Diplomatas da Coreia do Norte Acusados de Contrabando de Marfim e Cornos de Rinoceronte

Um novo relatório identifica pelo menos 18 casos de diplomatas implicados em contrabando, mas raramente foram apanhados ou punidos.segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A Caça Ilegal de Animais da Coreia do Norte
A Caça Ilegal de Animais da Coreia do Norte

Place Braconnier, no coração de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, deve o nome ao general que comandou o primeiro posto avançado da Bélgica no local em 1882. Mas a associação com o general está já bastante esquecida.

Na verdade, braconnier é a palavra francesa para "caçador furtivo" e, durante décadas, Place Braconnier — Praça do Caçador Furtivo — foi sinónimo de local de venda de marfim, peles de leopardo, dentes de leão, chifres de kudu, carapaças de tartaruga e outros produtos de origem animal.

Foi nas tendas de circundam a Praça do Caçador Furtivo que Daniel Stiles, um conservacionista independente que levava a cabo uma pesquisa de campo sobre marfim em 1999,  notou, pela primeira vez, a presença de coreanos.  Estavam a comprar dentes de elefante e marfim esculpido, que, tanto quanto Stiles sabia, pretendiam levar clandestinamente para a Coreia do Sul. Mas quando visitou a Coreia do Sul, ficou perplexo ao descobrir que o mercado de marfim era quase inexistente no país.

Só alguns anos mais tarde é que Stiles percebeu o erro: os compradores eram, quase de certeza, norte-coreanos, não sul-coreanos.

De acordo com os historiadores, cientistas políticos e vários governos, os diplomatas da Coreia do Norte são conhecidos pelo envolvimento no comércio ilegal. Até agora, o enfoque incidia sobretudo as atividades de contrabando que levavam a cabo na Europa e na Ásia, mas um novo relatório revela que a África e a sua vida selvagem também aparecem em destaque no portefólio ilícito da Coreia do Norte.

De acordo com as conclusões do relatório, publicadas pela Iniciativa Global Contra o Crime Organizado Transnacional — uma rede sediada em Genebra composta por especialistas judiciais, governamentais e de desenvolvimento — nos últimos 30 anos, houve pelo menos 18 casos de diplomatas norte-coreanos apanhados a traficar cornos de rinoceronte e marfim. O número de casos não detetados é, quase de certeza, muito maior.

UM PADRÃO QUE SE REPETE 

Os primeiros sinais de alerta foram detetados por  Julian Rademeyer, autor do relatório, quando uma notícia bizarra despertou a sua atenção. Em maio de 2015, Pak Chol-Jun, conselheiro político da embaixada norte-coreana em Pretória, e Kim Jong-Su, mestre de taekwondo a viver em Pretória, foram apreendidos em Moçambique com perto de 100 000 dólares em dinheiro e cerca de 4,5 kg de cornos de rinoceronte.

O embaixador da Coreia do Norte na África do Sul negociou a libertação do conselheiro político, mas a África do Sul acabou por expulsá-lo do país. Entretanto, o mestre de taekwondo, que também era suspeito de ser um espião da Coreia do Norte, de acordo com as fontes confidenciais de Rademeyer, disse aos seus alunos de artes marciais que ia para casa para "visitar a família", mas nunca regressou.

"Só tentar confirmar que o incidente aconteceu mesmo já foi um pesadelo", diz Rademeyer. "Mas aguçou-me o interesse no envolvimento de diplomatas da Coreia do Norte no comércio de cornos de rinoceronte e marfim."

Embora os incidentes como o que aconteceu em Moçambique sejam, por vezes, casos isolados nas notícias, Rademeyer descobriu um padrão de atividade ilícita que se repetia. Desertores de alto nível que conseguiu entrevistar contaram-lhe que havia responsáveis de embaixadas e adidos militares que se dedicavam ao contrabando de marfim em Angola, na Etiópia e na República Democrática do Congo, bem como ao tráfico de cornos de rinocerontes na África do Sul e em Moçambique.

Existe uma ideia disseminada e errónea de que os diplomatas têm imunidade total e não podem ser alvo de revistas ou apreensões, e novas investigações mostraram que os norte-coreanos tiraram proveito desta ideia para desenvolverem as suas atividades de contrabando de produtos animais ilegais em bagagem de mão em voos para a China, onde têm ligações com redes de crime organizado.

Um desertor, antigo intermediário de importação e exportação que trabalhou com passaporte diplomático e agora vive em Seoul, disse a Rademeyer que parte do seu trabalho consistia em intermediar regularmente transações entre diplomatas sediados na África e criminosos chineses. Os diplomatas norte-coreanos "viajavam de avião para Pequim e encontravam-se diretamente com contrabandistas chineses, ou então eu tratava de tudo e trocava os produtos por moeda forte", contou a Rademeyer, referindo-se ao tráfico de cornos de rinoceronte, marfim e pepitas de ouro.

E acrescentou que os diplomatas podem fazer três ou quatro viagens deste tipo por ano.

Alguns dos incidentes da lista de Rademeyer remontam a 1986, mas outros são mais recentes. No outono de 2016, verificaram-se dois casos consecutivos em que cidadãos da Coreia do Norte foram retidos no Aeroporto Internacional de Bole, na Etiópia. O primeiro trazia, alegadamente, 76 peças de marfim esculpido na mala e o segundo 200 pulseiras de marfim. Ambos tinham como destino a China. Mas quando um dos homens apresentou o passaporte diplomático, foi libertado sem qualquer acusação. (Provavelmente, o outro homem também foi autorizado a seguir viagem.)

"Há poucos agentes dispostos a arriscar ser vítimas da ira dos supervisores por terem detido diplomatas", diz Rademeyer. "Isto indica que há um grande problema de aplicação da lei."

CRIME AUTORIZADO PELO ESTADO

A África está longe de ser o único lugar no qual os diplomatas norte-coreanos se envolvem em atividades ilegais.

De acordo com Sheena Chestnut Greitens, codiretora do Instituto de Estudos Coreanos da Universidade do Missouri, este hábito terá tido início nos anos 70 do século XX, década em que o país se tornou insolvente e deixou de conseguir obter empréstimos. O país precisava desesperadamente de dinheiro e os diplomatas, mais pobres, — os embaixadores da Coreia do Norte podem chegar a auferir apenas cerca de 860 euros por mês — viram-se perante a necessidade de encontrar meios de sobrevivência por si próprios.

Os desertores que já trabalharam nas embaixadas norte-coreanas lembram-se de terem de subsistir à base de arroz branco durante várias semanas, ao mesmo tempo que se envolviam em esquemas para fazer dinheiro à parte. Como um deles contou a Rademeyer: "Quando temos a oportunidade de ir para o estrangeiro, fazemos tudo para ganhar o máximo dinheiro possível.”

Além disso, uma parte significativa, mas indeterminada, dos seus ganhos tem de ser enviada para Pyongyang para pagar o "fundo de lealdade" ou o "imposto revolucionário". Segundo Stephan Blancke, cientista político e investigador freelance do King's College de Londres, o governo não se importa que uma parte desse dinheiro venha de negócios obscuros. "O governo não se opõem de forma nenhuma a que os seus diplomatas se envolvam em negócios ilegais, desde que paguem o imposto revolucionário e, porventura, deem presentes de aniversário e de dias especiais", diz, referindo-se aos feriados nacionais, como o do aniversário de Kim Il-Sung.

Em 1976, os países escandinavos expulsaram 12 diplomatas norte-coreanos depois de os investigadores terem descoberto que estavam a contrabandear e a vender enormes quantidades de vodka polaca, cigarros e haxixe. No entanto, este gesto drástico de pouco serviu no que se refere à erradicação destas práticas. Greitens verificou quase 150 casos de atividades ilícitas com o envolvimento de norte-coreanos, muitos dos quais eram diplomatas e alguns dos quais foram premiados com promoções quando regressaram ao país.

Agora que há fábricas sediadas na Coreia do Norte a produzir metanfetaminas de alta qualidade para distribuição por atacado na China e noutros países, os diplomatas do país estão menos envolvidos no tráfico de droga do que já estiveram no passado. Mas existem vastas evidências, diz Greitens, de que se mantêm embrenhados no contrabando e na venda de fármacos, dólares americanos e cigarros de contrafação e ouro, pedras preciosas, armas e produtos de vida selvagem.

"O contrabando é uma das atividades que ajuda a Coreia do Norte a obter a moeda forte de que precisa para subsistir e para permitir que o regime se mantenha no poder", assevera Greitens. "Todo o regime funciona à base de dinheiro vivo."

Contactado por correio eletrónico, um porta-voz da embaixada da República Popular Democrática da Coreia em Pretória negou que os diplomatas da Coreia do Norte se envolvam no tráfico ilegal de cornos de rinocerontes, marfim e outras atividades de contrabando. "Acreditamos convictamente que este relatório está cheio de histórias fabricadas para as quais não existem evidências e que criticam o [nosso] estado soberano e independente", escreveu o porta-voz não identificado.

PARA OS DIPLOMATAS: BAIXO RISCO, ALTO RETORNO

Com o apertar das sanções económicas sobre a Coreia do Norte, é provável que os diplomatas aumentem as suas atividades ilícitas no estrangeiro, prevê Blancke. Entre estas atividades contam-se o tráfico de cornos de rinoceronte e marfim, que é procurado pelos diplomatas criminosos porque permitem um retorno elevado com um risco baixo. O desertor sediado em Seoul, contou a Rademeyer que entre 2011 e 2014 os diplomatas tinham um lucro de cerca de  10 000 dólares com cada mala com 7 a 10 kg de marfim e cerca de 35 000 dólares por pouco mais de 900 gramas de corno de rinoceronte-branco (o corno de rinoceronte-preto era vendido pelo dobro deste preço).

As malas dos diplomatas raramente são revistadas e, mesmo que sejam intercetadas, sabe-se que a percentagem de ações judiciais a cidadãos normais envolvidos em crimes contra a natureza é muito baixa e que a de diplomatas o será ainda mais.

A expulsão de diplomatas da Coreia do Norte pode ser a melhor solução para reduzir este comportamento ilegal. Cinco países já o fizeram este ano, embora essas medidas se tenham devido principalmente ao envolvimento da Coreia do Norte em Testes Nucleares.

Mas alguns países africanos podem não estas dispostos a enviar os diplomatas de volta para o país de origem. Como Rademeyer aponta no relatório, a Coreia do Norte muniu países como o Uganda, Angola e a Guiné Equatorial de recursos, conselheiros militares e formação durante as suas lutas pela independência. Estes laços históricos estendem-se até à atualidade.

"A Coreia do Norte tem bons amigos na África", diz Andrea Berger, investigador principal do Instituto de Estudos Internacionais de Middlebury, no Vermont. "Naqueles países, os diplomatas gozam de uma relativa falta de escrutínio e de supervisão sobre as atividades comerciais que realizam, sejam elas lícitas ou ilícitas."

Mas há outros países africanos que já disseram basta. No Zimbabué, Robert Mugabe, embora tenha contado com ajuda militar da Coreia do Norte para estabelecer o seu implacável regime, não deixou de fechar a embaixada da Coreia do Norte em 1998, alegadamente devido aos casos embaraçosamente frequentes de diplomatas apanhados a contrabandear cornos de rinocerontes de marfim. Também o Botswana cortou os laços com o país asiático em 2014, na sequência de "violações de direitos humanos", aponta Rademeyer.

De acordo com o ministro dos Negócios Estrangeiros do Botswana, entre estas violações contavam-se o "tratamento desumano" dos norte-coreanos e o "total desrespeito pelos direitos humanos dos seus cidadãos." Mogweetsi Masisi, vice-presidente do Botswana chegou a descrever a Coreia do Norte como uma "nação perversa" numa Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova Iorque.

"Existe uma espécie de consenso diplomático crescente no mundo inteiro de que a Coreia do Norte está, há demasiado tempo, a exercer atividades proibidas impunemente e de que não vale a pena os países terem uma embaixada da Coreia do Norte nos seus territórios", diz Ben Young, que está a escrever uma tese de doutoramento sobre a história da Coreia na Universidade George Washington, em Washington. "Não me parece que exerçam muitas atividades diplomáticas."

Mesmo que as 10 embaixadas da Coreia do Norte que restam na África subsariana fechem, o problema geral do comércio ilegal de animais não será resolvido. Embora o número de norte-coreanos apanhados em atividades de contrabando seja, provavelmente, muito inferior ao número de casos existentes, os norte coreanos deverão representar apenas uma pequena parte dos mais de mil rinocerontes mortos todos os anos na África.

Além disso, os norte-coreanos não são os únicos diplomatas envolvidos em atividades de tráfico. Nesta investigação, Rademeyer descobriu mais 13 casos de diplomatas sediados na África — a maioria chineses e vietnamitas — que faziam contrabando de cornos de rinoceronte e marfim.

"Com base no pouco que sabemos sobre o envolvimento da Coreia do Norte no comércio ilegal de vida selvagem, perece provável que desempenhem um papel menos importante do que outras redes criminosas transnacionais mais ativas e embrenhadas e com raízes no Vietname, na China, no Laos, na Tailândia e em outros países asiáticos", diz Rademeyer.  "Mas todos eles contribuíram para o abate de mais de 7100 rinocerontes por caçadores furtivos na África na última década."

Para os animais selvagens atacados na África, tudo depende de um travão na procura, diz Richard Thomas, diretor de comunicação global da TRAFFIC, uma organização que monitoriza o comércio global de vida selvagem. "Se a utilização de cornos de rinoceronte passar de moda na Ásia, o incentivo ao contrabando desaparece simplesmente porque deixará de ser uma mercadoria altamente valorizada."

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