Instagram Combate Maus-tratos a Animais com Novo Sistema de Alerta

Recorrendo a ferramentas desenhadas para lidar com situações de automutilação e suicídio, a rede social vai começar a alertar os seus utilizadores para comportamentos que prejudicam a vida selvagem.quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O Instagram é terreno fértil para fotos amorosas de animais selvagens — incluindo os exóticos e os ameaçados. Uma foto de alguém a abraçar uma preguiça ou a exibir uma cria de tigre como se de um animal de estimação se tratasse está apenas a um clique de distância nesta imensamente popular plataforma de partilha de imagens, que serve cerca de 800 milhões de utilizadores.

Mas, a partir de hoje, pesquisas por um grande número de hashtags relativos à vida selvagem irão desencadear uma notificação que alerta o utilizador para os abusos a que este animais são sujeitos nos bastidores, tudo para conseguir uma imagem aparentemente inocente.

O Instagram irá abrir um pop-up com uma mensagem sempre que alguém pesquisar ou clicar num hashtag como “#slothselfie.” Na mensagem pode ler-se, “Estás a pesquisar uma hashtag que pode estar associada a publicações que incentivam comportamentos nocivos para os animais ou para o ambiente.”

O utilizador poderá então aceder a uma página no Centro de Ajuda do Instagram, que contém uma série de informações acerca da exploração dos animais selvagens. A plataforma recorrerá ao mesmo processo para atividades mais condenáveis, tais como pesquisas por #exoticanimalforsale (animal exótico para venda), entre outros hashtags utilizados para publicitar a venda de animais vivos, ou de partes dos seus corpos.

“Preocupamo-nos com a nossa comunidade, incluindo os animais e a vida selvagem, que são uma parte importante desta plataforma”, diz a porta-voz do Instagram, Emily Cain. “Julgo que, atualmente, é muito importante que a comunidade esteja alerta. Estamos a tentar fazer a nossa parte, contribuindo para a sua educação.”

A decisão do Instagram surge na sequência da longa investigação conduzida pela National Geographic e pela World Animal Protection, que visava a problemática do crescimento do turismo de vida selvagem na Amazónia. A National Geographic descobriu animais que eram capturados ilegalmente na floresta tropical, mantidos em jaulas e transportados de um lado para o outro, para que turistas bem-intencionados pudessem pegar neles e tirar fotografias com eles.

Centenas de hashtags desencadeiam este novo sistema de alerta do Instagram, tanto em inglês como nas línguas de países como a Tailândia e a Indonésia, onde práticas ilícitas contra a vida selvagem se tornaram endémicas.

O Instagram demorou vários meses a compilar a lista de hashtags geralmente associados a comportamentos preocupantes, recolhendo informações do Fundo Mundial para a Natureza (World Wild Fund — WWF), da TRAFFIC, uma organização parceira do WWF, que monitoriza o tráfico de animais selvagens, e da World Animal Protection.

Cassandra Koenen, responsável pelas campanhas em prol da vida selvagem da World Animal Protection, que colaborou com o Instagram na elaboração da lista, tem esperança que estes avisos façam as pessoas parar e refletir. “Se o comportamento de alguém é interrompido, talvez essa pessoa pare para pensar, «Talvez haja algo mais aqui, ou talvez eu não deva simplesmente fazer gosto, ou reencaminhar, ou partilhar algo se o Instagram me está a dizer que há um problema com esta foto.»”

O Instagram não revela os hashtags selecionados, uma vez que a empresa quer que sejam os utilizadores a descobri-los de forma orgânica. E não pretende que aqueles que usam a plataforma para fomentar atividades ilícitas contra a vida selvagem consigam contornar, antecipadamente, os alertas.

QUAIS SÃO AS CONSEQUÊNCIAS PARA OS ANIMAIS SELVAGENS

Os avisos visam, em parte, a questão das selfies com animais selvagens, cuja prevalência nas redes sociais, segundo a World Animal Protection, aumentou 292% desde 2014.

Mas o que há de tão problemático numa fotografia de alguém a abraçar um animal selvagem aparentemente fofinho como um coala? É a interação, afirmam os especialistas em vida selvagem. Muitos dos animais que as pessoas geralmente querem acariciar, como é o caso das preguiças, não reagem bem ao serem repetidamente manuseados. É um fator de stress, diz Koenen, mas as pessoas têm dificuldade em reconhecer os efeitos no animal que estão a manusear. Com efeito, um estudo demonstrou que a maioria dos turistas não consegue avaliar que determinada atração é má para um animal selvagem.

Além disso, Koenen acrescenta, o mais preocupante é, frequentemente, aquilo que a foto não mostra. “Mesmo que a crueldade não esteja à frente dos nossos olhos, ela existe, nos bastidores, para chegar até àquele ponto.”

Na maioria dos casos, os animais que são abraçados e acariciados nas selfies foram capturados ilegalmente, e são mantidos em cativeiro em condições deploráveis. Outros animais muito usados em selfies, como as crias de leão e de tigre, são criados em cativeiro e desmamados demasiado cedo. Por sua vez, nadar com golfinhos ou andar de elefante, duas atividades muito populares entre os turistas, sujeitam os animais a um doloroso processo de domesticação. No caso dos elefantes, o processo é denominado phajaan (“esmagamento”).

A medida agora implementada pelo Instagram poderá também ajudar a conter o problema crescente do uso das redes sociais pelos traficantes de espécies selvagens, para a compra e venda de animais vivos, bem como de partes de animais vítimas de caça furtiva. Ao contrário das plataformas tradicionais de comércio eletrónico, como o eBay, o Facebook e o Instagram permitem que os potenciais traficantes estabeleçam ligações e conduzam as suas comunicações — e negociações — numa plataforma à parte e privada, diz Giavanna Grein, funcionária do programa de crimes contra a vida selvagem da TRAFFIC. A sua organização tem esperança que estes novos alertas desestabilizem este tráfico digital de animais selvagens.

“Pode ser que alguém que esteja a vender animais vivos através do Instagram se depare com este pop-up e pense, ‘OK, isto vai ser muito mais difícil para mim’”, diz Grein.

DESENVOLVER A PARTIR DA "FASE UM"

O Instagram já tinha implementado pop-ups de alerta para hashtags associados a suicídio, automutilação e distúrbios alimentares. “Muitos destes problemas são extremamente preocupantes”, afirma Grein. “É muito importante para nós ver a vida selvagem elevada a este mesmo patamar e ao mesmo espaço de diálogo. Dá-nos muita esperança que possamos avançar, como sociedade.”

O Instagram também já tinha proibido a publicação de conteúdos em que figurem, abertamente, maus-tratos a animais, bem como a venda de animais em perigo, ou de partes destes animais. Cain, a porta-voz da plataforma, designa esta iniciativa dos hashtags como “fase um”, e acrescenta que ainda não foram decididos quais os próximos passos a dar para mitigar atividades ilegais contra a vida selvagem.

Veja a Captura Arrepiante de uma Preguiça para o Mercado Negro

Como segundo passo, Koenen, da World Animal Protection, pretende ver a linguagem acerca do bem-estar animal inscrita nas normas do Instagram, relativamente àquilo que os utilizadores podem ou não publicar na plataforma. Segundo Giavanna Grein, a TRAFFIC e o WWF contam sugerir mais hashtags, assim como trabalhar em parceria com o Instagram, no sentido de formar os seus colaboradores para detetar conteúdos que envolvam animais ameaçados.

“As redes sociais ainda não se aperceberam da verdadeira escala e extensão do tráfico de espécies selvagens que tem lugar e é promovido [nestas plataformas]”, afirma Crawford Allan, senior director da TRAFFIC no WWF. “Creio que é muito importante que o Instagram dê o segundo passo, reconheça o problema e tome medidas firmes. Além de que irá estabelecer um referencial, que deveria servir como matéria de reflexão e diretriz para outros nas redes sociais.”

Cassandra Koenen, da World Animal Protection, concorda: “O Instagram, com os seus 800 milhões de utilizadores, é uma plataforma incrível para moldar a opinião pública.”

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