Animais

99% Destas Tartarugas-marinhas Estão A Nascer Fêmeas — Eis A Razão

A maior colónia de tartarugas-verdes do oceano Pacífico está a atravessar uma grave crise, devido, possivelmente, ao aumento das temperaturas. Tornar-se-á este num problema mundial? Quarta-feira, 17 Janeiro

Por Craig Welch

Os “pastores de tartarugas” aportaram na ilha de Ingram à espera de sexo e calor.

As tartarugas-verdes do Pacífico passam anos a navegar por esta zona de alimentação a norte da Austrália, consumindo ervas-marinhas, antes de se dirigirem para as áreas de nidificação, para acasalarem e fazerem a postura. Os cientistas perguntavam-se: quais destes répteis são machos e quais são fêmeas?

Nem sempre se consegue determinar o sexo de uma tartaruga por mera observação, daí que os investigadores tenham organizado um “rodeo de tartarugas.” Nos seus esquifes, os cientistas perseguiam as tartarugas, lançando-se sobre as suas carapaças quando se encontravam suficientemente próximos. Após conduzirem a tartaruga cuidadosamente para terra, recolhiam amostras de ADN e de sangue, e faziam pequenas incisões para inspecionar as gónadas do animal.

Uma vez que o sexo das tartarugas-marinhas é determinado pelo calor da areia onde os ovos estão a ser incubados, os cientistas suspeitavam que pudessem existir mais fêmeas do que machos. Afinal de contas, as alterações climáticas provocaram o aumento das temperaturas do ar e da água, o que, nestes animais, favorece o nascimento de fêmeas. Mas, em vez disso, o que eles descobriram foi que as fêmeas da maior e mais importante colónia de tartarugas-verdes do oceano Pacífico suplantavam os machos numa proporção de, pelo menos, 116 para 1.

“Isto é extremo — extremo com letras maiúsculas e vários pontos de exclamação”, diz Camryn Allen, especialista em tartarugas da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA — National Oceanic and Atmospheric Administration), no Havai. “Estamos a falar de uns quantos machos para centenas e centenas de fêmeas. Ficámos chocados.”

Um novo artigo, publicado por Allen e seus colegas na revista científica Current Biology, na segunda-feira, é apenas o mais recente estudo a sugerir que o aumento das temperaturas em todo o globo pode tornar as populações de tartarugas-marinhas quase exclusivamente femininas. Porém, até à data, é a análise mais detalhada da magnitude atual deste problema, suscitando novas questões acerca dos riscos globais para as tartarugas marinhas, bem como para outras espécies, cujo sexo é determinado pela temperatura — desde jacarés e iguanas, aos Menidia beryllina, uma importante espécie de peixes em diversos cursos de água e estuários.

“Trabalhamos com uma das maiores populações de tartarugas do mundo e a maioria das pessoas tem tendência para achar que isso significa que está tudo bem”, diz o biólogo marinho Michael Jensen, autor principal deste novo estudo e bolseiro de pós-doutoramento no Centro de Ciência de Pescas do Sudoeste da NOAA, em La Jolla, na Califórnia. “Mas o que irá acontecer daqui a 20 anos, quando já não houverem mais machos a atingir a adulta? Os que existem serão suficientes para manter a população?”

“ERA MUITO PIOR DO QUE AQUILO QUE PENSÁVAMOS”

A tartarugas-verdes do leste da Austrália, que podem chegar aos 227 quilogramas, com as suas carapaças em forma de coração com 1,2 metros, ou mais, de diâmetro, geralmente nidificam em apenas dois locais — um conjunto de ilhas próximo de Brisbane, ao longo da vertente sul da Grande Barreira de Coral, e, 1200 quilómetros a norte, uma pequena e isolada lágrima de areia e erva, chamada ilha Raine. Alguns anos após a eclosão dos ovos, as jovens tartarugas encontram-se, misturam-se e nadam nas águas pouco profundas de estreitas faixas do mar de Coral, onde poderão permanecer durante um quarto de século, ou mais, até mudarem a carapaça e voltarem ao seu local de nascimento para acasalar. As tartarugas regressarão a este mesmo território de alimentação uma e outra vez, durante décadas.

Jensen queria perceber se as alterações climáticas já teriam afetado o rácio de crias macho para crias fêmea. Recorrendo a testes genéticos, o biólogo descobriu que podia seguir tartarugas de qualquer idade entre uma área de alimentação e locais de nidificação específicos. Ainda assim, faltava uma informação importante nos seus dados demográficos: o sexo. O sexo das tartarugas só é evidente após estas atingirem a maturidade. (Os machos em idade reprodutora têm a cauda ligeiramente maior.) Por essa altura, as tartarugas podem já ter décadas. Para resolver esse problema, os cientistas, geralmente, recorrem à laparoscopia, inserindo um tubo fino no animal para visualizar os seus órgãos. Mas trata-se de uma técnica invasiva e pouco prática para quem precisa de examinar centenas de animais. Jensen estava num impasse.

Numa conferência sobre tartarugas, no México, Jensen cruzou-se com Allen, que já tinha feito investigação com coalas. Allen tinha usado os níveis de testosterona para acompanhar as gravidezes destes marsupiais arborícolas. A partir daí, a investigadora tinha começado a aperfeiçoar metodologias para determinar o sexo de espécies marinhas, com base nos níveis hormonais. Tudo o que ela precisava era de um pouco de sangue.

Os dois juntaram-se a outros investigadores, incluindo o especialista em tartarugas australiano Ian Bell, e colheram sangue das tartarugas da Grande Barreira de Coral. A equipa efetuou algumas laparoscopias para confirmar a fiabilidade do método de Allen. Compararam os resultados obtidos com as temperaturas nas praias de nidificação e analisaram tartarugas de diferentes idades. Os resultados apanharam-nos de surpresa.

“Ficámos estupefactos”, diz Allen. “Era muito pior do que aquilo que pensávamos.”

Ao que parece, a ilha Raine tem produzido, quase exclusivamente, tartarugas fêmea nos últimos 20 anos, pelo menos. Isto é algo muito preocupante. Os 32 hectares de Raine e os bancos de coral a ela associados dão abrigo a uma das maiores colónias reprodutoras de tartarugas-verdes do Planeta, onde mais de 200 000 animais vêm nidificar. Na época alta, chegam a instalar-se no local 18 000 tartarugas em simultâneo. E esse é apenas o número de fêmeas.

Uma vez que os cientistas também conseguiram determinar a idade aproximada das tartarugas amostradas, foi feita uma outra descoberta. Ao longo daquela faixa a norte da Grande Barreira de Coral, onde, nos últimos anos, o aumento das temperaturas causou um notório branqueamento dos corais, a proporção de fêmeas para machos tinha-se agravado com o passar do tempo. As tartarugas nascidas entre os anos 70 e 80 também eram, na sua maioria, fêmeas, mas o rácio era de apenas 6 para 1.

“Este é um trabalho inovador”,  diz Brendan Godley, especialista em tartarugas-marinhasprofessor de ciências da conservação na Universidade de Exeter, que não esteve envolvido na realização do estudo. O âmbito — estendendo-se ao longo de toda a Grande Barreira de Coral — e a abordagem multidisciplinar fazem desta uma investigação extremamente valiosa, acrescenta.

Igualmente importante é aquilo que Jensen e Allen descobriram mais a sul. Ali, as tartarugas que nascem no sul do recife, próximo de Brisbane — onde o aumento das temperaturas não foi tão drástico, e onde o coral continua saudável — saem-se bastante melhor, com as fêmeas a ultrapassarem os machos numa proporção de apenas 2 para 1.

“Estes resultados, em conjunto com uma modelação elegante, mostram que as praias mais frescas do sul continuam a produzir machos, mas que no norte, mais tropical, quase só nascem fêmeas”, diz Godley. “Estas descobertas demonstram cabalmente que as alterações climáticas afetam variadíssimos aspetos da biologia das espécies selvagens.”

Mas qual a extensão deste fenómeno — e quais as suas consequências?

“AS TEMPERATURAS ESTÃO A AUMENTAR INCRIVELMENTE RÁPIDO”

Por enquanto, ninguém sabe.

Uma vez que as tartarugas-marinhas macho geralmente acasalam com mais do que uma fêmea, o que os machos, tipicamente, acasalam com maior frequência, um ligeiro desvio que favoreça as fêmeas pode ser vantajoso. Um estudo recente, que analisava 75 colónias de tartarugas-marinhas de todo o mundo, determinou um rácio de fêmeas para machos de cerca de 3 para 1. Efetivamente, algumas populações de tartarugas produziam menos machos do que fêmeas já há um século atrás. Porém, a questão é: qual a magnitude desta alteração, e será que já atingimos um ponto de não retorno?

As tartarugas-marinhas existem há cerca de 100 milhões de anos, e as temperaturas têm aumentado e diminuído durante esse período. Após décadas de declínio causado pela pesca, caça furtiva, poluição, doenças, construções, perda de habitat e capturas acidentais em resultado de atividades pesqueiras, muitas das populações de todo o mundo têm dado sinais de recuperação nos últimos tempos.

“Mas agora as temperaturas estão a aumentar incrivelmente rápido”, diz Jensen. “A evolução requer muitas gerações para que os animais se adaptem. Mas estes animais chegam a viver 50 anos ou mais, e as coisas estão a mudar drasticamente ainda durante o seu período de vida.”

Por exemplo, na ilha Raine, o aumento do nível do mar inundou os locais de postura, afogando os ovos. A erosão das praias está a originar mini-falésias, fazendo com que as tartarugas-verdes adultas caiam sobre o dorso e morram, incapazes de se virarem ao contrário. As autoridades australianas estão a investir milhões de dólares na recuperação da ilha, por forma a melhorar a vida das tartarugas.

Ainda assim, já há 35 anos, pelo menos, que os cientistas prevêem que o equilíbrio entre machos e fêmeas das sete espécies de tartarugas-marinhas — tartarugas-verdes, tartarugas-comuns, tartarugas-de-couro, tartarugas-de-escamas, tartarugas-marinhas-australianas, tartarugas-oliváceas e tartarugas-de-kemp — seja extremamente sensível às alterações climáticas. Estes répteis são de tal forma suscetíveis às mudanças de temperatura que o aumento de apenas alguns graus Celsius poderá, eventualmente, vir a originar uma descendência constituída exclusivamente por fêmeas, o que poderá fazer desaparecer populações inteiras. Se o aumento das temperaturas for excessivo, as coisas irão piorar; os ovos cozem, literalmente, nos ninhos.

Contudo, antes deste último trabalho, a maioria dos estudos, mesmo os mais recentes, sugeriam que a feminização excessiva não representava uma ameaça para as populações de tartarugas, e os dados sobre o que está a acontecer atualmente eram escassos. Num estudo de 2015, que visava um pequeno agregado de tartarugas-verdes em San Diego, Allen descobriu que 65% dos animais eram fêmeas, mas que, entre os juvenis, essa percentagem aumentava para 78%. Entretanto, algumas populações de tartarugas-de-couro na Costa Rica e de tartarugas-comuns da Flórida e de outros locais, como é o caso da África Ocidental, mostraram um aumento do número de fêmeas. Mas nenhum desses estudos analisa as populações a uma escala comparável sequer ao trabalho de Jensen e Allen.

Mesmo assim, é complicado determinar quando é que o número de machos fica demasiado baixo. A resposta pode variar consoante a espécie e a localização. Para além disso, o que determina o sexo — a temperatura — pode também ser afetado por fatores locais. No arquipélago de Chagos, na zona oeste do oceano Índico, fortes chuvadas frias que arrefecem a areia, a sombra das árvores costeiras e as praias estreitas forçam as tartarugas-de-escamas a nidificar perto da água, contribuindo para a manutenção de uma proporção equilibrada entre machos e fêmeas. Nas Caraíbas, porém, os cientistas advertem que as tartarugas-marinhas estão em perigo devido às explorações madeireiras, pois estas reduzem as sombras que ajudam a manter as praias frescas o suficiente para a produção de machos.

"O QUE É REALMENTE ASSUSTADOR”

Tudo isto torna este estudo na Grande Barreira de Coral ainda mais relevante, afirma o especialista em tartarugas-marinhas Nicolas Pilcher, que não participou no trabalho. Nesse local, a maioria das praias não tem qualquer sombra, e a relação entre o clima e os rácios sexuais é bastante mais evidente. E o número de tartarugas afetadas é, possivelmente, na ordem das centenas de milhar. Nenhum outro estudo tinha determinado um rácio tão desproporcional num local tão importante — em parte, porque ninguém, até hoje, tinha descoberto como o fazer.

“É um estudo singular, na medida em que a população da ilha Raine é tão grande que o impacto de (qualquer potencial) perda será enorme, e que os autores tenham feito uma análise longitudinal dos dados, mostrando que, antigamente, a distribuição dos sexos era muito mais uniforme”, conclui Pilcher.

O que mais preocupa Allen é aquilo que a sua investigação parece indicar acerca de milhares de populações de tartarugas-marinhas em todo o mundo, que ainda não foram estudadas da mesma forma. Ou seja, acerca de quase todas as populações de tartarugas-marinhas. Ela e Jensen tencionam continuar a empregar esta metodologia noutros locais de nidificação, tendo já recolhido amostras em Guam, no Havai e em Saipã.

“A população do norte da Grande Barreira de Coral é uma das maiores populações geneticamente distintas de tartarugas-marinhas do Planeta”, afirma Allen. “Contudo, o que é realmente assustador é pensarmos que este problema também está a afetar populações cujos efetivos já são muito reduzidos.”

Continuar a Ler