasileiro a adquirir porções de habitat adequados, próximo do Rio de Janeiro, para criar uma reserva biológica.

Atualmente, há 3200 micos-leões-dourados livres em meio selvagem no Brasil, e 150 jardins zoológicos têm outros 550 em cativeiro, um pouco por todo o mundo. Tecnicamente, os micos-leões dos zoológicos pertencem ao governo brasileiro, mas são geridos como se de uma única população de tratasse, com os jardins zoológicos a fazerem permutas regulares dos animais, para minimizar a consanguinidade.

Todo este processo é supervisionado por Jennifer Mickelberg, diretora principal de coleções e conservação no Jardim Zoológico de Atlanta, e guardiã do Livro Genealógico do Mico-leão-dourado, que descreve a parentela de todos os micos-leões de zoológico do mundo.

Nos últimos cinco anos, coube a Mickelberg a tarefa desencorajante de registar 17 micos-leões roubados, todos de jardins zoológicos europeus. “É muito preocupante”, diz. “Passámos de saber onde cada indivíduo mantido em cativeiro se encontrava, para uma situação em que temos animais que já não se encontram sob a nossa gestão.”

Um mico-leão desaparecido não representa somente um infortúnio para o próprio animal — prejudica toda a espécie. Um mico-leão que seja mantido como animal de estimação fora do programa de reprodução dos jardins zoológicos não contribui em absolutamente nada para a sobrevivência da espécie.

“Os ladrões estão a diminuir o acervo genético da espécie, que é já bastante pequeno”, afirma Eric Bairrão Ruivo, presidente do Grupo Consultivo de Táxon para os micos-leões dos jardins zoológicos europeus e diretor da coleção e conservação no Parque Zoológico de Beauval, cujos micos-leões-dourados foram roubados em 2015.

“O ÚLTIMO DISPONÍVEL”

Em fevereiro de 2017, uma empresa francesa denominada International Wild & Exotic Live Stock publicitou a venda de um casal de micos-leões-dourados de um criador privado por cerca de €25 000. Um mês antes, um vendedor do Minnesota anunciava um mico-leão-dourado no Facebook, como sendo “o último disponível”.

Nenhum dos dois negociantes se mostrou disponível para comentar, não sendo assim possível determinar como foram obtidos estes micos-leões. É possível que se tratassem de descendentes de micos-leões capturados na natureza ainda antes da espécie ter sido protegida, em 1975. Ou poderão ter sido vítimas de caça furtiva no Brasil. A verdade é que não há nenhum registo oficial destes animais. “Que tenhamos conhecimento, os únicos micos-leões-dourados em mantidos em cativeiro fora da população por nós gerida são os animais que foram roubados”, conclui Mickelberg.

A maioria dos animais dos jardins zoológicos têm microchips que os identificam. Provavelmente, um veterinário que tratasse um destes animais conseguiria ler o chip e verificaria a sua origem — embora não haja registos de que alguma vez um animal roubado de um jardim zoológico tenha sido devolvido desta forma. Apenas numa mão cheia de casos, em que o roubo tinha, geralmente, sido praticado por funcionários sem escrúpulos, é que os animais acabaram por ser devolvidos aos jardins zoológicos.

Os jardins zoológicos e as autoridades responsáveis pela aplicação da lei acreditam que a maioria dos animais roubados da Europa Ocidental são traficados para a Europa de Leste, e depois vendidos colecionadores abastados na Ásia, na Europa e no Médio Oriente.

“O meu receio é que alguém tenha pago a estes indivíduos para irem aos jardins zoológicos e identificar o grupo reprodutor, pois os grupos reprodutores praticamente completos estão a ser roubados”, diz Franz Boehmer, um agente da Agência Federal Alemã para a Conservação da Natureza.

Apesar da natureza global destes crimes, a Europol, o serviço europeu de polícia, afirma que nenhum dos países membros da UE solicitou ajuda na investigação de qualquer caso de roubo de animais de jardins zoológicos. Apesar de os ladrões poderem facilmente atravessar as fronteiras nacionais no interior da UE, as investigações recaem habitualmente sob a jurisdição das forças de polícia locais, que não dispõem dos recursos nem do alcance para localizar estes criminosos.

Em Krefeld, a polícia local excluiu os funcionários do jardim zoológico da lista de suspeitos, tendo comunicado a Dressen que quem quer que tenha roubado os micos-leões-dourados terá, provavelmente, saído do país horas após o crime, e que seria muito difícil localizar esses criminosos. “O nosso departamento de polícia acha que os animais terão sido vendidos na Europa de Leste”, diz Daniel Uebber, porta-voz da polícia de Krefeld.

TERÃO OS MICOS-LEÕES DE KREFELD IDO PARAR À ESLOVÁQUIA?

Uma semana após o roubo dos micos-leões de 2015, Dressen recebeu uma pista de um homem que tinha ouvido falar de um casal micos-leões-dourados que estava a ser vendido na Eslováquia por cerca de 25 000 euros. Segundo a fonte de Dressen, os vendedores afirmavam que tinham recebido há pouco tempo os animais da Alemanha. Dressen transmitiu esta informação ao gabinete do procurador distrital de Krefeld. Contudo, o advogado afirmou que não foi possível identificar nenhuns suspeitos, e arquivou a investigação em outubro de 2015.

Em fevereiro de 2017, Dressen encontrou-se com Boehmer, o agente de vida selvagem alemão que estava atento a par dos roubos de animais de jardins zoológicos por toda a Europa. Boehmer partilhou a pista de Dressen com os seus homólogos eslovacos. “Sabemos que os animais poderão ter estado na Eslováquia, mas desconhecemos se eles continuam por cá ou se terão sido vendidos para fora do país”, diz o Tenente Pavel Matulay, um oficial que investiga crimes ambientais para a polícia nacional eslovaca.

Por vezes, as motivações dos assaltantes de jardins zoológicos são ainda mais perniciosas do que no negócio dos animais de estimação. Em março de 2017, caçadores furtivos invadiram o Jardim Zoológico de Thoiry, na França, mataram um rinoceronte adulto e serraram-lhe o chifre. “Foi a primeira vez que a caça furtiva de um rinoceronte sucedeu num jardim zoológico do ocidente”, afirma Colomba de la Panouse-Turnbull, quadro superior e filha do fundador do Jardim Zoológico de Thoiry.

O QUE É QUE OS ROUBOS SIGNIFICAM PARA OS JARDINS ZOOLÓGICOS

Pouco tempo após o desaparecimento dos micos-leões de Krefeld, Dressen contratou uma patrulha de segurança. Mas os assaltantes regressaram em dezembro de 2015 e roubaram duas araras-azuis-grandes, uma espécie ameaçada de papagaios azuis (de grandes dimensões), que pode chegar a valer dezenas de milhares de euros por cada exemplar. Foi então que Dressen aumentou ainda mais a segurança, reforçando as fechaduras, melhorando o sistema de alarme e implementando controlos de segurança noturnos. Desde então, não ocorreram mais crimes em Krefeld.

Mas a morte do rinoceronte em Thoiry preocupa Dressen. Krefeld tem um dos programas de reprodução para rinocerontes-negros de toda a Alemanha, tendo sido recentemente inaugurada uma nova exposição africana, na qual os rinocerontes podem dormir no exterior. “Esta é a nossa filosofia, mantê-los no exterior”, diz, enquanto observamos uma cria de rinoceronte alimentar-se de palha junto à sua progenitora.

A substituição das jaulas de ferro por exposições abertas, mais naturalistas, foi, tal como os programas de reprodução, uma marca da evolução dos jardins zoológicos, melhorando a vida dos animais e tornando a experiência mais agradável para os visitantes — mas, por outro lado, facilitando o roubo de animais por negociantes gananciosos. Regra geral, é mais fácil e mais barato roubar um animal de um jardim zoológico na Europa do que o encontrar e capturar na natureza. É substancialmente mais difícil policiar e garantir a segurança de um jardim zoológico, com uma vasta área aberta, do que uma instituição pública fechada como, por exemplo, um museu.

“Estes crimes são um retrocesso”, termina Dressen. “Temos de fechar os animais no interior.”

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