Cães Usam a Expressão de “Cachorro Abandonado” Quando Estão a ser Observados

Veja o vídeo: Esta descoberta poderá ajudar a perceber o processo de domesticação do melhor amigo do Homem – uma relação com 30 000 anos.quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Os Cães Mudam a Sua Expressão Facial Quando os Humanos Prestam Atenção
Os Cães Mudam a Sua Expressão Facial Quando os Humanos Prestam Atenção

Os cães mudam a expressão do olhar quando sabem que estão a ser observados por pessoas – e é provável que o façam numa tentativa de comunicar.

Por exemplo, os canídeos sobre os quais se debruçou o estudo fizeram a clássica expressão de “cachorrinho abandonado” – levantam a sobrancelha interior para fazer os seus olhos parecerem maiores do que são, o que lhes confere um ar mais infantil – quando olham um humano nos olhos.

Esta descoberta vem ajudar os cientistas a perceberem melhor a relação entre os cães e os seres humanos, uma das mais antigas relações da nossa espécie. Há mais de 30 mil anos que humanos e cães convivem, e, a além disto, a evolução parece ter esculpido o comportamento dos canídeos.

A investigação mostra que os cães estão constantemente a observar os humanos. Observam atentamente os nossos gestos, e, comparando o  seu comportamento com o de filhotes de lobo criados por humanos, tendem a olhar nos olhos dos humanos com mais frequência.

“Os cães interpretam gestos humanos e sinais não-verbais de comunicação como nenhum outro animal o faz”, explica-nos, por e-mail, Juliane Kaminski, psicóloga da Universidade de Portsmouth e autora principal do estudo.

EXPRESSÃO TRISTE

Para entender melhor as motivações das expressões do olhar dos cães, a equipa de Kaminski analisou as reações de 24 cães domésticos – selecionadas aleatoriamente de uma base de dados de famílias voluntárias da Alemanha –, no âmbito de quatro possíveis cenários.

Os cães foram levados, um de cada vez, para uma divisão silenciosa, eram colocados a poucos metros de uma pessoa que nunca tinham visto antes, e ocorriam as seguintes quatro situações: o humano olha o cão nos olhos segurando um pedaço de comida; o humano olha o cão nos olhos não tendo nada nas mãos; o humano vira as costas ao cão segurando um pedaço de comida e o humano vira as costas ao cão não tendo nada nas mãos. (Leia sobre as razões pelas quais os cães são tão amigáveis.)

Ao longo de toda a experiência, uma câmara esteve apontada na direção do cão para filmar as reações do animal, o que permitiu aos investigadores uma análise pormenorizada e a identificação das expressões faciais do canídeo. Para evitar suposições, a equipa contou com uma rubrica onde as expressões faciais são definidas com base no conjunto específico de músculos fletidos pelo cão.

A equipa de Kaminski focou-se, especialmente, na comumente expressão “ar de cachorro abandonado”, chamada de AU 101. Em investigações anteriores, concluiu-se que as pessoas são muito sensíveis a esta expressão: a coautora do estudo, Bridget Waller, descobriu que os cães que usam mais frequentemente a expressão AU 101 tendem a ser mais rapidamente adotados do que aqueles que não o fazem.

Os investigadores descobriram que os cães eram mais expressivos quando estavam em frente a um ser humano, e que recorriam com maior frequência à expressão AU 101. Isto representa uma clara mudança de comportamento resultante da atenção humana. (Veja os retratos de cães da National Geographic.)

“Acreditamos que isto demonstra que esta expressão está, provavelmente, relacionada com uma preferência dos humanos”, afirma Kaminski, a autora principal do estudo publicado a 19 de outubro no jornal Scientific Reports. “... o movimento faz com que os olhos dos cães pareçam ainda maiores, (e também) mais infantis, além de se assemelhar ao movimento que os humanos fazem quando estão tristes.”

SEM AR DE PEDINCHÃO

Kaminski sublinha que, contudo, não é possível prever, através do estudo que realizou, se os cães fazem estas expressões com o objetivo de manipular os humanos. Os resultados apenas indicam que os cães são mais expressivos na presença de humanos, mas não indicam as razões.

“Não observámos aquilo a que poderíamos chamar ‘ar de pedinchão’, ou seja, aquela expressão que os cães tentam fazer quando o humano olha para eles e lhes mostra comida”, afirma Kaminski.

“Se os cães fizessem aquelas expressões com o objetivo de nos manipular, essa teria sido a situação que nos levaria a esperar que eles fizessem algo de diferente, mas não o fizeram.” Kaminski espera que as próximas investigações venham resolver este enigma que continua a persistir e que ajudem a perceber de que forma a domesticação pode ter dado origem a este comportamento.

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