Instagram Combate Maus-tratos a Animais com Novo Sistema de Alerta

Recorrendo a ferramentas desenhadas para lidar com situações de automutilação e suicídio, a rede social vai começar a alertar os seus utilizadores para comportamentos que prejudicam a vida selvagem.

Publicado 7/12/2017, 16:23
Alerta do Instagram para Maus-tratos Animais
Um jovem tira uma selfie na Isla de los Micos, Ilha dos Macacos, na Amazónia colombiana. Os “safaris de selfies” — nos quais os turistas manuseiam os animais selvagens e tiram fotos com eles — são, cada vez mais, uma tendência. Os especialistas em vida selvagem afirmam que, nos bastidores, muitos destes animais estão em sofrimento.
Fotografia de Kirsten Luce, National Geographic

O Instagram é terreno fértil para fotos amorosas de animais selvagens — incluindo os exóticos e os ameaçados. Uma foto de alguém a abraçar uma preguiça ou a exibir uma cria de tigre como se de um animal de estimação se tratasse está apenas a um clique de distância nesta imensamente popular plataforma de partilha de imagens, que serve cerca de 800 milhões de utilizadores.

Mas, a partir de hoje, pesquisas por um grande número de hashtags relativos à vida selvagem irão desencadear uma notificação que alerta o utilizador para os abusos a que este animais são sujeitos nos bastidores, tudo para conseguir uma imagem aparentemente inocente.

O Instagram irá abrir um pop-up com uma mensagem sempre que alguém pesquisar ou clicar num hashtag como “#slothselfie.” Na mensagem pode ler-se, “Estás a pesquisar uma hashtag que pode estar associada a publicações que incentivam comportamentos nocivos para os animais ou para o ambiente.”

O utilizador poderá então aceder a uma página no Centro de Ajuda do Instagram, que contém uma série de informações acerca da exploração dos animais selvagens. A plataforma recorrerá ao mesmo processo para atividades mais condenáveis, tais como pesquisas por #exoticanimalforsale (animal exótico para venda), entre outros hashtags utilizados para publicitar a venda de animais vivos, ou de partes dos seus corpos.

Quando alguém pesquisar ou clicar num hashtag, como por exemplo #koalaselfie, que possa estar relacionado com comportamentos perjudiciais junto dos animais, esta mensagem de alerta aparece.

“Preocupamo-nos com a nossa comunidade, incluindo os animais e a vida selvagem, que são uma parte importante desta plataforma”, diz a porta-voz do Instagram, Emily Cain. “Julgo que, atualmente, é muito importante que a comunidade esteja alerta. Estamos a tentar fazer a nossa parte, contribuindo para a sua educação.”

A decisão do Instagram surge na sequência da longa investigação conduzida pela National Geographic e pela World Animal Protection, que visava a problemática do crescimento do turismo de vida selvagem na Amazónia. A National Geographic descobriu animais que eram capturados ilegalmente na floresta tropical, mantidos em jaulas e transportados de um lado para o outro, para que turistas bem-intencionados pudessem pegar neles e tirar fotografias com eles.

Centenas de hashtags desencadeiam este novo sistema de alerta do Instagram, tanto em inglês como nas línguas de países como a Tailândia e a Indonésia, onde práticas ilícitas contra a vida selvagem se tornaram endémicas.

O Instagram demorou vários meses a compilar a lista de hashtags geralmente associados a comportamentos preocupantes, recolhendo informações do Fundo Mundial para a Natureza (World Wild Fund — WWF), da TRAFFIC, uma organização parceira do WWF, que monitoriza o tráfico de animais selvagens, e da World Animal Protection.

Cassandra Koenen, responsável pelas campanhas em prol da vida selvagem da World Animal Protection, que colaborou com o Instagram na elaboração da lista, tem esperança que estes avisos façam as pessoas parar e refletir. “Se o comportamento de alguém é interrompido, talvez essa pessoa pare para pensar, «Talvez haja algo mais aqui, ou talvez eu não deva simplesmente fazer gosto, ou reencaminhar, ou partilhar algo se o Instagram me está a dizer que há um problema com esta foto.»”

O Instagram não revela os hashtags selecionados, uma vez que a empresa quer que sejam os utilizadores a descobri-los de forma orgânica. E não pretende que aqueles que usam a plataforma para fomentar atividades ilícitas contra a vida selvagem consigam contornar, antecipadamente, os alertas.

Um rapaz abraça uma preguiça jovem, em Puerto Alegria, no Peru, uma pequena cidade nas margens do rio Amazonas, onde dezenas de animais são ilegalmente mantidos em cativeiro, para serem manuseados e fotografados pelos turistas.
Fotografia de Kirsten Luce, National Geographic

QUAIS SÃO AS CONSEQUÊNCIAS PARA OS ANIMAIS SELVAGENS

Os avisos visam, em parte, a questão das selfies com animais selvagens, cuja prevalência nas redes sociais, segundo a World Animal Protection, aumentou 292% desde 2014.

Mas o que há de tão problemático numa fotografia de alguém a abraçar um animal selvagem aparentemente fofinho como um coala? É a interação, afirmam os especialistas em vida selvagem. Muitos dos animais que as pessoas geralmente querem acariciar, como é o caso das preguiças, não reagem bem ao serem repetidamente manuseados. É um fator de stress, diz Koenen, mas as pessoas têm dificuldade em reconhecer os efeitos no animal que estão a manusear. Com efeito, um estudo demonstrou que a maioria dos turistas não consegue avaliar que determinada atração é má para um animal selvagem.

Além disso, Koenen acrescenta, o mais preocupante é, frequentemente, aquilo que a foto não mostra. “Mesmo que a crueldade não esteja à frente dos nossos olhos, ela existe, nos bastidores, para chegar até àquele ponto.”

Na maioria dos casos, os animais que são abraçados e acariciados nas selfies foram capturados ilegalmente, e são mantidos em cativeiro em condições deploráveis. Outros animais muito usados em selfies, como as crias de leão e de tigre, são criados em cativeiro e desmamados demasiado cedo. Por sua vez, nadar com golfinhos ou andar de elefante, duas atividades muito populares entre os turistas, sujeitam os animais a um doloroso processo de domesticação. No caso dos elefantes, o processo é denominado phajaan (“esmagamento”).

A medida agora implementada pelo Instagram poderá também ajudar a conter o problema crescente do uso das redes sociais pelos traficantes de espécies selvagens, para a compra e venda de animais vivos, bem como de partes de animais vítimas de caça furtiva. Ao contrário das plataformas tradicionais de comércio eletrónico, como o eBay, o Facebook e o Instagram permitem que os potenciais traficantes estabeleçam ligações e conduzam as suas comunicações — e negociações — numa plataforma à parte e privada, diz Giavanna Grein, funcionária do programa de crimes contra a vida selvagem da TRAFFIC. A sua organização tem esperança que estes novos alertas desestabilizem este tráfico digital de animais selvagens.

“Pode ser que alguém que esteja a vender animais vivos através do Instagram se depare com este pop-up e pense, ‘OK, isto vai ser muito mais difícil para mim’”, diz Grein.

Um grupo de turistas empolgados concentra-se em torno de um boto-cor-de-rosa, no rio Negro, no Brasil. A maioria dos turistas não se apercebe de que estas interações são nefastas para os animais selvagens.
Fotografia de Kirsten Luce, National Geographic

DESENVOLVER A PARTIR DA "FASE UM"

O Instagram já tinha implementado pop-ups de alerta para hashtags associados a suicídio, automutilação e distúrbios alimentares. “Muitos destes problemas são extremamente preocupantes”, afirma Grein. “É muito importante para nós ver a vida selvagem elevada a este mesmo patamar e ao mesmo espaço de diálogo. Dá-nos muita esperança que possamos avançar, como sociedade.”

O Instagram também já tinha proibido a publicação de conteúdos em que figurem, abertamente, maus-tratos a animais, bem como a venda de animais em perigo, ou de partes destes animais. Cain, a porta-voz da plataforma, designa esta iniciativa dos hashtags como “fase um”, e acrescenta que ainda não foram decididos quais os próximos passos a dar para mitigar atividades ilegais contra a vida selvagem.

Veja a Captura Arrepiante de uma Preguiça para o Mercado Negro

Como segundo passo, Koenen, da World Animal Protection, pretende ver a linguagem acerca do bem-estar animal inscrita nas normas do Instagram, relativamente àquilo que os utilizadores podem ou não publicar na plataforma. Segundo Giavanna Grein, a TRAFFIC e o WWF contam sugerir mais hashtags, assim como trabalhar em parceria com o Instagram, no sentido de formar os seus colaboradores para detetar conteúdos que envolvam animais ameaçados.

“As redes sociais ainda não se aperceberam da verdadeira escala e extensão do tráfico de espécies selvagens que tem lugar e é promovido [nestas plataformas]”, afirma Crawford Allan, senior director da TRAFFIC no WWF. “Creio que é muito importante que o Instagram dê o segundo passo, reconheça o problema e tome medidas firmes. Além de que irá estabelecer um referencial, que deveria servir como matéria de reflexão e diretriz para outros nas redes sociais.”

Cassandra Koenen, da World Animal Protection, concorda: “O Instagram, com os seus 800 milhões de utilizadores, é uma plataforma incrível para moldar a opinião pública.”

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