Animais

Esta Surpreendente Imagem de um Orangotango Evidencia uma Terrível Realidade

O retrato, que dá que pensar, arrecadou o grande prémio no concurso de Fotógrafo de Natureza deste ano. Quarta-feira, 20 Dezembro

Por Rachel Brown
Fotografias Por Jayaprakash Joghee Bojan

Eram cerca das sete horas de uma manhã de agosto no Parque Nacional de Tanjung Puting, no Bornéu. Jayaprakash Joghee Bojan descalçou-se, pegou na sua máquina fotográfica nova e entrou na água, tingida de um vermelho-acastanhado pelos taninos das raízes submersas, que lhe dava pelo peito.

Contando que os guardas do parque o alertassem para a presença de crocodilos, Bojan avançou lenta e suavemente, para não assustar o orangotango macho que atravessava o rio a custo, a apenas alguns metros de si.

“Para ser franco, quando estas coisas acontecem, não vemos mais nada”, confessa Bojan à National Geographic. “Não sentimos a dor, não sentimos as picadas dos mosquitos, não sentimos o frio, porque a nossa mente está completamente focada naquilo que está a suceder em frente aos nossos olhos.”

Bojan sabia que estava a presenciar algo especial. Os orangotangos são conhecidos por recearem a água — os seus longos braços adequam-se mais à deslocação nas árvores do que à natação — e aquele comportamento invulgar fê-lo refletir. Porque é que um primata arborícola estaria a tentar atravessar um rio perigoso?

Possivelmente, a drástica perda de habitat devida à desflorestação para cultivo de óleo de palma terá empurrado este animal criticamente em perigo para zonas que anteriormente evitava. Mas sejam ou não as plantações de óleo de palma responsáveis pelo comportamento atípico do orangotango, a sua expressão receosa e postura vulnerável levam o observador a ponderar as ameaças que ele enfrenta.

Foi precisamente essa sensação de um momento raro e pungente que levou o júri do concurso de Fotógrafo de Natureza do Ano de 2017 a atribuir o galardão máximo à imagem de Bojan. Mas esta fotografia esteve quase para não acontecer.

UMA FOTO NO PARQUE

Rodeado pela vida selvagem das montanhas do distrito de Nilgiris, em Tamil Nadu, na Índia, Bojan cresceu com uma paixão pela natureza. Tendo a fotografia amadora como passatempo durante os 18 anos em que trabalhou em Bengaluru, Bojan começou a dedicar-se de corpo e alma à fotografia em 2013, quando comprou a sua primeira máquina DSLR e se juntou à comunidade Your Photo da National Geographic.

Pouco tempo após se ter mudado para Singapura e ter deixado o seu emprego como executivo, para viajar e fotografar a tempo inteiro, o fotógrafo autodidata cruzou-se com os raros e ameaçados primatas do Jardim Zoológico de Singapura.

“Houve ali um clique”, recorda. “A partir desse momento, eu só queria viajar e ver aquelas espécies no seu habitat.”

Nos últimos nove meses, Bojan viajou por todo o sudeste asiático, fotografando alguns dos primatas mais carismáticos da região. A sua missão levou-o ao Parque Nacional de Tanjung Puting, em Kalimantan (a parte do Bornéu que pertence à Indonésia). Com o auxílio dos guias ecoturísticos da Orangutan Trekking Tours, um grupo fundado pelo seu amigo Arbain, Bojan fotografou 11 orangotangos selvagens em oito dias.

Mas faltava qualquer coisa. “Não estava satisfeito com as minhas fotos”, diz Bojan.

Foi então que um dos guardas do parque lhe falou de um orangotango que, por vezes, atravessava o rio Sekonyer, a cerca de 65 quilómetros daquele local. Bojan, ciente do quão invulgar isso era, preparou então a sua embarcação para a viagem.

Um dia de espera e nenhum sinal do orangotango. Porém, Bojan, cuja estadia no parque estava prestes a terminar, decidiu voltar a tentar no dia seguinte. Nessa manhã, um guarda que se encontrava a fazer uma patrulha de canoa, avisou a tripulação que tinha avistado o orangotango a montante há apenas alguns instantes.

Era o momento por que Bojan tinha esperado — o invulgar comportamento que ele pretendia documentar. À medida que a equipa se aproximava do local, o fotógrafo manteve o barco a uma distância segura, para não assustar o orangotango. “Tinha conceptualizado este momento na minha cabeça inúmeras vezes”, diz, “e sabia que a única forma de conseguir a imagem que queria era estando eu dentro do rio.”

Então Bojan saltou borda fora.

A ameaça dos crocodilos — que Bojan descreve como “algo melindrosa” — não se chegou a concretizar. Durante cerca de meia hora, Bojan pôde registar a marcha do animal através das águas.

No auge da sequência: o momento em que o orangotango olha diretamente para a lente, transmitindo-nos uma mensagem sem palavras, a nós, a sua ainda desconhecida plateia humana.

ÓLEO E ÁGUA

Cerca de metade dos produtos embalados que se encontram nas prateleiras dos supermercados contêm óleo de palma — quase 90% do qual provém de plantações em zonas desmatadas da Indonésia e Malásia. Ainda que os produtores e negociantes de óleo de palma tenham tomado algumas medidas para mitigar a desflorestação, a destruição prossegue, em larga medida, de forma descontrolada.

A devastação da floresta, para dar lugar a plantações, destrói o habitat dos orangotangos, mas também os aproxima do contato com os seres humanos. Privados das suas habituais fontes alimentares (fruta, folhas e rebentos), os orangotangos famintos viram-se para os dendezeiros jovens, as palmeiras que produzem o óleo, pondo-os na mira dos agricultores, que os veem como uma praga. Alguns orangotangos, e especial as crias deixadas órfãs pela caça ou pelo abate retaliatório, são capturadas e vendidas no mercado negro.

Todas estas ameaças são particularmente debilitantes para uma espécie tímida e solitária, que atinge a maturidade sexual tardiamente e cujas fêmeas só dão à luz de oito em oito anos. A IUCN prevê que, até 2025, as populações de orangotangos tenham diminuído 82% em 75 anos. Para um orangotango, isso são apenas três gerações. [Conheça o orangotango albino extremamente raro encontrado na Indonésia.]

Bojan levou esta grave situação a sério. “Quando se voa de Jacarta para o Bornéu”, conta, “não se vê outra coisa se não explorações de óleo de palma.” Ainda que o reconhecimento da complexidade da questão — as plantações de óleo de palma trazem emprego e um impulso económico a áreas que deles precisam — a sua simpatia vai para os orangotangos.

“É fácil revermo-nos neles, acho-os tão humanos, o seu aspeto e forma de agir; eles têm rostos expressivos, gentis, e corações ternos.”

Ainda que sejam urgentes alterações drásticas nas políticas ambientais, já há algum auxílio no terreno: a “equipa verde” de Arbain, um grupo de moradores locais, cujo trabalho no ramo do ecoturismo mostra às pessoas a importância da preservação deste habitat. O grupo investe, inclusivamente, parte dos seus lucros na compra de terrenos, para evitar que estes sejam vendidos às plantações de óleo de palma.

“A sua loucura e dedicação são incríveis”, diz Bojan.

O fotógrafo conta doar parte do prémio monetário deste concurso ao grupo de Arbain, para ajudar no seu trabalho em prol da conservação — e para se envolver, ele próprio, nesse mesmo trabalho.

“Ainda que esteja muito satisfeito por ter ganhado este prémio”, diz, “fico também muito feliz que tenha sido esta imagem a vencer, pois creio que o orangotango o merece mais do que eu.”

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