Animais

Será que Já Nascemos com Medo de Aranhas e Serpentes?

Mostrar imagens destes animais a crianças produziu resultados surpreendentes acerca destas fobias tão comuns. Quarta-feira, 3 Janeiro

Por Sarah Gibbens

A maioria das pessoas contorce-se com o simples pensamento de uma aranha pendurada sobre as suas cabeças ou de uma serpente a deslizar sob os seus pés. Na verdade, os estudos mostram que pelo menos 5% da população tem uma forte aversão a aranhas e serpentes.

Mas será que este é um medo que apreendemos, ou será algo que já nasce connosco?

Um grupo de investigadores do Instituto Max Planck, na Alemanha, e da Universidade de Uppsala, na Suécia, decidiu dar respostas a estas questões, testando um segmento da população cuja probabilidade de mostrar medo é muito reduzida: os bebés.

Foram testados 48 bebés de seis meses no instituto, para analisar as suas reações a imagens que os investigadores previam que pudessem ser assustadoras. Enquanto os bebés estavam sentados ao colo dos seus pais, eram-lhes mostradas imagens de aranhas e serpentes sobre um fundo branco durante cinco segundos. Para evitar que os pais, ainda que inadvertidamente, influenciassem as reações dos seus filhos, foram-lhes fornecidos óculos escuros opacos durante a experiência, que evitavam que eles vissem as imagens mostradas.

Quando os bebés foram confrontados com imagens de serpentes e aranhas, reagiram, invariavelmente, com a dilatação das pupilas, coisa que não aconteceu quando lhes foram mostradas imagens de controlo de flores e peixes. Esta descoberta, publicada na revista científica Frontiers in Psychology, parece indicar que o medo destas criaturas poderá ser inato.

A dilatação das pupilas está associada à atividade do sistema noradrenérgico no cérebro, o mesmo sistema que processa o stress. A medição minuciosa de alterações na dimensão das pupilas tem sido usada em diversos estudos para determinar uma grande variedade de tipos de stress mental e emocional em adultos.

"Há, sem dúvida, uma resposta cerebral ao stress", diz Stefanie Hoehl, a investigadora principal. Ela refere que é difícil caraterizar a natureza exata do tipo de stress que estas jovens crianças experienciaram, mas que as pupilas dilatadas evidenciam a intensificação do estado de alerta e dos processos mentais. Mais do que indicar medo em específico, este estudo afirma que os resultados mostram uma concentração muito acentuada.

"O presente estudo, pioneiro neste campo, parece indicar que o medo de serpentes ou de aranhas é inato", diz David Rakison, professor de psicologia na Universidade Carnegie Mellon, que estuda as primeiras fases do desenvolvimento infantil.

"As crianças possuem um mecanismo de medo especializado, que faz com que estejam 'preparadas' para aprender rapidamente que as serpentes e as aranhas estão associadas a uma resposta emocional ou comportamental específica", salienta.

Para explicar esta concentração inata, Hoehl indica que a evolução humana coincidiu com a evolução de serpentes e aranhas historicamente perigosas.

HISTORIAL DO MEDO DE ARANHAS E SERPENTES

"É um período de coevolução muito longo — quase 40 a 60 milhões de anos, em que os antepassados humanos coexistiram e interagiram com aranhas e serpentes", prossegue Hoehl. A mordedura venenosa de uma destas criaturas, escondida na vegetação, poderá ter deixado alguns dos nossos antepassados incapacitados, ou mesmo mortos. Assim, e tal como é afirmado pelo estudo de Hoehl, o medo inato destes animais poderá servir como mecanismo de defesa.

Esta afirmação é corroborada por outros estudos em adultos e crianças, que também parecem indicar um medo evolutivo inato de aranhas ou serpentes.

Em 2001, um estudo publicado no Journal of Experimental Psychology pedia a um grupo de estudantes universitários que identificassem fotografias que retratassem potenciais fontes de medo. De forma consistente, os estudantes identificaram as serpentes e aranhas como sendo mais perigosas que os mamíferos ou fungos retratados nas outras imagens.

"As serpentes foram uma fonte de ameaça recorrente ao longo de toda a evolução dos mamíferos. Os indivíduos mais capazes de identificar e manifestar respostas de defesa contra as serpentes produziram mais descendência do que aqueles com sistemas de defesa menos eficientes", disse Arne Öhman, coautor do estudo, à National Geographic na época.

Um estudo, publicado em 2008 na revista científica Cognition, bem como um outro de 2014 publicado na revista Evolution and Human Behavior, também evidenciavam a ocorrência de um medo inato de aranhas e serpentes.

AMANTES DE SERPENTES E ESTUSIASTAS DE ARANHAS

Se nascemos com uma sensação de stress inata sempre que nos deparamos com aranhas ou serpentes, porque é que algumas pessoas têm um medo debilitante destas criaturas, enquanto outras as têm como animais de estimação?

Nem todos os estudos concluíram que o medo de aranhas e serpentes é inato. Um artigo científico publicado na revista Current Directions in Psychological Science descobriu que crianças de sete anos reparavam nas imagens de serpentes com maior rapidez, mas não evidenciavam quaisquer sinais de medo. Isto parecia indicar que as crianças podem não ter um medo inato destas criaturas, mas conseguem identificá-las com maior prontidão.

A aprendizagem social poderá, em parte, ser responsável por esta discrepância, diz Hoehl. As crianças que participaram no estudo foram propositadamente limitadas por volta dos seis meses de idade, antes de terem aprendido a gatinhar ou a andar. À medida que a mobilidade dos bebés aumenta, eles começam a aperceber-se do meio que os rodeia. Um estudo realizado no Laboratório de Ação Infantil da Universidade de Nova Iorque concluiu que os bebés começam a aprender a lidar com alturas, assim que estão familiarizados com o seu meio, e que desenvolvem uma melhor perceção de profundidade.

O reforço parental tem um papel crucial no desenvolvimento do medo, afirma Hoehl. Ainda que um bebé que seja mordido por uma serpente ou uma aranha possa fazer uma forte associação entre estes animais e o perigo, a forma como os pais reagem a estas criaturas também irá influenciar a criança.

Nos próximos estudos, Hoehl tentará testar a influência do temperamento sobre fobias a aranhas e serpentes, e se algumas partes específicas do corpo do animal desencadeiam uma resposta mais marcada.

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