Animais

A "Ilha dos Coelhos": Entre um Passado Misterioso e um Futuro Incerto

A alimentação errática por parte dos turistas está a dar origem a uma praga de coelhos numa pequena ilha japonesa com um passado obscuro e misterioso. Quarta-feira, 20 Dezembro

Por Elaina Zachos

Ōkunoshima é uma pequena ilha aninhada no Mar Interior do Japão. Tem pouco mais de 4 km, podendo ser atravessada num passeio de 1h30. O terreno está repleto de relva, pontuado por um resort de praia, postos de observação da natureza e cais. Poucos podem chamar esta atração turística de casa, exceto as centenas de coelhos europeus selvagens que vagueiam pela ilha.

Batizada de "Ilha dos Coelhos", Ōkunoshima tornou-se mais popular desde 2014, quando um vídeo de uma mulher a ser perseguida por coelhos se tornou viral. Desde então, outras redes sociais e vídeos a exibir enormes grupos de coelhos atraíram visitantes para a ilha. Mas com uma elevada interferência humana, a ilha não é sustentável para os animais

PASSADO MISTERIOSO

Ninguém sabe sequer como é que os coelhos chegaram à ilha.

Por volta de 1929, o governo japonês testou secretamente gás venenoso em Ōkunoshima. O local infame era por vezes chamado de "Ilha do Gás Venenoso" e foi eliminado dos mapas japoneses para manter a operação secretaOs coelhos eram trazidos para a ilha como cobaias para as armas químicas, e algumas pessoas especulam que os animais que vivem presentemente na ilha são seus descendentes. Mas os especialistas afirmam que os coelhos cobaias foram eutanasiados após o encerramento das operações.

Correm rumores de que um casal inglês trouxe os coelhos para a ilha ou que uma escola nas redondezas os soltou em 1971. As estimativas variam, mas cerca de 300 coelhos habitavam a ilha em 2007, tendo chegado atualmente a um valor entre os 700 e os 1000.

"Temos demasiados coelhos para uma ilha tão pequena", afirma Margo DeMello, presidente do grupo de salvamento de coelhos sediado na Califórnia, House Rabbit Society. "Trata-se de um fenómeno recente."

DeMello e outros investigadores visitaram a ilha durante dez dias em março de 2015 para estudar as comunidades de coelhos e entrevistar pessoas. DeMello afirma que a popularidade do vídeo da "perseguição" mudou o tipo de turistas, passando de idosos japoneses (atraídos pelas fontes termais da ilha) e crianças locais em idade escolar (que chegam em visitas de estudo ao museu do gás venenoso) para um grupo demográfico mais abrangente. A ilha recebeu 136 mil visitantes em 2005, que aumentou para 254 mil em 2015. Cerca de 17 mil desses turistas eram estrangeiros.

Até à data, ilha tem o Kyukamura Ōkunoshima Hotel, além de um campo de golfe e o museu do gás. DeMello afirma que o hotel está a adotar uma abordagem mais pragmática para lidar com os animais mas utiliza o "isco" dos coelhos no seu material publicitário. Quando a National Geographic contactou o hotel para obter comentários, disseram que tem teria de comentar seria o Ministério do Ambiente do Japão.

PRESENTE PERIGOSO

Com o afluxo de pessoas, surge um afluxo de problemas para os coelhos.

"São totalmente amistosos — quase de forma agressiva — porque precisam de que as pessoas os alimentem", afirma DeMello. "São mais ativos durante as alturas em que as pessoas estão na ilha."

Os coelhos europeus que habitam em Ōkunoshima são naturalmente herbívoros e comem folhas, raízes, madeira e sementes, além do ocasional lanche de estrume. Algumas pessoas, como os agricultores, poderão saber que os animais gostam de comer cenouras, alface e couve, pelo que são esses os tipos de alimentos que os turistas trazem consigo para alimentar os animais.

Esta dieta está a envenenar os coelhos. A couve, o snack mais popular, é tóxica para os coelhos quando ingerida em grandes quantidades porque o seu sistema digestivo sensível não consegue digerir o legume. Os animais também precisam de alimentos ricos em fibra, que são difíceis de encontrar no seu plano de refeições atual.

Existem sinais espalhados pela ilha para dissuadir as pessoas de alimentarem os coelhos, de pegar nos mesmos ao colo ou de persegui-los, citando a segurança humana como a principal preocupação. Os avisos estão escritos em japonês, inglês, chinês e coreano. Mas os turistas também têm sido encorajados a alimentar os coelhos, sobretudo no inverno quando os alimentos escasseiam. O hotel costumava vender copos e sacos de ração para coelhos mas deixou de fazê-lo.

Esta dieta inconsistente que os coelhos apresentam também não ajuda. Ao contrário do que acontece com animais mais robustos como os pinguins, os coelhos precisam de comer todos os dias. Com a sua dieta atual, os coelhos podem comer vorazmente um dia e ficar famintos no fim da semana, consoante o estado do tempo ou os horários das escolas, que influenciam o turismo.

Nunca se realizou uma operação de descontaminação em grande escala na Ilha dos Coelhos após esta ter sido utilizada para efetuar testes químicos e as toxinas residuais poluíram as águas subterrâneas. Além da comida, os coelhos dependem dos humanos para beber água engarrafada. A maioria dos coelhos vive na zona de relva perto do hotel, à espera de alimento e água.

Os coelhos da ilha têm uma esperança média de vida de dois anos, mas poderiam viver até aos dez anos, se estivessem numa situação doméstica mais comum. Os coelhos selvagens vivem normalmente até aos dois anos, mas isto quando existem predadores naturais. Não existem predadores na ilha: só coelhos.

DeMello referiu que muitos dos coelhos apresentam ferimentos e doenças resultantes do contacto humano, como infeções do trato respiratório superior e problemas gastrointestinais. Muitos são também mortos por atropelamento por carros que passam para o hotel. Os seus números podem estar a aumentar como um todo, mas os coelhos, a nível individual, estão em dificuldades.

"Como população, estão ótimos", afirma DeMello. "A nível individual, não estão muito bem."

FUTURO INCERTO

Os planos sobre o que fazer com os residentes permanentes da Ilha dos Coelhos são ambíguos à medida que o número de turistas continua a aumentar.

Takashi Seki do Ministério do Ambiente visitou a ilha há cerca de três anos em visita oficial do governo. Seki afirma que com o aumento dos turistas, os coelhos acostumaram-se aos humanos. Acrescenta que as medidas para gerir os animais selvagens são ditadas pelo hotel.

"Continuamos a lutar com vista à coexistência do animal selvagem com as organizações", escreveu Seki num e-mail. "A intervenção artificial excessiva não é desejável."

Continuar a Ler