Animais

Na Flórida, ‘Choveram Iguanas’. Será que Estes Répteis Invasivos se Conseguirão Adaptar?

Muitos répteis provavelmente morreram nos dias subsequentes à frente fria que atravessa a Flórida, mas é pouco provável que seja a meteorologia a colocar em perigo a continuidade da espécie, a longo prazo. Quarta-feira, 17 Janeiro

Por Sarah Gibbens

Ao mesmo tempo que a região Norte dos Estados Unidos enfrentou grandes nevões, na Flórida choveram iguanas.

Os residentes da Flórida têm partilhado fotografias dos répteis de barriga para cima em quintais e nas beiras das estradas.

O efeito é provocado pela temperatura anormalmente quente que atinge a costa leste dos Estados Unidos. E as iguanas-verdes — uma espécie invasiva acostumada a climas quentes tropicais — estão a ter dificuldades em lidar com o frio.

Nem todas as iguanas do estado da Flórida que vemos deitadas no chão estão mortas. De facto, muitas delas estão num limbo gelado, e algumas têm voltado à vida quando os seus corpos aquecem. Quando as temperaturas descem até aos 10 ºC ou aos 5 ºC, o seu sangue começa a abrandar e entram num estado letárgico semelhante a um sono profundo. É de assinalar que as iguanas se podem tornar perigosas para as pessoas que as tentem apanhar porque se podem tornar defensivas quando se voltam a conseguir mexer.

A razão que leva estas iguanas a terem dificuldade em lidar com o tempo frio é simples: os seus corpos répteis não estão adaptados a estas temperaturas.

A Flórida alberga um grande número de espécies invasivas, desde macacos a pitons, e as iguanas são uma das muitas espécies que se instalou aqui.

O seu habitat nativo cobre uma área que vai desde o Sul do México até à Floresta Tropical Brasileira, onde passaram a maior parte da sua existência, empoleirados nas copas das árvores. Só nos anos 60 do século passado é que estes lagartos gigantes — alguns crescem até aos 1,8 metros — foram trazidos para a Flórida. Desde então, o número de indivíduos desta população aumentou muito.

COMO O FRIO AFETA OS ANIMAIS

Uma das razões que fez com que as iguanas sobrevivessem tão bem na Flórida foi a meteorologia do estado, onde, de forma geral, o tempo é quente e húmido — mas quando o frio ataca, as iguanas caem.

"Com a descida das temperaturas, desce também o seu ritmo metabólico”, explica Coleman Sheehy, um herpetologista do Museu de História Natural da Universidade da Flórida. Ele explica-nos que as iguanas são endotérmicas, o que significa que a sua temperatura corporal depende da temperatura exterior, o seu sangue arrefece significativamente em temperaturas mais frias.

Se forem expostos a temperaturas baixas por tempo suficiente, um dia ou dois, dependendo do tamanho e idade da iguana, eles acabarão por sucumbir.

"Estão adaptados para sobreviver a temperaturas quentes. Tem poucas caraterísticas adaptativas para sobreviver a temperaturas frias”, afirma Sheehy.

Outras espécies invasivas da Flórida, como as osgas, as pitons-birmanesas, os Anolis sagrei, e as relas-cubanas também enfrentam o mesmo problema durante estas frentes frias. 

Contudo, os répteis nativos têm pouco a temer. Os répteis e os anfíbios das regiões que têm tempo frio, têm adaptações fisiológicas e comportamentais para serem capazes de lidar com o mesmo.

Um exemplo extremo do que descrevemos é a rã-da-floresta que vive no Alasca. Durante os meses mais frios do ano, o líquido que rodeia as suas células forma cristais de gelo, e congela 60% do seu corpo. Um estudo de 2014 concluiu que havia um aumento nos seus níveis de glucose e que o seu coração parava durante este período, mas, assim que chega a primavera, eles descongelam e saltam de novo para a vida.

Os répteis nativos da Flórida têm várias adaptações comportamentais para conseguir lidar com o tempo frio.

"Quando as temperaturas frias se aproximam, eles já sabem que têm de se esconder debaixo do chão”, afirma Sheehy.

MATAR OS INVASORES?

E se nos parece que as iguanas e as outras espécies invasivas da Flórida estão a sofrer um abate massivo com esta onda de frio, é improvável que os números das populações sofram diminuições acentuadas a longo prazo. Alguns destes animais podem até aprender a adaptar-se.

Depois de a Flórida ter experienciado um bloco meteorológico especialmente frio em 2010, o número de indivíduos da população das pitons-birmanesas pareceu baixar, mas um estudo de 2012, conduzido pelo United States Fish and Wildlife Service, concluiu que a espécie é rápida a recuperar.

Sheehy espera que o mesmo aconteça no caso das iguanas.

"Estas populações poder-se-iam adaptar ao longo do tempo. Poderiam tornar-se mais resistentes ao frio e habitar outras zonas”, afirma acerca da espécie invasora da Flórida. "Vamos ver o que acontece."

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