China Termina com o seu Comércio Ilegal de Marfim

Dois anos após um compromisso conjunto com os EUA para proibir o comércio doméstico de marfim, todas as fábricas de escultura licenciadas pelo governo e retalhistas de marfim chineses estão prestes a encerrar.

Publicado 9/01/2018, 12:55
Comércio de Marfim na China
A China é um dos maiores consumidores mundiais de produtos de marfim. Até finais de 2017, o país terá imposto uma proibição quase total da compra e venda de marfim.
Fotografia de Cameron Spencer, Getty Images

A partir de 31 de dezembro, o comércio de marfim legal sancionado pelo governo chinês terminou. Todas as fábricas de escultura de marfim e retalhistas licenciados irão ser encerrados, de acordo com um anúncio histórico de 2015 do presidente chinês Xi Jinping e Barack Obama, presidente dos EUA na altura.

A China e os EUA acordaram em proibições de marfim "quase completas", facto que proíbe a compra e venda de marfim, exceto uma quantidade limitada de antiguidades e mais alguns, poucos, artigos. A proibição de marfim por parte dos EUA entrou em vigor em junho de 2016. A proibição por parte da China entrou em vigor a 31 de dezembro de 2017.

Acredita-se que a China seja o maior consumidor mundial de marfim, de origem legal e ilegal, sendo que o país desempenha um papel importante no massacre anual de cerca de 30 mil elefantes africanos às mãos de caçadores furtivos. O marfim é procurado pela sua escultura complexa, bugigangas, pauzinhos chineses e outros artigos..

Um trabalhador em Guangzhou em 2009 faz esculturas em marfim de uma divindade chinesa. Oficinas de escultura licenciadas pelo governo chinês, além dos retalhistas licenciados, encerraram no fim de 2017.
Fotografia de Tyrone Siu, Reuters

“A proibição do governo chinês do seu comércio doméstico de marfim envia uma mensagem ao público geral chinês de que a vida dos elefantes é mais importante que a cultura de escultura de marfim", afirmou Gao Yufang, um estudante de doutoramento de biologia de conservação e antropologia cultural na Universidade de Yale e um National Geographic Explorer, via e-mail. "Trata-se de um avanço significativo."

Uma proibição internacional sobre o comércio de marfim entrou em vigor em 1990, mas a China continuou a permitir e, até, a promover a venda de marfim dentro das suas fronteiras. A fonte de abastecimento legal do país tinha origem sobretudo numa venda ocasional de marfim por parte de alguns países africanos em 2008. Mas o seu mercado doméstico legal deu a oportunidade a traficantes para esconderem marfim obtido de forma ilegal no fornecimento legal ao país. Muitos ambientalistas afirmam que esta venda ocasional ajudou a fomentar um aumento drástico na caça furtiva de elefantes.

Um visitante tira uma fotografia de uma presa de marfim de elefante esculpida numa exposição em 2009. O governo chinês costumava promover a escultura de marfim como parte integrante do seu património cultural, mas a nova proibição de venda de marfim para proteger os elefantes reflete a mudança de prioridades, afirmam os ambientalistas.
Fotografia de Tyrone Siu, Reuters

"É difícil prever até que ponto a proibição por parte da China irá conseguir reduzir a caça furtiva de elefantes em África, pois existem muitos fatores em jogo", afirmou Yufang. "Mas verificou-se que na China, os preços dos produtos de marfim caíram consideravelmente e o mercado já está a diminuir."

Os peritos afirmam que a aplicação da proibição e a educação sobre o assunto são fundamentais para tornar a proibição bem-sucedida. "A aplicação da lei na China tende a ser prejudicada por uma má coordenação entre diferentes agências, autorizações e responsabilidades pouco claras e uma falta de pessoal qualificado no terreno", afirmou Yufang.

Apesar de muitos chineses se estarem a tornar cada vez mais conscientes sobre a matéria e sensibilizados para questões de conservação e vida selvagem, a retirada do marfim como  o derradeiro símbolo de estatuto tem sido difícil de ultrapassar. Tal como a National Geographic já noticiou no início de 2017:

Em chinês, marfim diz-se xiangya, que significa "dente de elefante", o que levou muitos a pensar erradamente que o marfim pode ser retirado de um elefante sem maltratar o mesmo. A ONG "International Fund for Animal Welfare" fez uma sondagem em 2007 na China e descobriu que 70% dos inquiridos não sabiam que era necessário matar um elefante para obter o seu marfim.

Além da ameaça colocada pela caça furtiva, "promover uma coexistência saudável entre os povos locais e os elefantes africanos" é o maior desafio na opinião do ambientalista Gao Yufang.
Fotografia de Carl de Souza, AFP, Getty Images

A Administração Pública Florestal da China, a agência encarregue da aplicação da nova proibição, está a iniciar uma nova campanha para garantir que os cidadãos chineses estão a par da lei. Do trabalho em parceria com o Natural Resources Defense Council, Wildaid, China Wildlife Conservation Association e a SEE Foundation, uma ONG ambiental, resultará a criação de cartazes, vídeos e artigos divulgados pelos meios de comunicação tradicionais e redes sociais, informando as pessoas para a proteção dos elefantes em risco através do respeito da lei e do ato de "dizer não ao marfim".

Em março, a primeira vaga de fábricas e retalhistas encerrou. No entanto, um recente inquérito realizado pela WWF e a TRAFFIC, organização de monitorização do tráfico de vida selvagem, descobriu que apenas 19% das pessoas inquiridas conhecia a proibição. Mas após terem sido informados da mesma, 86% dos inquiridos afirmou que apoiava a proibição.

"Ao encerrar os seus mercados de marfim, a China está a demonstrar o seu compromisso para extinguir o seu papel na epidemia da caça furtiva que está a assolar os elefantes de África", afirmou Ginette Hemley, vice-presidente sénior da WWF e membro do conselho da TRAFFIC, num comunicado de imprensa. "É fundamental que os esforços para implementar a proibição do comércio de marfim sejam acompanhados de esforços para mudar o comportamento dos consumidores, de forma a reduzir a procura."

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