Animais

Estas Mulheres Arrojadas Estão a Enfrentar os Caçadores Furtivos — e a Levar a Melhor

As Black Mambas, um grupo 100 % feminino, protegem com as suas vidas os animais mais preciosos da África do Sul. Quarta-feira, 8 Novembro

Por Cristina Goyanes

São 6 h 40 da manhã quando entro num jipe branco na Reserva Animal Privada de Balule, uma área de vida selvagem protegida com cerca de 40 000 hectares na fronteira oeste do mundialmente famoso Parque Nacional de Kruger, na África do Sul. Ao volante está Shadu Hlangwana, no lugar do passageiro encontra-se Felicia Mogahane e, atrás, vou em com Carol Khosa.

Uma vez que tinha perdido a minha bagagem durante a viagem para o país, vestia jeans com um casaco polar bege e um boné de camuflagem da Hospedaria da Reserva Animal de Pondoro, a propriedade da reserva que será o meu lar durante as próximas duas noites. Sinto-me mal preparada quando olho para a forma como estão equipadas. O meu batom magenta não ajuda, mas é o que quebra o gelo.

“Estão a falar do meu batom?”, pergunto, olhando para as unhas vermelhas de Hlangwana e para os brincos de pérolas de Mogahane. Mogahane olha sobre o ombro e revela os dentes separados num sorriso tímido. Ao longo da última hora, “lipsctick” (batom) foi a única palavra falada em inglês e não na língua nativa destas mulheres: o tsonga. Daqui passámos para uma conversa sobre beleza enquanto seguimos a 5 km por hora junto a uma cerca elétrica perto da entrada da Reserva Natural de Olifants West.

Estas três mulheres com pouco mais de vinte anos podem ser tímidas e protetoras, mas protegem-se mais umas às outras do que a elas próprias. São as Black Mambas, a primeira unidade de combate à caça furtiva 100 % feminina, e, juntamente com outras 30 outras mulheres locais, estão a salvar os rinocerontes e elefantes da África do Sul.

A Unidade de Combate à Caça Furtiva Black Mamba da Reserva Natural de Balule é a primeira do género. A equipa, composta praticamente só por mulheres, acredita que a guerra contra a caça furtiva não será vencida com armas e balas, mas com uma monitorização próxima, o envolvimento da comunidade e a educação. Este curto documentário das Black Bean Productions tornou-se possível, em parte, graças ao apoio da Empowers Africa e da Rhinos in Africa.

VISITA ÀS MAMBAS

Há poucas barreiras a separar Balule, fundada nos anos 90 do século XX, do Grande Parque Nacional de Kruger, com algumas exceções concebidas para impedir que os animais atravessem autoestradas e, o que é mais importante, para afastar os caçadores furtivos que procuram dentes de marfim e carne de animais selvagens. Todos os meses, cada Black Mamba passa 21 dias a patrulhar Balule a pé ou de jipe — quatro horas de madrugada e quatro horas ao fim do dia — em busca de armadilhas, rastos de humanos, sons de tiros e outras atividades suspeitas. Embora não façam apreensões, são capazes de chamar reforços, ou forças especiais treinadas, para deter os desordeiros.

Esta unidade galardoada sem fins lucrativos, que foi lançada em 2013, reduziu significativamente (em cerca de 76 %) os incidentes que envolvem armadilhas e caça furtiva, de acordo com o website da própria. O sucesso da unidade chamou a atenção do mundo, suscitando até o interesse da Extraordinary Journeys, uma agência de viagens de luxo que se especializa em safaris e que apoia iniciativas das comunidades, de conservação e de sustentabilidade. A empresa estabeleceu recentemente uma parceria com a Pondoro, com o objetivo de oferecer aos clientes tours exclusivos com as Black Mambas duas vezes por semana, cujos lucros são doados ao programa. Os tours incluem apresentações, onde os clientes ficam a conhecer de que forma as Mambas fazem a diferença. No entanto, o meu tour particular permite-me uma visão única a partir de dentro.

UMA PRESENÇA IMPORTANTE

Esta manhã, a missão das Mambas consiste em registar anormalidades, como sinais de violação da cerca. Paramos para que Mogahane, uma das Mambas originais e mãe de duas crianças, verifique a caixa de choque. Sigo-a para analisar a voltagem, mas estou demasiado nervosa para manter a concentração. Tanto quanto sei, poderá haver um leão ou um leopardo de olho em nós. Afinal de contas, estamos no território dos Cinco Grandes sem nenhuma proteção.

É verdade, as Black Mambas patrulham desarmadas.

“Já faço isto há 24 anos e nunca tive de apontar uma arma a um animal selvagem”, disse mais tarde Craig Spencer, fundador das Black Mambas e diretor da guarda da Reserva Natural de Balule. “Os caçadores furtivos teriam de pensar sobre a forma de se defenderem destas mulheres. Criar órfãos e viúvos não é a resposta para este problema. Este problema não pode ser resolvido aos tiros. A deteção precoce é o principal papel das Mambas.”

Com isto em mente, Spencer olhou para a polícia britânica, ou “bobbies on the beat” (polícias britânicos em patrulha), como ele lhes chama, para definir um modelo para as Mambas. “Estão desarmadas, são educadas, estão bem vestidas e são eloquentes. Têm uma presença, [o que funciona como] prevenção do crime. É esta a ideia: preencher a paisagem, fazer com que sejam visíveis com os seus distintivos, conseguir detetar cedo os problemas e depois chamar uma resposta armada.”

ENCONTROS IMEDIATOS COM A VIDA SELVAGEM

De volta ao jipe, Mogahane passa os dados a Khosa, que os transmite via rádio à sede. A minha ansiedade quando saí do jipe é validada quando Khosa revela um incidente aterrador ocorrido em março.

“Estava a fazer a patrulha com outra Mamba [às 9 da manhã] quando fomos rodeadas por oito leões”, diz Khosa, a ganha-pão da família, composta por duas crianças e cinco irmãos.  “Tentámos informar a sede via rádio, mas não havia forma de chegarem a tempo. O proprietário de uma das terras viu-nos e veio em nosso auxílio.”

Hlangwana, que integrou o grupo este ano e se tornou a mais recente Mamba, contribui para a discussão, contando o seu próprio encontro imediato ocorrido algumas noites antes. “Liguei os faróis [eram 19h30] e vi dois elefantes. O primeiro passou, mas o segundo parou e começou a correr de forma agressiva em nossa direção. Assustei-me e tive de agir depressa”, diz Hlangwana, que tem um filho.

“Tivemos a sorte de a Shadu se ter mantido calma o suficiente para conseguir desviar o carro do elefante”, diz Mogahane.

FORMAÇÃO SÉRIA E FORTE MOTIVAÇÃO

A falta de armas das Mambas é compensada pela competência, pelo trabalho de equipa e pela sagacidade. Os três meses de formação exigidos para entrar na Unidade incluem exercício físico, como correr cerca de cinco quilómetros por dia, e trabalho de sala de aula, como aprender práticas de vigilância, técnicas de observância legal e como usar walkie-talkies. O último mês é o mais rigoroso, focando-se em táticas de vigilância nas matas, incluindo métodos da construção de abrigos e de subsistência sem comida e água.

A formação abrangente explica, em parte, o facto de, em quatro anos, não ter havido vítimas em trabalho, apesar dos perigos que enfrentam regularmente. Não há dúvida de que se trata de uma profissão perigosa, mas a experiência laboral tem um valor incalculável — dá a esperança de um futuro melhor ao mesmo tempo que satisfaz a paixão de muitas Mambas pela natureza.

“Eu amo a natureza — as árvores, os animais, os pássaros, tudo isto — desde a infância”, diz Khosa. Mogahane acrescenta, “Se eu pudesse voltar à escola, estudaria conservação. O que estamos a fazer é importante e extraordinário. Dizem que é um trabalho de homem, mas somos nós que o estamos a fazer.”

“O QUE ESTAMOS A FAZER É IMPORTANTE E EXTRAORDINÁRIO. DIZEM QUE É UM TRABALHO DE HOMEM, MAS SOMOS NÓS QUE O ESTAMOS A FAZER”

por FELICIA MOGAHANE
BLACK MAMBA

Existem guardas florestais femininas na África do Sul, mas são raras. Além de enfrentarem preconceitos acerca das suas próprias competências, as mulheres estão a combater a exclusão educativa sistemática e uma economia sul-africana em dificuldades, com uma taxa de desemprego de quase 28 por cento em 2017.

“Trata-se tanto de uma questão de conservação como de combate à pobreza”, diz Spencer. Parcialmente financiada pelo governo, a organização não governamental oferece às mulheres a oportunidade de desenvolverem competências que as ajudam a melhorar as suas vidas no imediato e no futuro. As Mambas começam por receber um salário de aproximadamente 3500 rands, ou cerca de 220 euros, por mês, que é o salário mínimo nacional. As condutoras, como Hlangwana, e sargentos, como Mogahane, ganham um pouco mais.

“A maior parte começou porque precisava de emprego, mas, agora, ser Black Mamba tornou-se uma fonte de dignidade”, diz Spencer. “Têm uma oportunidade pela primeira vez nas vidas delas.”

Nick Koornhoff, membro do Parlamento da África do Sul e presidente da Reserva da Natureza Olifants West de Balule: “Vejo este programa alargado de obras públicas como um trampolim. Estas mulheres, que não tinham outras oportunidades, estão agora habilitadas a procurar melhores empregos no futuro. São heroínas nas suas comunidades.”

O DESTEMIDO LÍDER DAS MAMBAS

Antes de se apresentar, Spencer, um sul-africano com pouco mais de quarenta anos e ascendência inglesa, caminha na sede em volta do jipe desta que fez o percurso naquela manhã — um dos 13 do grupo. O peito moreno e nu, os cações caqui e as botas são perfeitos para o papel que desempenha, mas o cachimbo à Sherlock Holmes é de outro nível.

Ao examinar furiosamente uma nova mossa, reclama sobre a forma como deveria ser relatada. Dirige-se para o lado do condutor, tira a chave da ignição e atira-se por cima de uma parede de tijolos. As Mambas encontram-se à distância de um pequeno caminho de terra nas suas cabanas de madeira, onde lavam a roupa e preparam o almoço. Imagino que se trata de um espetáculo só para mim. Depois de vestir uma camisa, Spencer cumprimenta-me e explica as suas ações.

“Na verdade, considero-me um pouco uma espécie de pai para elas, e é por isso que sou severo. É o que chamo amor duro. Amo cada uma delas desesperadamente e quero o melhor todas”, diz. “Melhor” inclui veículos seguros e completamente funcionais, que é a única armadura que têm quando estão em patrulha. Como um pai orgulhoso, continua a incensá-las.

“ANTES DAS BLACK MAMBAS, TROPEÇÁVAMOS EM CARCAÇAS DE RINOCERONTES.”

por CRAIG SPENCER
FUNDADOR DAS BLACK MAMBA

“Antes das Black Mambas, tropeçávamos em carcaças de rinocerontes”, diz usando a extremidade do meu cartão profissional para limpar as unhas. “Este ano, vimos oito rinocerontes mortos.” Não é mau, tendo em conta que, em média, são alvejados três a cinco rinocerontes na África do Sul, habitat de 70 % dos 29 500 rinocerontes-brancos que restam no mundo. Uma razão para o recente aumento: a venda de cornos de rinocerontes acabou de ser legalizada de novo.

“Estamos a tentar salvar os rinocerontes criando um conjunto de valores totalmente diferentes dentro da comunidade. Estas mulheres têm muito orgulho no uniforme que vestem. São exemplos a seguir. Quero vê-las a crescer, a construir casas, a enviar os filhos para a escola”, diz Spencer, que é cético relativamente às tentativas de copiar o programa.

Primeiro, temos de perceber a fórmula. Não é possível simplesmente replicar este modelo. Existem certas variáveis que fazem com que funcione aqui, mas que podem não funcionar noutro lugar”, diz Spencer. “Além disso, o estilo de gestão tem de ser firme e justo. E é preciso dar atenção a estas mulheres.

Spencer afirma que não recebe nenhum tipo de remuneração por este trabalho não lucrativo e admite: “Às vezes, pergunto-me se sou eu que preciso das Mambas ou elas de mim. Dou o meu coração e a minha alma por elas. São a razão por me manter por cá. Dantes eram os elefantes e os rinocerontes, mas agora são estas mulheres.

Koornhoff acredita que Spencer é o ingrediente secreto: “O que ele fez com as Black Mambas nunca tinha sido feito antes.”

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