Animais

Um Exemplo De Como os Símios Conseguem Ser Mais Humanos do Que Nós

Novas pesquisas indicam que os bonobos praticantes do amor-livre são gentis para estranhos sem querer nada em troca.Tuesday, December 12, 2017

Por Elaina Zachos

Não se apresse a dar palmadinhas nas suas costas por segurar a porta àquele estranho. Podemos apelidar o comportamento de decência humana, mas a decência não é exclusivamente humana.

Os bonobos, os amistosos hippies do mundo dos primatas, estão dispostos a ajudar estranhos, mesmo que não ganhem nada com isso. Conclusões tiradas pelos investigadores da Universidade de Duke, no relatório publicado a 7 de novembro na revista Scientific Reports. Isto mostra que os humanos não são os únicos a demonstrar gentileza com estranhos, o que sugere que esse comportamento possa ter evoluído entre os nossos parentes mais próximos, dependendo das suas necessidades sociais.

"Estamos a tentar perceber o que é semelhante e o que é diferente dos humanos”, explica Jingzhi Tan, um coautor do estudo.

Um conto de dois testes

Os investigadores já sabiam que os bonobos partilhavam a sua comida com estranhos, e queriam perceber se os macacos também ajudariam um estranho sem nenhuma recompensa.

Trabalharam com os macacos do santuário Lola ya Bonobo na República Democratica do Congo, e colocaram um par de bonobos que não se conhecia em quartos adjacentes separados por uma vedação e por cima de um dos quartos içaram um pedaço de maça. Se o bonobo do outro quarto trepasse a vedação conseguiria fazer cair a fruta – e só o outro, o estranho, a conseguiria apanhar.

Este bonobo órfão vive no santuário Lola Ya Bonobo Chimpanzee na República Democrática do Congo. Os bonobos do santuário são gentis com estranhos mesmo que não ganhem nada com isso.

Sem esperar um incentivo ou uma indicação, muitos dos bonobos da primeira sala fizeram cair a fruta no sala do estranho. Quando a outra sala estava vazia, era muito menos provável que os bonobos fizessem cair a fruta, o que sugere que estavam motivados para ajudar os estranhos.

"Se queres ajudar, tens de ajudar sem que isso te seja pedido”, explica Tan. “Ajudar estranhos deve ser altruísta. Não pode ser egoísta.”

A segunda parte do estudo testou o quão consciente era esta resposta de bom samaritano ao colocar um grupo de bonobos a ver vídeos curtos de outros bonobos. Os sujeitos a teste conheciam alguns dos animais que figuravam nos vídeos, mas outros eram estranhos do jardim zoológico de Columbos.

Os vídeos mostravam macacos a bocejar ou que mantinham expressões neutras, e os investigadores queriam ver se os sujeitos bocejariam em resposta – um sinal de empatia – aos seus conhecidos ou aos macacos que não conheciam. Concluíram que os bocejos dos estranhos eram tão contagiosos como os dos seus companheiros.

Como Tan e o antropólogo Brian Hare já tinham estudado como os bonobos partilhavam a sua comida, Tan diz que esperavam que os macacos tivessem interações amistosas com aqueles que não conheciam.

"Quando dois grupos se conhecem eles não são agressivos como os chimpanzés”, declara Tan. “É até bastante comum que só interajam de forma pacífica uns com os outros.”

Questões de família

O comportamento do bonobo contrasta com o dos chimpanzés, os seus pares mais agressivos. Os dois grandes símios partilham mais de 98% do ADN uns com os outros e também com os humanos.

Bonobos vivem em pacíficas comunidades matriarcais onde utilizam complexas vocalizações para comunicar uns com os outros, e o sexo desempenha um importante papel em certas situações sociais. Quando ficam stressados, os bonobos tendem mais para dar abraços do que para cortar a jugular. Por outro lado, os chimpanzés são conhecidos por serem agressivos e violentos.

"Este é o tipo de coisa que não veríamos numa sociedade de chimpanzés”, diz Zanna Clay, uma professora de psicologia da Universidade de Durham, em Inglaterra. “Não seria possível conduzir esta experiência com chimpanzés porque são demasiado hostis.”

Tan diz que os chimpanzés ajudam apenas quando requisitados para fazê-lo, e que bocejam contagiados apenas por membros do seu grupo.

Uma vez que humanos, chimpanzés e bonobos são parentes próximos, este estudo sugere semelhanças na forma de lidar com estranhos nos três grupos, dependendo da sociedade em que estão inseridos. Os bonobos-fémeas deixam o seu grupo quando atingem a maioridade, o que faz com que seja mais importante conseguir socializar com estranhos.

"Uma hostilidade bélica em relação a outros grupos faz parte da nossa história evolutiva. Os humanos apresentam ambas as valências” afirma Clay. “Não chegámos onde chegámos a trabalhar sozinhos.”

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