Tratador Morto por Elefante na Tailândia Reacende Controvérsia Sobre Animais em Cativeiro

O célebre elefante macho encontrava-se em musth, um estado hormonal de grande agressividade — este é apenas o último de uma longa lista de acidentes fatais.quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Por Austa Somvichian-Clausen

Na cidade de Chiang Mai, no norte da Tailândia, um incidente com um elefante-asiático, chamado Ekasit, teve como desfecho a morte do seu proprietário, Somsak Riengngen.

O elefante estava a ser desacorrentado por Riengngen, com um cornaca, ou tratador, montado sobre o seu dorso. Foi então que Ekasit, repentinamente, se virou para trás, agarrando o seu dono com a tromba e esmagando-o, o que resultou na sua morte.

Ekasit é um elefante macho que, na altura, se encontrava em musth — um estado de grande agressividade, acompanhado de picos hormonais. Um elefante macho em musth apresenta um nível de testosterona seis vezes superior ao normal.

“Trabalhar com elefante em musth é extremamente perigoso”, diz Joshua Plotnik, que estuda os elefantes-asiáticos e dá aulas no programa de comportamento animal e conservação do Hunter College, em Nova Iorque. “Os machos, ainda que, normalmente, sejam animais dóceis, podem ser imprevisíveis.”

Segundo funcionários do jardim zoológico, Ekasit fez aparições em diversos filmes tailandeses e estrangeiros, bem como em anúncios de televisão. A seu desempenho mais célebre foi na série de filmes de artes marciais tailandesa Ong Bak. Plotnik acrescenta que, por experiência própria, nunca viu nenhum elefante ser punido por uma tragédia como esta.

Elefantes para aluguer em destaque

Contudo, este acidente chamou a atenção para o florescente e controverso negócio do turismo de elefantes, na Tailândia. Estes animais são frequentemente usados em espetáculos de circo, como pintores e para transportar visitantes em passeios pela selva, entre outras formas de entretenimento.

É frequente acontecerem incidentes violentos envolvendo cornacas e elefantes mantidos em cativeiro na Tailândia — a revista The Atlantic dá conta de, pelo menos, quatro mortes só no mês de março, e acrescenta ainda que é difícil dizer ao certo quantas mortes ocorrem por ano, uma vez que a maioria não são sequer comunicadas.

Elefantes Salvam Centenas de Pessoas de Cheias

Com três a quatro mil elefantes em cativeiro atualmente no país, o número pode ser elevado. Segundo um relatório recente da World Animal Protection, só na Tailândia, há o dobro dos elefantes na indústria do turismo do que em todos os outros países da Ásia juntos, sendo que muitos destes animais são mantidos em condições de grande crueldade.

“Todos os elefantes deveriam viver em estado selvagem; nem um único deveria ser mantido em cativeiro”, diz Plotnik. “Mas isso é estar a ser idealista e é, lamentavelmente, impossível, dada a escassez de terras selvagens disponíveis para os elefantes, o elevado número de elefantes que ainda são mantidos em cativeiro, e a sua importância para a economia, a cultura e as tradições tailandesas.”

Encontrar soluções

Segundo Plotnik, a solução é a colaboração — entre culturas, para melhorar o bem-estar dos elefantes mantidos em cativeiro, bem como os protocolos de conservação destes animais em meio selvagem. Através de iniciativas levadas a cabo pelas mais diversas instituições, desde o próprio governo até às organizações não governamentais, os padrões de tratamento para os elefantes no sudeste asiático poderão ser melhorados, remata.

De acordo com a World Animal Protection, entre 2010 e 2016, o turismo duplicou na Tailândia, de 15,9 milhões para 32,6 milhões de visitantes. Paralelamente, esse crescimento foi acompanhado por um aumento do número de elefantes mantidos em cativeiro na ordem dos 30%, sobretudo para suprir a procura dos turistas que pretendiam ter uma experiência com estes animais. Porém, a World Animal Protection afirma ter registado uma quebra de 9% durante este ano no número de pessoas que consideram aceitável montar um elefante, quando comparado com os dados de há três anos. (Saiba mais sobre a aposentação dos elefantes do Circo Ringling.)

A organização afirma que a maioria dos turistas procura experiências com os elefantes pois adora animais selvagens, mas que não está a par das atrocidades que são cometidas nos bastidores, tanto contra os elefantes cativos, como contra os seus cornacas. Regra geral, os treinadores são mal pagos, sobrecarregados com trabalho e expostos a uma série de situações perigosas.

“Os elefantes são inteligentes e empáticos, mas são, antes de tudo, animais selvagens”, diz Plotnik.

“O respeito pela cultura e tradições tailandesas significa que, para melhorar o bem-estar dos elefantes mantidos em cativeiro, temos de trabalhar em conjunto e usar tudo aquilo que sabemos, fruto da investigação científica e da medicina veterinária, para cuidar melhor destes animais”, conclui.

Veja: Não Brinque com Este Elefante.
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