Animais

Ataque Letal: Quando um Secretário-pequeno Decapita a sua Presa

É comum as aves de rapina atacarem direta e letalmente a cabeça das suas presas. É uma questão de eficácia. Quarta-feira, 24 Janeiro

Por Elaina Zachos

De férias na África do Sul, Juan Geyser e a sua mulher descansavam em Lower Sabie, um dos alojamentos do Kruger National Park, quando testemunharam um assassinato. Junto à Sunset Dam, Geyser conseguiu captar o sucedido em vídeo.

Diante dos seus olhos, um secretário-pequeno lança-se a um ninho de tecelões em busca de lanche. Em poucos segundos, surge-nos a asa colorida de um tecelão. Servindo-se das suas pequenas patas para segurar o ninho, o secretário-pequeno arranca a ave do seu lar, arrastando-a para outro ramo da mesma árvore.

Surpreendida e assustada, a ave resiste, tentando escapar às fortes garras do secretário-pequeno que lhe arrancam as penas. Nisto, a ave de rapina ataca-lhe a cabeça. Servindo-se do seu bico, investe sobre o pescoço da pequena ave várias vezes até, finalmente, o deslocar. Já sem vida, o pequeno tecelão jaz no ramo da árvore.

O secretário-pequeno investe sobre a sua presa mais algumas vezes e, depois de olhar à sua volta, decapita-a separando a cabeça do corpo.

"Lá se foi a cabeça. E... engoliu-a!", relata Geyser no vídeo partilhado pela comunidade Latest Sightings em novembro. “Que delícia. Tenho um passarinho na barriga.”

RÁPIDOS E LETAIS

"Muitas aves de rapina vão direitas à cabeça das suas presas. É, quase garantidamente, um ataque letal”, diz-nos Washington Wachira, fotógrafo de vida selvagem e correspondente da National Geographic. “Umas vezes arrancam as cabeças como fez o secretário-pequeno do vídeo. Outras bicam-nas, perfurando o crânio das aves até as matarem.”

Wachira explica-nos que, por vezes, as aves de rapina atacam primeiro outras partes do corpo das suas presas; a cabeça não detém exclusividade.

Em África, os tecelões vivem, por vezes, em ninhos comunitários, isto é, com recurso a ervas que moldam e transformam numa espécie de casulos, unem os vários ninhos construídos na mesma árvore. Tendem a construir os seus ninhos perto da água, o que faz com que estejam menos à mercê das cobras, não os defendendo, no entanto, das aves de rapina.

Contudo, algumas cobras-boomslang (Dispholidus typus) e ratazanas ainda tentam vasculhar nos ovos destas aves. Além exemplares de secretário-pequeno, também é comum ver-se bufos-africanos, babuínos Papio ursinus e gatos domésticos a comerem os ovos dos tecelões. O cuco-bronzeado-maior é conhecido por se infiltrar e tomar de assalto os ninhos destas aves.

UM ASSASSINO MULTIFACETADO

Os secretários-pequenos alimentam-se de uma grande variedade de animais, desde mamíferos, como pequenos roedores e morcegos, a pequenas aves, lagartos, anfíbios e até insetos. Normalmente, fazem aproximações ágeis ao solo, perseguem animais pelo meio da vegetação e espiam as futuras refeições empoleirados nos ramos. São conhecidos por estarem sempre alerta para possíveis petiscos. 

"Não diria que os secretários são assassinos. Antes, que são extremamente competentes”, afirma Wachira. “já os vi pendurados de cabeça para baixo nos ramos das árvores para raptarem os passarinhos bebés dos ninhos. Já os vi a correr em solo firme, como se de atletas se tratassem, enquanto perseguiam lagartos.”

Aves incomuns, os secretários-pequenos têm pernas articuladas e pés pequenos. Watchira explicou-nos que estas aves conseguem dobrar os seus membros para a frente e para trás em quase todos os ângulos imagináveis. Isto ajuda-as a infiltrarem-se em ninhos e noutros sítios apertados.

Infelizmente, para as presas do secretário-pequeno, parece que nenhum local é seguro.

É bem possível que a natureza destas aves de rapina se deva à forma como vêm ao mundo e como crescem. As crias nascem em grandes ninhos construídos nas encostas dos penhascos com paus e folhas. A ninhada é, geralmente, composta por três ovos, que eclodem passados cerca de 35 dias de incubação. Depois, que nem gladiadores de aviário, as jovens aves lutam entre si até à morte. Só os mais fortes sobrevivem.

"De facto, fazem o que for preciso para atingir os seus objetivos", afirma Wachira.

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