Animais

Será que Esta Baleia Salvou Uma Mergulhadora?

Um vídeo mostra o que uma bióloga considera um ato de altruísmo, enquanto outros permanecem céticos. Terça-feira, 23 Janeiro

Por Sarah Gibbens

A bióloga Nan Hauser investiga e mergulha com baleias há 28 anos. É presidente e diretora do Center for Cetacean Research and Conservation, uma entidade que estuda exaustivamente estes animais, desde os seus hábitos alimentares ao número de indivíduos em cada população e os perigos que enfrentam.

Contudo, durante uma viagem às Ilhas Cook, no sul do Pacífico, Hauser afirma ter testemunhado algo que nunca tinha visto.

Uma baleia-corcunda, um mamífero capaz de chegar a pesar 40 toneladas e atingir os 18 metros de comprimento, nadou em direção a Hauser. Durante 10 minutos, a baleia empurrou gentilmente Hauser com a sua boca fechada, escondeu-a debaixo da sua barbatana peitoral, e até empurrou mergulhadora para fora de água com as suas costas.

Naquele momento, Hauser estava assustada. Não sabia quais eram as intenções da baleia, nem como deveria reagir.

"Estava preparada para perder a vida" confessa-nos. "Pensei que me ia atacar e esmagar-me os ossos.”

Além da investigação, Hauser explicou-nos que o que a levou às Ilhas Cook foi um filme sobre natureza em que estava a trabalhar, por isso, na altura em que se depararam com a baleia, tanto Hauser como o mergulhador que a acompanhava estavam munidos de câmaras de filmar. Filmado na primeira pessoa, o vídeo que Hauser capturou mostra-nos uma baleia que a empurra persistentemente. É possível avistar uma segunda baleia a nadar atrás da primeira.

Quando finalmente conseguiu sair da água, arranhada e com nódoas negras causadas pelas investidas da baleia, do interior do seu barco Hauser viu uma terceira cauda a abanar na água.

“Tenho a certeza de que era um tubarão-tigre”, disse-nos.

Agora, depois de ver e rever as filmagens, e de refletir sobre toda aquela experiência emocionante, Hauser acredita a baleia que a expulsou das águas estava a praticar um ato de extraordinário altruísmo.

"Talvez o tubarão não me quisesse atacar", diz, "mas, ainda assim, a baleia tentou salvar-me a vida."

UMA HISTÓRIA DE INTERAÇÕES

A versão de Hauser não corresponde à primeira vez que os cientistas se interrogaram se as baleias-corcundas são capazes de agir altruisticamente. Um estudo, datado de 2016, e publicado na revista Marine Mammal Science analisou 115 casos ao longo dos últimos 62 anos em que baleias-corcundas se infiltraram em grupos de orcas enquanto estas caçavam.

Nadar em grupo foi a estratégia que as baleias-corcundas encontraram para protegerem as suas crias dos predadores. No entanto, também há registos de baleias-corcundas a terem o mesmo comportamento para proteger outras espécies de baleias, focas e leões-marinhos.

No supracitado estudo, concluiu-se que “A hipótese de um altruísmo interespecífico, mesmo que não seja intencional, não deve ser descartada.” Num artigo publicado na National Geographic em 2016 percebemos que a comunidade científica apresenta várias teorias para o facto de as baleias terem estes comportamentos. Podem estar a proteger as baleias em estágios da vida mais frágeis (crias e baleias idosas); podem estar a reagir a memórias de ataques que elas próprias sofreram; podem estar a reagir a um pedido de socorro — mesmo que proveniente de um elemento de outra espécie — ou, então, é mesmo altruísmo.

MAS SERÁ MESMO ALTRUÍSMO?

Martin Biuw, do Instituto de Investigação Marinha, na Noruega, mostra-se cético em relação à tese de que a baleia do vídeo de Hauser agiu altruisticamente. Hauser especulou que se tratava de uma baleia macho, mas Biuw está convencido do contrário.

“Se for esse o caso, é possível que a baleia estivesse mesmo a tentar proteger um humano (ou um indivíduo de qualquer outra espécie) se, por exemplo, esta tivesse perdido uma cria recentemente”, afirma Biuw.

Biuw explicou-nos que alterações hormonais no organismo da baleia podem ter estado na origem deste comportamento.

"De qualquer modo, mesmo que, na altura, a situação sugerisse algum tipo de altruísmo por parte da baleia, não vejo quaisquer indícios disso no vídeo”, defende Biuw.

Com base no vídeo, Jim Darling, um investigador do Whale Trust Maui, que estuda as baleias-corcunda, também afirma não ter visto nenhuns sinais óbvios de que a baleia estava a tentar proteger Hauser do tubarão. No entanto, não exclui essa hipótese. Darling, sublinhou que é relativamente comum ver-se baleias a interagir de forma amistosa com barcos e mergulhadores, mas não podemos concluir, não sem mais informações disponíveis, que neste caso a baleia agiu conscientemente com o intuito de salvar Hauser de um possível ataque, ou se teria ou não agido da mesma maneira caso não houvesse um tubarão por perto.

Reagindo às opiniões mais céticas, Hauser afirma, “Sou uma cientista, e se alguém me contasse esta história também não acreditaria.” No entanto, tendo-a vivido na primeira pessoa, não lhe restam dúvidas quanto às intenções do animal.

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