Serão os Cães Mais Inteligentes do Que os Gatos? A Ciência Tem Uma Resposta

Uma equipa de investigadores contou o número de neurónios nos cérebros de cães e gatos, e descobriu que, num dos animais, este número é duas vezes superior.quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Um dos nossos debates mais acesos poderá agora ter uma resposta.

Ao que parece, os cães têm cerca do dobro do número de neurónios nos seus córtices cerebrais do que os gatos, o que parece indicar que estes primeiros são duas vezes mais inteligentes.

Esta descoberta foi aceite para publicação, o que deverá acontecer brevemente, pela revista científica Frontiers in Neuroanatomy. Uma equipa de investigadores de seis universidades diferentes, nos Estados Unidos, Brasil, Dinamarca e África do Sul, colaborou neste estudo.

Uma das autoras do estudo é a conhecida neurologista Suzana Herculano-Houzel. Durante a última década, a atual professora da Universidade Vanderbilt tem-se dedicado ao estudo da função cognitiva, tanto em humanos como em animais. Para obter uma medição o mais precisa possível, a neurologista começa por contar o número de neurónios, um tipo especial de células nervosas que se encontram no cérebro, responsável pela transmissão de mensagens.

"Pegamos num cérebro e transformamo-lo em papa", diz, de forma muito prática, como sendo o primeiro passo para esta contagem de neurónios. A partir daí, acrescenta, temos determinado número de núcleos de células neuronais em suspensão, o que permite aos investigadores fazer uma estimativa do número de neurónios presente.

PORQUÊ USAR OS NEURÓNIOS?

"Os neurónios são as unidades de base para o processamento de informação", diz Herculano-Houzel. "Quanto mais unidades encontrarmos num cérebro, maior a capacidade cognitiva do animal."

Para preparar essa "papa de cérebro", como a neurologista lhe chama, a equipa de investigadores usou apenas uma parte deste órgão, denominada córtex cerebral, que corresponde à camada exterior, enrugada, que envolve todo o cérebro. Ainda que os estímulos externos, como a visão e o tato, sejam processados por diferentes áreas do cérebro, o córtex conjuga toda esta informação, por forma a conduzir à tomada de decisões e resolução de problemas, entre outras funções.

"O córtex é a parte do cérebro que lhe confere complexidade e flexibilidade", diz Herculano-Houzel.

Para ter uma noção de quantos neurónios os cães e gatos poderão, normalmente, ter, a equipa usou três cérebros — um de um gato, um de um golden retriever e outro de um pequeno cão sem raça definida. Foram usados dois cérebros de cão, pois estes animais apresentam grandes diferenças no que respeita ao tamanho.

Não obstante estas variações de tamanho, em cada um dos cérebros de cão, os investigadores encontraram cerca de 500 milhões de neurónios, mais do que os dobro dos cerca de 250 milhões encontrados no cérebro do gato.

Os Cães Mudam a Sua Expressão Facial Quando os Humanos Prestam Atenção

Tendo por base o número de neurónios encontrado, a equipa avançou com a informação de que os cães têm, sensivelmente, o mesmo grau de inteligência que os guaxinins e os leões, enquanto os gatos domésticos têm uma inteligência comparável à dos ursos.

Como comparação, os seres humanos têm, seguramente, o maior número de neurónios no córtex cerebral, chegando a atingir os 16 milhares de milhões por pessoa. De entre os nossos parentes mais próximos, os orangotangos e gorilas têm cerca de oito a nove milhares de milhões de neurónios, enquanto que os chimpanzés têm cerca de seis a sete milhares de milhões.

Um dos animais não primatas mais inteligentes que a equipa estudou foi o elefante, com 5,6 milhares de milhões de neurónios. Contudo, Herculano-Houzel salienta que os elefantes também apresentam uma contagem de neurónios superior ao normal nos seus cerebelos, a parte do cérebro que controla as funções motoras. Este aspeto poderá auxiliá-los a movimentar as suas pesadas trombas.

A medida da inteligência

Ainda que os investigadores possam ter dado algum peso científico a um debate bastante corriqueiro acerca de cães e gatos, o seu trabalho enquadra-se num projeto mais vasto, que visa usar os neurónios como uma das formas de quantificar a inteligência.

Estudos anteriores, alguns deles bastante controversos, recorriam à medição do tamanhocomplexidade estrutural do cérebro para quantificar a inteligência.

Sarah Benson-Amram, cientista do laboratório de Comportamento e Cognição Animal da Universidade do Wyoming, afirma que ela e os seus colegas encontraram algumas evidências de que os carnívoros com cérebros de maiores dimensões têm maior capacidade de resolução de problemas. Ainda assim, a investigadora acrescenta que há poucas provas de que o tamanho do cérebro seja uma medida universal de inteligência.

"É, sem dúvida, necessária mais investigação acerca deste tema antes que possamos determinar cabalmente qual o peso da dimensão do cérebro como medida de inteligência entre os vários grupos animais", diz.

Herculano-Houzel defende que a contagem de neurónios é apenas uma das formas de medir a inteligência, ainda que, na sua opinião, seja a mais eficaz até à data.

"Não é o facto de haver um corpo maior que justifica a existência de um maior número de neurónios", afirma. "Há animais com cérebros de dimensões semelhantes, mas que apresentam contagens de neurónios muito díspares."

Até à data, a equipa de Herculano-Houzel tem-se concentrado no estudo dos carnívoros terrestres. Contudo, de futuro, esperam poder vir a estudar mamíferos marinhos.

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