Animais

Como os Animais de um Jardim Zoológico da Síria Escaparam de uma Cidade Arrasada pela Guerra

Foi necessário tomar medidas extremas para salvar os últimos sobreviventes do jardim zoológico numa das zonas mais perigosas do mundo Quarta-feira, 8 Novembro

Por Sharon Guynup

Amir Khalil e a sua equipa de resgate perscrutavam o horizonte em busca de sinais da caravana enquanto esperavam ansiosamente na fronteira turca, com o suor a escorrer devido aos 38° de um dia quente de julho. A ansiedade só viria a passar depois da chegada e, segurança da caravana — que trazia as últimas vítimas, magras e traumatizadas, de seis anos de guerra civil na Síria.

Tratava-se de refugiados de quatro patas: três leões, dois tigres, dois ursos-negros-asiáticos e duas hienas-malhadas que, de alguma forma, sobreviveram no Mundo Mágico, um vasto parque temático inspirado na Disneyland e localizado nos arredores de Aleppo.

A cidade assistiu a alguns dos piores combates desde que a guerra civil se iniciou em 2011. Aleppo sofreu uma ofensiva de quatro anos — alcunhada de "Estalinegrado da Síria" pela imprensa — com incessantes ataques aéreos, entre os quais se contaram, alegadamente, ataques com armas químicas em 2016.  A ofensiva reduziu a cidade a escombros.

O Mundo Mágico está situado numa zona controlada pelos rebeldes sunitas ligados à Al-Qaeda, que usaram o complexo de 6,4 km2 como base. Tem vindo a ser repetidamente bombardeado, incluindo por um ataque-surpresa dos russos no início deste ano.

De acordo com o proprietário do jardim zoológico, Azzam Massassati, havia "talvez 300 animais" no Mundo Mágico, quando a guerra se iniciou. Desde então, uma grande quantidade morreu na sequência de bombardeamentos ou de ter sido apanhada no fogo cruzado.  Alguns animais ficaram doentes, outros morreram à fome. Outros podem ter sido vendidos no mercado negro.

Khalil, um cirurgião veterinário egípcio cuja voz suave destoa da compleição física, esboçou o plano para resgatar os últimos 13 sobreviventes do Mundo Mágico. Durante 23 anos, dirigiu missões de alto risco para o grupo de assistência animal sediado na Áustria Four Paws, tendo resgatado animais em áreas de catástrofe e zonas de guerra.

O resgate exigiu meses de aturado planeamento e intrincada diplomacia, para contar com a ajuda de embaixadores, responsáveis governamentais, organizações de ajuda internacionais, conselheiros militares, combatentes, empresas de segurança internacional e muitas outras ajudas anónimas na Síria. Foi "basicamente uma operação militar para animais", diz Sybelle Foxcroft, conservacionista da organização sem fins lucrativos Cee4life, que Khalil incluiu na equipa de assessoria.

A guerra dividiu a Síria em zonas controladas por muitos grupos rivais; forças governamentais sob o comando do Presidente Bashar al-Assad, curdos sírios e várias fações islamistas rivais. A intervenção de russos, americanos, turcos e islamistas do Hezbollah sediados no Líbano veio complicar ainda mais o conflito.

Para retirar os animais de Aleppo e transportá-los em segurança numa viagem de 150 quilómetros até a Turquia, passando por uma zona de guerra ativa e pela fronteira em Çobanbey, os sírios no terreno tiveram de negociar o apoio das fações e caudilhos locais — e tiveram de planear rotas alternativas e monitorizar uma situação militar em constante mutação.

Havia muitos fatores que podiam correr mal. A caravana podia ser retida ou enviada de volta por sentinelas munidos de espingardas Kalashnikov em 12 pontos de controlo. Os veículos podiam ser bombardeados por aviões de guerra sírios, russos, americanos ou turcos. Os atiradores furtivos ao longo da estrada podiam disparar sobre eles. As pessoas ou os animais poderiam ser raptados: contava-se que o Hayat Tahrir Al-sham, um grupo jiadista sunita da Síria, iria exigir 200 000 dólares para permitir que a caravana passasse a fronteira.

Mesmo que a viagem não tivesse sobressaltos, seria lenta: a guerra tinha reduzido as estradas a caminhos de gravilha cheios de buracos e lombas, muitas vezes pontuados por minas terrestres.

O plano consistia em viajar do noroeste de Aleppo até Afrin, um ponto de controlo tenso que dava acesso à zona ocupada pelos curdos. Ali, a equipa da caravana seria trocada por outra, receberia a autorização de entrada dos curdos e seguiria para nordeste em direção à fronteira turca. Depois da avaliação médica e uma breve espera na Turquia, os animais seriam transportados por via aérea para santuários permanentes na Jordânia.

O LANÇAMENTO

No dia 20 de julho, iniciaram-se intensos combates entre as fações sunitas rivais Ahrar al-Sham e Hayat Tahrir Al-sham na área circundante do Mundo Mágico. O comando mudou, surgiram novos pontos de controlo e a missão foi adiada para se poder renegociar uma passagem segura. A equipa seguiu o rasto dos bombardeamentos, dos tiroteios e de outras ações militares on-line quase em tempo real — informação independente crucial, segundo Yavor Gechev, membro da equipa de resgate da Four Paws, "porque nunca se podia confiar em ninguém".

Com a situação a deteriorar-se, Khalil optou por lançar a missão no dia seguinte, esperando alguma acalmia, por ser sexta-feira, dia santo para os muçulmanos.

Omar Khalifa, tratador do jardim zoológico Mundo Mágico, trabalhou toda a noite com quatro colegas para carregar os animais para o semirreboque de 14 metros de comprimento — uma tarefa perigosa e extenuante porque não havia drogas para anestesiar os animais nem equipamento pesado para içar as jaulas de metal de 408 quilogramas que serviam para transportar os animais.

A Zona Verde em redor do Mundo Mágico, ocupada pelos rebeldes, constituía o maior perigo. "Ao sair de Aleppo, os primeiros 40 quilómetros são de altíssimo risco", afirmou Khalil. A equipa tinha ouvido dizer que os rebeldes locais tinham planeado confiscar os animais e espalhado propaganda heroica segundo a qual estariam a salvá-los de contrabandistas. "Esta informação ajudou-nos a desenvolver ‘antiplanos’ — os planos B, e C e D", disse. Dois planos de recurso continham rotas alternativas, com 34 pessoas estacionadas em três zonas — e uma caravana que servia de engodo foi enviada numa direção diferente.

A caravana verdadeira partiu ao amanhecer do dia 21 de julho, antecedida por um carro de vigilância e acompanhada por um veículo de proteção.

Perto de Afrin, os oficiais curdos recusaram deixar passar os veículos a menos que o governo turco permitisse que 250 dos seus soldados feridos entrassem no país para receberem tratamento médico. A equipa recusou negociar: o que interessava era salvar os animais. Os oficiais transigiram e, nove horas depois, os animais chegaram à zona desmilitarizada da fronteira, onde um camião turco os esperava.

A equipa de Khalil mobilizou-se com a rapidez com que os mecânicos de Fórmula 1 mudam pneus, gritando ordens em árabe, inglês, turco e alemão. Soldados livres do Exército Sírio penduraram as espingardas e prontificaram-se a ajudar perante o olhar dos responsáveis do ministério turco das florestas e da água. O facto de a Turquia ter concordado abrir a fronteira aos animais que vinham da Síria deve-se em grande parte à pressão exercida pelo conhecido ativista animal turco Okan Oflaz. 

"Tivemos uma hora para transferir as nove jaulas de um camião para o outro", disse Khalil. Tinha sido necessária autorização superior para que os turcos abrissem a fronteira durante essa hora. Quando as jaulas já tinham sido carregadas, todos, incluindo sírios e turcos — inimigos figadais — se abraçaram e posaram para fotografias.

O portão do lado turco abriu-se e o camião juntou-se a três veículos que transportavam as equipas, a comida, a água, os medicamentos e um laboratório médico móvel. Foram necessárias 24 horas para percorrer os 1200 quilómetros que os separavam de um complexo de reabilitação animal em Karacabey, no nordeste da Turquia. Foi o terceiro dia sem dormir da equipa de resgate.

Mas ainda faltava uma segunda operação de resgate. A primeira caravana só tinha capacidade para transportar nove jaulas, tendo deixado mais dois leões e dois cães — Huskies — retidos no Mundo Mágico.

DIZIAM QUE ERA IMPOSSÍVEL

Depois da queda do presidente da Líbia Muammar Qaddafi em 2011, Amir Khalil teve de alimentar cerca de 700 animais esfomeados no jardim zoológico de Trípoli até que o novo governo assumisse funções. Em 2016, Khalil evacuou 15 sobreviventes das jaulas do jardim zoológico de Khan Younis, em Gaza, que se encontravam dispersos entre as carcaças mumificadas de animais mortos há muito tempo. Em março de 2017, retirou um leão e um urso do jardim zoológico de Mosul, situado numa parte da cidade que descreveu como "um filme de terror". Quando a Four Paws anunciou o resgate, a página de Facebook da instituição foi inundada de pedidos para que fosse para Aleppo.

Khalil investigou. Sybelle Foxcroft fora informada de que os animais sobreviventes do Mundo Mágico estavam em estado de desespero e de que Khalifa, o tratador do jardim zoológico, só estava presente a espaços. Sempre que havia um combate, os animais ficavam retidos sem comida e sem água em recintos fechados enferrujados e imundos e no meio de disparos de metralhadoras e explosões.

Khalil contactou empresas de segurança internacionais para obter aconselhamento. Disseram-lhe que seria impossível salvar os animais. "Chamavam a esta área controlada pelos rebeldes entre Aleppo e a fronteira turca uma 'zona a evitar'", contou. 

Mas Khalil não é homem de desistir facilmente. Iniciou um torvelinho diplomático e contactou pessoas do mundo inteiro que fossem capazes de tornar possível este resgate complicado e arriscado. Dois santuários de animais na Jordânia começaram imediatamente a construir novos recintos. Depois, Eric Margolis, um jornalista que tinha feito a cobertura de várias guerras e que dirige uma fundação de assistência animal, entrou com o apoio financeiro. Margolis diz ter ficado horrorizado ao pensar "naqueles pobres e indefesos animais que se apanharam no meio desta terrível guerra na Síria.”

Para que a Four Paws pudesse transportar os animais e passar pelos pontos de controlo da Zona Verde, teria de fazer prova da propriedade dos mesmos ao mufti local — o administrador que presidia ao tribunal Sharia da região. O mufti exigia uma declaração gravada em vídeo do proprietário do jardim zoológico, Massassati, a dizer que tinha doado os animais à Four Paws para que pudessem ser levados para fora do país para receber assistência médica.

ANIMAIS DESAPARECIDOS 

Massassati fala com orgulho do Aalim al-Sahar, ou Mundo Mágico, assim batizado devido à magia da natureza, uma escolha controversa porque a ideia de magia contraria as crenças islâmicas.

Tinham sido necessários oito anos para construir o espaço, composto por 50 percursos, restaurantes e um aquário — e um jardim zoológico com 70 crocodilos-do-Nilo, 10 tigres, lamas, chitas, macacos, veados, aves, tartarugas, cobras, leopardos, leões e muitas outras espécies.

No início de 2017, os 300 animais do jardim zoológico tinham-se reduzido a apenas cerca de 50.

Em abril, Khalil e Foxcroft contactaram Massassati, que, alguns anos antes, tinha fugido da Síria, radicando-se nos EUA. Disseram-lhe que tinham informação de que dois tigres estavam gravemente doentes. Um leopardo tinha uma ferida cheia de vermes. Um urso estava doente. Todos os animais se encontravam em estado precário.

Mas Massassati recusou o pedido da Four  Paws para os transferir por razões ainda desconhecidas. Disse que tinha deixado a Khalifa, o tratador do jardim zoológico, dinheiro suficiente para alimentar os animais durante 15 anos, e que o homem tinha vindo a vender tudo o que tivesse valor no Mundo Mágico, incluindo animais em perigo. Na lista estavam "dois jaguares [vendidos] ao Iraque há dois anos" e, no início deste ano, um tigre-branco raro. "Vendeu-o por quase 40 000 dólares a um dos meus amigos no Líbano. Ele ligou-me e disse: 'Já tenho o teu tigre. Recebeste o dinheiro?'" Massassati assegura que não recebeu nada.

Khalifa admite ter vendido animais para fora do país. Todos eles foram enviados sem as autorizações exigidas pela Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção (CITES), o órgão que regula o comércio global de vida selvagem. Fê-lo, disse, para angariar dinheiro para alimentar os outros animais.

Passaram semanas e Massassati continuava a não dar a luz verde. A Four Paws pediu a um veterinário local de Aleppo que velasse pelos animais. O veterinário, que não pode ser identificado por razões de segurança, enviou mensagens com fotografias de um urso numa jaula com fragmentos de um morteiro no corpo, um tigre sem listas deitado no meio da poeira, um veado enfraquecido.

Em junho, os dois tigres doentes e o veado já tinham morrido. O veterinário e outras fontes sírias informaram que outros dois tigres e os macacos tinham desaparecido.

Até os rebeldes Hayat Tahrir reconheceram as dificuldades dos animais e ofereceram-se para os acompanhar até saírem da Zona Verde assim que a Four Paws assumisse a propriedade dos mesmos. A equipa de resgate de Khalil estava pronta. Tudo dependia de Massassati.

Já só restavam 16 animais.

Em meados de junho, Khalil viajou para o Louisiana para enfatizar perante Massassati que se ele não doasse os animais à Four Paws, os animais que restavam iriam morrer ou ser vendidos a comerciantes de animais selvagens. Massassati cedeu e Khalil partiu com os papéis assinados e a declaração gravada que permitiria a libertação dos últimos habitantes enjaulados do Mundo Mágico.

A 21 de julho, dia em que o tratador do jardim zoológico, Khalifa, e a sua equipa carregaram o camião, três leopardos tinham desaparecido e só restavam 13 animais.

ALÍVIO NA TURQUIA

Os intensos combates perto do Mundo Mágico atrasaram o segundo resgate — de dois leões e dois Huskies. Era agora mais urgente do que nunca fazê-lo, porque o veterinário sírio tinha descoberto que uma leoa, Dana, estava grávida.

Khalifa e a caravana partiram finalmente a meio da tarde de 28 de julho, outra sexta-feira com 38° de temperatura. Foram parados no ponto de controlo de Afrin por soldados curdos que ameaçaram prender — e matar — Khalifa. Afirmavam que o irmão, falecido, de Khalifa tinha lutado para uma fação ligada à Al-Qaeda.

Foi preciso a Four Paws porfiar durante várias horas para conseguir que Khalifa fosse libertado e regressasse a Aleppo. A noite caiu, o que aumentou o perigo nas estradas, e a caravana ainda estava longe da fronteira. Uma vez que as 19 horas, altura em que a fronteira de Çobanbey fecha, se aproximavam, Khalil implorou à polícia aduaneira para esperar, e, de alguma forma, conseguiu convencê-la. O camião chegou finalmente às 21h15. A equipa não demorou a transferir os animais para um veículo turco e a partir para Karacabey.

Quando os 13 animais chegaram a Karacabey, estavam desidratados e gravemente subnutridos. Os corpos fustigados e cobertos de carraças estavam cheios de cicatrizes e de sujidade. Muitos tinham feridas abertas. Forma realizados testes de sangue, exames oftálmicos e ecografias aos animais, que foram desparasitados e vacinados. A ecografia feita a Dana mostrou que ia dar à luz duas crias; o que estaria para acontecer a qualquer momento.

Sultan, um tigre esquelético com um ano de idade, encontrava-se em estado crítico. Quando os veterinários o anestesiaram para realizar os testes, entrou em paragem cardíaca. O local transformou-se numa sala de urgências. Os veterinários injetaram um fármaco para neutralizar a anestesia e adrenalina para reanimar o coração do animal, além de lhe baterem no peito e bombearem ar para os pulmões. Sultan começou a respirar.

A visão da hiena macho estava obnubilada devido a cataratas; a fêmea tinha uma doença hepática grave. Os três leões e o outro tigre estavam esquálidos, mas razoavelmente saudáveis dadas as circunstâncias. Os ursos tinham os dentes em muito mau estado, resultado de uma dieta pobre e de roerem as barras das jaulas devido ao medo ou ao tédio.

Segundo Khalil, os animais que vivem em zonas de guerra, tal como as pessoas, sofrem um trauma psicológico causado pela morte e pela destruição, bem como pela tensão constante provocada pelas explosões e pelos tiroteios. "Alguns irão continuar a sofrer desses ferimentos durante vários anos, mesmo depois de as feridas físicas sararem", diz.

Khalil esperava obter rapidamente os certificados médicos e as autorizações do governo turco para transferir os animais para a Jordânia. As hienas e os Huskies iriam para o New Hope Centre, construídos pela Fundação Princess Alia nos arredores de Amã. Os leões, os tigres e os ursos iriam para o santuário Al Ma’wa, nas florestas montanhosas do norte da Jordânia. Al Ma’wa, o maior complexo de reabilitação de animais do Médio Oriente, foi fundado em 2015 numa parceria entre a Four Paws e a Fundação Princess Alia. Os tigres haveriam de ir para a Holanda, para o Felida Big Cat Centre, que se especializa em animais traumatizados que precisam de tratamentos médicos intensivos.

A VIAGEM DE AVIÃO

Três semanas depois do primeiro resgate, os responsáveis turcos ainda não tinham emitido as autorizações de exportação para os animais, confinados a pequenas jaulas de transporte durante todo aquele tempo.

Os trâmites burocráticos foram finalmente concluídos e o fotógrafo Steve Winter e eu voamos para Istambul para acompanhar os animais até à Jordânia. No final da tarde de 10 de agosto, mais um dia de calor abrasador, encontrámo-nos com a equipa num terminal de carga do aeroporto de Istambul. Khalil subiu para cima das jaulas e molhou os animais com enormes jarros de água para os arrefecer. Cada jaula foi depois levada com uma grua para uma enorme área de carregamento a abarrotar de pessoas — uma cacofonia de ruídos metálicos, máquinas e pessoas a gritar para se fazerem ouvir por cima do barulho.

Os leões rugiam. Os ursos andavam sem parar, um sinal dos danos psicológicos provocados pela guerra. Sultan sucumbiu na sua jaula. Khalil administrou-lhe uma injeção de cortisona para que se aguentasse durante o voo. A hiena macho tremia, sacudindo-se com mais força a cada ressoar do choque de metal com metal. Também recebeu uma injeção de cortisona, além de água com açúcar e comida para estabilizar os níveis glicémicos no sangue. Os tremores acalmaram.

Estava previsto que o voo comercial da Royal Jordanian Airlines partisse às 20h30. Quando as jaulas estavam prestes a ser transferidas para a pista para serem carregadas, a equipa foi informada de que algumas tinham 25 centímetros a mais e não cabiam no porão do avião. Instalou-se um frenesi até aparecer um instrumento de corte.  Os membros mais fortes da equipa cortaram as rodas, com chamas a voar, e tiraram-nas das jaulas com uma pancada. Os espetadores aplaudiam à medida que cada roda caía. O piloto atrasou o voo, que estava repleto, até à meia noite.

Aterrámos em Amã pouco depois das três horas da manhã e fomos rapidamente despachados no controlo de passaportes para podermos ir para a área de carga, onde já estavam as jaulas, ligadas umas às outras como o comboio de um circo e com cordas por todo o lado à espera de serem carregadas para dois semirreboques.

O PERCURSO DOMÉSTICO

Conduzimos durante cerca de uma hora até chegar a New Hope, onde a princesa Alia Al Hussein [rainha Rania al Yassin?] nos esperava para nos cumprimentar. "Há um velho ditado bíblico que diz que a Jordânia é um país para pessoas de outros lugares que se revelou verdadeiro ao longo da história", disse a princesa [rainha] com um sorriso aberto. "Parece que passa a ser verdade para outras espécies também."

Dez homens levantaram as pesadas jaulas sem rodas das hienas para as levar para o seu novo recinto. Lá dentro, o macho percorreu o perímetro três vezes; a fêmea deixou-se cair num grande bebedouro. Depressa se tornaram inseparáveis. Os cães residentes do centro deram as boas-vindas os Huskies, farejando, ladrando e abanando as caudas sem parar.

A princesa Alia [rainha Rania al Yassin?] juntou-se a nós — juntamente com os elementos da equipa de proteção policial e militar — na viagem até ao santuário de Al Ma’wa. O complexo está situado no topo de uma colina e rodeado de oliveiras que proporcionam sombra do inclemente sol do deserto.

Cada animal respondeu de uma forma diferente à libertação. Um urso entrou no seu novo e espaçoso recinto, devorou uma refeição de fruta e vegetais e começou a roer as oliveiras. Um leão explorou cuidadosamente o seu novo terreno. Outro começou a correr rapidamente em círculos largos. Uma fêmea, que se pensava ser sua companheira, foi libertada num edifício de cimento adjacente para que pudessem familiarizar-se de novo — e para que ela pudesse sarar as feridas. Tinha um dos lados coberto de manchas horripilantes — pelo aqui, feridas abertas e pele nua ali — possivelmente causadas por fragmentos de projéteis ou parasitas, de acordo com Diana Bernas, responsável pela assistência aos animais no Al Ma’wa.

O tigre Sultan permanecia deitado, em estado débil, incapaz — ou sem vontade — de se mexer. Dana, a leoa grávida, dirigiu-se para a sua casa de cimento e enrolou-se na palha, completamente esgotada.

Quando chegou a noite, Sultan já se tinha aventurado a experimentar o ar livre e deitado à sombra. A tigresa caminhou em direção ao seu novo charco, baixou-se e fechou os olhos. Depois caminhou na nossa direção a emitir sons de contentamento — o olá de um tigre — e deitou-se para limpar o próprio pelo.

Quando, na manhã seguinte, os tratadores foram ver como estava Dana, havia uma cria minúscula e quase branca aconchegada ao seu lado. Dana estava à espera de chegar a um lugar sossegado e seguro para parir. Os tratadores nunca chegaram a ver a segunda cria.

A sobrevivente, Hajar, aguentou um mês, mas acabou por se tornar a última vítima de guerra do Mundo Mágico. Tinha um sistema imunitário enfraquecido e órgãos subdesenvolvidos, provavelmente devido à dieta insuficiente da mãe na Síria.

Quando o último animal foi descarregado no Al-Ma’wa, Khalil parecia exausto. Os profundos círculos sob os olhos denunciavam a tensão por que passou ao planear esta operação de vários meses, que, no terreno, se prolongou e passou de cinco dias a quatro penosas semanas.

Khalil chama a estas 13 criaturas "embaixadores animais". Por eles, disse, "as pessoas baixaram as armas". Um pequeno grupo dedicado foi capaz de transferir estes animais no meio de todos os combates.

"Estes animais podem acender uma vela de esperança em toda esta escuridão."

Sharon Guynup escreve sobre vida selvagem e questões ambientais e é coautora de "Tigers Forever: Saving the World’s Most Endangered Big Cat". É membro global do Woodrow Wilson International Center for Scholars e Exploradora da National Geographic

 

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