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China Termina com o seu Comércio Ilegal de Marfim

Dois anos após um compromisso conjunto com os EUA para proibir o comércio doméstico de marfim, todas as fábricas de escultura licenciadas pelo governo e retalhistas de marfim chineses estão prestes a encerrar. Terça-feira, 9 Janeiro

Por Rachael Bale

A partir de 31 de dezembro, o comércio de marfim legal sancionado pelo governo chinês terminou. Todas as fábricas de escultura de marfim e retalhistas licenciados irão ser encerrados, de acordo com um anúncio histórico de 2015 do presidente chinês Xi Jinping e Barack Obama, presidente dos EUA na altura.

A China e os EUA acordaram em proibições de marfim "quase completas", facto que proíbe a compra e venda de marfim, exceto uma quantidade limitada de antiguidades e mais alguns, poucos, artigos. A proibição de marfim por parte dos EUA entrou em vigor em junho de 2016. A proibição por parte da China entrou em vigor a 31 de dezembro de 2017.

Acredita-se que a China seja o maior consumidor mundial de marfim, de origem legal e ilegal, sendo que o país desempenha um papel importante no massacre anual de cerca de 30 mil elefantes africanos às mãos de caçadores furtivos. O marfim é procurado pela sua escultura complexa, bugigangas, pauzinhos chineses e outros artigos..

“A proibição do governo chinês do seu comércio doméstico de marfim envia uma mensagem ao público geral chinês de que a vida dos elefantes é mais importante que a cultura de escultura de marfim", afirmou Gao Yufang, um estudante de doutoramento de biologia de conservação e antropologia cultural na Universidade de Yale e um National Geographic Explorer, via e-mail. "Trata-se de um avanço significativo."

Uma proibição internacional sobre o comércio de marfim entrou em vigor em 1990, mas a China continuou a permitir e, até, a promover a venda de marfim dentro das suas fronteiras. A fonte de abastecimento legal do país tinha origem sobretudo numa venda ocasional de marfim por parte de alguns países africanos em 2008. Mas o seu mercado doméstico legal deu a oportunidade a traficantes para esconderem marfim obtido de forma ilegal no fornecimento legal ao país. Muitos ambientalistas afirmam que esta venda ocasional ajudou a fomentar um aumento drástico na caça furtiva de elefantes.

"É difícil prever até que ponto a proibição por parte da China irá conseguir reduzir a caça furtiva de elefantes em África, pois existem muitos fatores em jogo", afirmou Yufang. "Mas verificou-se que na China, os preços dos produtos de marfim caíram consideravelmente e o mercado já está a diminuir."

Os peritos afirmam que a aplicação da proibição e a educação sobre o assunto são fundamentais para tornar a proibição bem-sucedida. "A aplicação da lei na China tende a ser prejudicada por uma má coordenação entre diferentes agências, autorizações e responsabilidades pouco claras e uma falta de pessoal qualificado no terreno", afirmou Yufang.

Apesar de muitos chineses se estarem a tornar cada vez mais conscientes sobre a matéria e sensibilizados para questões de conservação e vida selvagem, a retirada do marfim como  o derradeiro símbolo de estatuto tem sido difícil de ultrapassar. Tal como a National Geographic já noticiou no início de 2017:

Em chinês, marfim diz-se xiangya, que significa "dente de elefante", o que levou muitos a pensar erradamente que o marfim pode ser retirado de um elefante sem maltratar o mesmo. A ONG "International Fund for Animal Welfare" fez uma sondagem em 2007 na China e descobriu que 70% dos inquiridos não sabiam que era necessário matar um elefante para obter o seu marfim.

A Administração Pública Florestal da China, a agência encarregue da aplicação da nova proibição, está a iniciar uma nova campanha para garantir que os cidadãos chineses estão a par da lei. Do trabalho em parceria com o Natural Resources Defense Council, Wildaid, China Wildlife Conservation Association e a SEE Foundation, uma ONG ambiental, resultará a criação de cartazes, vídeos e artigos divulgados pelos meios de comunicação tradicionais e redes sociais, informando as pessoas para a proteção dos elefantes em risco através do respeito da lei e do ato de "dizer não ao marfim".

Em março, a primeira vaga de fábricas e retalhistas encerrou. No entanto, um recente inquérito realizado pela WWF e a TRAFFIC, organização de monitorização do tráfico de vida selvagem, descobriu que apenas 19% das pessoas inquiridas conhecia a proibição. Mas após terem sido informados da mesma, 86% dos inquiridos afirmou que apoiava a proibição.

"Ao encerrar os seus mercados de marfim, a China está a demonstrar o seu compromisso para extinguir o seu papel na epidemia da caça furtiva que está a assolar os elefantes de África", afirmou Ginette Hemley, vice-presidente sénior da WWF e membro do conselho da TRAFFIC, num comunicado de imprensa. "É fundamental que os esforços para implementar a proibição do comércio de marfim sejam acompanhados de esforços para mudar o comportamento dos consumidores, de forma a reduzir a procura."

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