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Talvez Os Ratos Não Sejam Os Responsáveis Pela Peste Negra

Um novo estudo provocador sugere que as pessoas eram infetadas com as pragas medievais por pulgas e piolhos. Terça-feira, 23 Janeiro

Por Michael Greshko

Os ratos são há muito responsabilizados por espalhar os parasitas que transmitiam a peste negra, que vitimou milhões de pessoas por toda a Europa e pela Ásia. Mas um estudo recente provocador emulou estes surtos antigos e sugere que os roedores malignos podem não ter sido afinal os culpados.

O estudo, divulgado na segunda-feira passada na publicação PNAS, aponta o dedo a parasitas humanos — tais como pulgas e piolhos-do-corpo — pela principal propagação da bactéria da peste durante a Segunda Pandemia, uma série de surtos devastadores que ocorreram entre o século XIV e os primeiros anos do século XIX.

Estes surtos incluem a infame Peste Negra, que aniquilou um terço da população europeia em meados do século XIV, e que resultou na morte de dezenas de milhões de pessoas.

“A peste transformou realmente a história da humanidade, e é importante perceber como se estava a espalhar e como se disseminou tão rapidamente”, declara a principal autora do estudo Katharine Dean, uma bolsista de doutoramento do Centro de Síntese Ecológica e Evolutiva da Universidade de Oslo.

DENTADA MORTÍFERA

Quando as pulgas infetavam os humanos com a bactéria Yersinia pestis, através de uma mordidela, a bactéria conseguia entrar na corrente sanguínea e congregar-se nos nódulos linfáticos situados por todo o corpo. A infeção causa um inchaço dos nódulos linfáticos transformando-os em “bubões” sinistros, daí o nome de peste bubónica.

Nos casos de peste que ocorreram desde o final do século XIX — incluindo um surto em Madagáscar em 2017 — os ratos e outros roedores foram também responsáveis pela disseminação da doença. Se a Y. pestis infectasse os ratos, a bactéria também passaria para as pulgas que bebessem o sangue dos roedores. Quando um rato infetado com a peste morria os seus parasitas abandonavam o cadáver e podiam continuar a infetar animais humanos com a sua mordidela.

Muitos especialistas pensam que os ratos foram responsáveis pela propagação da peste, durante a Segunda Pandemia, porque existem provas genéticas que confirmam a presença da bactéria Y. Pestis nas vítimas da praga medieval. E também por causa do papel que os ratos desempenham na disseminação das pragas atuais.

Mas alguns historiadores contestam e afirmam que a Peste Negra se pode ter espalhado de outra forma. Porque a Peste Negra devastou a Europa de forma mais rápida do que qualquer outro surto epidémico moderno. Além disso, “elevadas mortandades das populações de ratos” precedem alguns surtos mais modernos, mas os registos que dizem respeito à praga medieval não mencionam mortes massivas de ratos.

“Eram os geneticistas e os historiadores modernos que estavam a colocar os ratos nessa posição [de disseminadores da Peste] e a filtrar a informação produzindo as provas”, explica Samuel Cohn, um historiador medieval da Universidade de Glasgow, um dos críticos da teoria dos ratos e pulgas.

PANDEMIA VIRTUAL

Como alternativa, alguns estudiosos têm andado às voltas com a ideia de que foram as pulgas que espalharam a Peste Negra pelos humanos. Se as pulgas e os piolhos tivessem contraído a Peste ao morder um humano infetado, potencialmente poderiam saltar para outra pessoa que estivesse nas proximidades e transmitir a doença.

Matematicamente, os padrões de propagação da doença são diferentes para as duas formas de transmissão em hipótese: entre ratos e pulgas ou através de parasitas humanos. Para as testar, a equipa de Dean modelou as duas situações com equações que simulavam a ascensão e queda de um surto, com base na forma como os ratos, as pulgas e os piolhos-do-corpo se comportariam e em como espalhariam a Peste.

“Trata-se de fazer contabilidade — de analisar a forma como as pessoas se movem [na simulação]”, afirma o co-autor do estudo Boris Valentijn Schmid, um biólogo computacional da Universidade de Oslo e o orientador da tese de doutoramento de Dean.

Depois de executar várias vezes os seus modelos, Dean e Schmid avaliaram estatisticamente que modelos eram compatíveis com os padrões de mortandade em nove surtos distintos da Segunda Pandemia da praga europeia. Surpreendentemente, descobriram que em sete das nove cidades analisadas, o modelo dos parasitas humanos correspondia melhor aos registos de mortandade do que o modelo de contaminação com origem nos ratos e pulgas.

“É um trabalho extraordinário”, afirma Charles “Chick” Macal, um cientista de sistemas do Laboratório Nacional Argonne que faz modelos da propagação de doenças, mas que não esteve envolvido neste estudo. “Chegamos à questão de base, que é: qual a razão da ocorrência destes surtos?”

Dean e Schmid dizem haver ainda melhorias a fazer nos seus modelos, com a introdução de mais informação experimental. Eles também reconhecem que provavelmente o seu estudo irá ser controverso entre os académicos especialistas na Peste Negra, porque alguns defendem apaixonadamente a teoria de que foram os ratos os responsáveis por causar os surtos medievais.

“O debate acerca da Peste é acérrimo”, explica Dean, que se vê a si mesma e a Schmid mais como observadores objetivos deste caso. “Não pendemos para nenhum dos lados”.

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