Animais

Macacas Observadas a 'Interagirem Sexualmente' com Veados

Um artigo científico recente apresenta a primeira prova quantificável de jovens macacas-japonesas a tentar copular com veados-sika. Quinta-feira, 28 Dezembro

Por Elaina Zachos

Algo de estranho se passa com os macacos de uma ilha no Japão.

A 11 de dezembro, uma equipa de cientistas da Universidade de Lethbridge, no Canadá, publicou um artigo científico que revela aquilo que aparentam ser atos sexuais entre macacas-japonesas jovens e veados-sika. As macacas selvagens foram observadas a tentar copular com os veados em Minoo, no centro do Japão.

Em janeiro de 2017, tinham já sido descritas interações idênticas entre macacos e veados na ilha de Yakushima. Segundo Noëlle Gunst, coautora do estudo, os habitantes de Minoo, provavelmente, têm observado estes comportamentos já desde, pelo menos, 2014. Porém, enquanto os estudos anteriores se baseiam em evidências empíricas, este trabalho foca-se em números.

De acordo com a equipa, que inclui ainda os investigadores Paul Vasey e Jean-Baptiste Leca, este artigo é o primeiro estudo quantitativo das interações sexuais entre um primata não-humano e uma espécie não-primata.

"Estas descobertas corroboram a ideia de que este comportamento é uma prática sexual, da qual as macacas adolescentes possivelmente retiram alguma espécie de gratificação sexual", escreve Gunst num e-mail.

VEADOS COMO PARCEIROS

Há muito que se sabe que os macacos-japoneses selvagens têm por hábito montar veados-sika. Por vezes, os macacos cuidam da pelagem das suas montadas de quatro patas, enquanto os veados se alimentam dos frutos que os macacos deixam cair, chegando mesmo, ocasionalmente, a ingerir fezes destes.

Este novo estudo analisou as interações na época reprodutora através de vídeos e de testes hormonais em amostras fecais. Os investigadores comparam 258 interações de macacos-veado com contactos homossexuais observados entre macacos-fêmea no passado.

Baseando-se na ocorrência de tentativa de cópula, movimento pélvico e de vocalizações, a equipa concluiu que estas relações eram, efetivamente, de cariz sexual. Em alguns casos, os macacos chegavam a morder ou a puxar as hastes dos veados. (Para que não restem dúvidas, aqui está um vídeo.)

Os investigadores observaram 14 pares diferentes de macacos e veados. No caso de cinco deles, as macacas tentaram copular com o mesmo parceiro ungulado três ou mais vezes num período de dez minutos, tendo emitido chamamentos idênticos àqueles que se podem escutar quando os macacos acasalam com um membro da mesma espécie. Noutros, macacas interrompiam o ato sexual iniciado entre outras macacas e veados. Gunst diz que as interações ocorriam cerca de uma vez por dia, demorando de entre apenas alguns minutos e cerca de duas horas.

Na maioria dos casos, os veados aparentavam indiferença face a este comportamento. Alguns abanavam o dorso para enxotar os macacos, mas outros reagiam passivamente enquanto os macacos tentavam a cópula. Em alguns casos, os veados simplesmente continuavam a alimentar-se.

A MOTIVAÇÃO DOS MACACOS

O sexo interespécies não é algo inédito; sabe-se que 10% de todas as espécies animais hibridam. Contudo, esta prática é mais frequente em animais anatomicamente semelhantes. Uma vez que os macacos e os veados são, fisicamente, muito diferentes, é altamente improvável que os macacos confundam os veados com um potencial parceiro primata.

"A interação sexual heteroespecífica entre espécies sem parentesco próximo é muito rara", disse Cédric Sueur, que tinha publicado o estudo anterior acerca das relações entre macacos e veados, à National Geographic em janeiro.

Os investigadores afirmam que há dois motivos que poderão levar os macacos a tentarem acasalar com os veados. Primeiro, pode ser uma forma de os macacos jovens praticarem a cópula. Ou, segundo, pode ser uma alternativa sexual para as fêmeas jovens. As macacas pequenas são, por vezes, rejeitadas por potenciais parceiros sexuais, e a cópula com os machos, de maiores dimensões, pode ser perigosa. Acasalar com um veado poderá ser uma opção tentadora para estes primatas.

"As macacas jovens poderão experienciar a sua primeira estimulação genital no decurso destas interações heteroespecíficas lúdicas com veados", salienta Gunst. "Então, durante o pico das hormonas sexuais esteroides, característico da adolescência, elas poderão procurar o mesmo tipo de gratificação sexual com parceiros veados, em especial quando se encontram sexualmente privadas de machos conspecíficos."

Contudo, não se sabe ao certo desde quando é que este comportamento decorre em Minoo. Estes pares improváveis podem ser apenas uma peculiaridade recente.

"De futuro, as observações neste local irão demonstrar se esta excentricidade sexual não passou de um capricho passageiro, ou se será o início de um fenómeno transmitido culturalmente", diz Gunst via e-mail.

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