Inédito: Encontrados Parasitas no Olho de Uma Mulher

A infeção de uma mulher do Oregon constitui o primeiro caso registado de uma espécie de parasita ocular, normalmente encontrada no gado, detetada em seres humanos.

Sunday, February 25, 2018,
Por Erika Engelhaupt
Parasita em olho humano
Uma fêmea adulta do nematode Thelazia gulosa, imediatamente após ter sido removida do olho da paciente para análise.

Abby Beckley estava a pescar salmão no Alasca, quando sentiu qualquer coisa no seu olho esquerdo.

“Parecia quando temos uma pestana do olho”, recorda. Mas, muito que procurasse, a mulher de 26 anos não conseguia encontrar nenhum pelo — ou qualquer outra coisa — no olho. Mas a sensação não passava, e, após cerca de cinco dias, Beckley estava frustrada.

“Foi então que, uma manhã, ao acordar, decidi que, custe o que custar, ia tirar aquela coisa do olho, o que quer que ‘aquela coisa’ fosse”, conta. Beckley encheu-se de coragem, puxou a pálpebra para trás, apertou a pele inflamada do interior da pálpebra e deu-lhe um puxão.

Quando ela olhou para baixo, “tinha um verme no meu dedo”, diz.

Beckley é assim a primeira pessoa de que há registo a ser infetada por esta espécie de parasita ocular. Denominado Thelazia gulosa, este nematode parasitário é habitualmente encontrado nos olhos do gado — uma etapa normal do seu ciclo de vida a normal — mas nunca antes tinha sido detetado num ser humano.

Para mais, este é apenas o 11.º caso humano de parasitas oculares de qualquer espécie do género Thelazia a ser detetado em todos os Estados Unidos. Segundo um artigo publicado há dias na revista científica American Journal of Tropical Medicine and Hygiene, o último caso conhecido sucedeu há mais de 20 anos.

MOSTREM-SE

Beckley não sabia de nada disto enquanto olhava fixamente para o parasita que repousava sobre o seu dedo, no verão de 2016. A pequena e quase transparente criatura contorceu-se durante alguns segundos, e depois morreu. Beckley, que já tinha encontrado vermes semelhantes nos salmões, pensou que poderia, de alguma forma, ter transferido acidentalmente um desses parasitas para o seu olho.

“Eu limitava-me a arrancá-los, portanto, sabia que eram muitos”, recorda.

Beckley já tinha removido mais cinco parasitas do seu olho quando, finalmente, foi ao médico em Ketchikan, no Alasca. Os médicos que a observaram ficaram “verdadeiramente aterrados”, conta Beckley, mas não sabiam o que eram aqueles vermes, nem se seriam perigosos.

O parasita ocular Thelazia gulosa visto aqui sob a superfície interna da pálpebra da paciente.
Fotografia de Dr. John Hoyt

Preocupada com a proximidade destes bichinhos assustadores do seu cérebro, Beckley decidiu regressar a Portland, onde o pai do seu namorado, um médico, preparou uma equipa médica para a receber na Universidade de Saúde e Ciências do Oregon (OHSU, na sigla em inglês).

No hospital, “senti-me praticamente uma estrela”, humoriza Beckley. Os médicos e os estagiários reuniram-se, na esperança de ver o raro parasita ocular. Pareciam algo céticos de início, diz Beckley, tendo sugerido que aquilo que lhe parecia a ela um verme, podia ser apenas muco.

Mas Beckley insistia que tinha parasitas no olho: “Dizia para mim própria, Mostrem-se! Apareçam! Vocês têm de se mostrar!” diz. Durante cerca de meia hora, ela esteve rodeada de pessoal hospitalar, que olhava fixamente para o seu olho, aguardando qua algum parasita aparecesse.

“Nunca me vou esquecer de quando o médico e o estagiário o viram a contorcer-se no meu olho”, conta Beckley. “Um deles perdeu a cabeça e deu um salto de espanto, e só dizia, Meu deus! Eu vi-o! Acabei de o ver!”

Quanto a Beckley, “ela lidou com toda esta situação com uma elegância e postura extraordinárias, ela é muito forte”, diz Erin Bonura, a especialista em doenças infeciosas da OHSU que acompanhou o caso.

VERME MISTERIOSO

Os oftalmologistas conseguiram retirar um dos parasitas do olho de Beckley, apesar de o terem partido ao meio, tendo depois enviado ambas as metades para o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças norte-americano (CDC, na sigla em inglês).

Esse verme, e outros tantos removidos do olho de Beckley, chegaram às mãos de Richard Bradbury, responsável pelo Laboratório de Diagnóstico Parasitológico de Referência do CDC, a principal instituição norte-americana no que toca à identificação de parasitas raros. Só no último ano, foram aqui analisadas quase 6700 amostras misteriosas.

“Quando ninguém sabe do que se trata, acaba por vir parar às bancadas do nosso laboratório”, diz Bradbury.

“Todos estes parasitas são raros, e este em particular é extremamente raro”, diz o investigador acerca do verme ocular de Beckley. Bradbury teve de encontrar um artigo científico alemão de 1928, para finalmente conseguir identificar a espécie do parasita como Thelazia gulosa, o que faz dela a terceira espécie de Thelazia a ser encontrada num olho humano, em conjunto com duas outras, uma na Ásia e uma outra na Califórnia.

Estes parasitas são transportados por moscas-de-outono (Musca autumnalis), que se alimentam das lágrimas do gado, de cavalos e de cães; encontrando-se com frequência a esvoaçar em redor dos olhos dos animais. Se não nos deixarmos impressionar por vermes oculares e moscas que se alimentam de lágrimas, estes animais são um exemplo fascinante de sobrevivência de um parasita.

Em primeiro lugar, diz Bonura, os nematodes oculares não conseguem sobreviver sem as moscas-de-outono. As larvas do nematode só atingem a maturidade no interior do sistema digestivo e restantes órgãos da mosca, após o que se dirigem para a armadura bucal do inseto. Quando a mosca aterra num globo ocular e começa a sorver as lágrimas, as larvas, já na última etapa do seu desenvolvimento, saem através da probóscide da mosca e alojam-se no olho. É aí que as larvas irão completar a sua transformação em vermes adultos e produzir mais larvas, que, por sua vez, terão também de ser ingeridas por uma mosca-de-outono — ou enfrentar a morte.

Nos olhos de Beckley, “não havia maneira de os parasitas perpetuarem o seu ciclo de vida, de modo que acabaram todos por morrer”, afirma Bonura. Desconhece-se a forma exata como Beckley terá contraído esta infeção, mas Bonura suspeita que poderá ter acontecido durante a passagem por uma pastagem.

PODERÁ ACONTECER-LHE A SI?

Há boas notícias: estes parasitas não penetram no globo ocular. Em vez disso, alojam-se no tecido mole sob as pálpebras e em torno da cavidade ocular. Todavia, uma vez em contacto com o olho, há poucas opções de tratamento. Por vezes, recorre-se a fármacos antiparasitários para eliminar o nematode, mas estes podem piorar a inflamação.

No caso de Beckley, o melhor tratamento foi, ela própria, remover cuidadosamente os parasitas um a um. Ao longo de 20 dias, Beckley retirou 14 vermes do seu olho. Os médicos envolvidos neste caso concordam que estes parasitas oculares não constituem uma ameaça iminente à saúde pública.

“Não vale a pena entrar em pânico, não vamos começar a ser todos infetados por parasitas oculares”, afirma Bonura. Não só é extremamente raro que uma mosca-de-outono pouse no olho de um ser humano, como é ainda mais raro que ela o faça durante o tempo necessário para depositar as larvas do parasita. A melhor forma de prevenção, acrescenta, é um simples enxotar as moscas. E se uma acabar por nos pousar no olho, basta removê-la de imediato.

“Desde que faça aquilo que normalmente fazemos, não deverá ter qualquer problema”, conclui a médica.

Os parasitas de Beckley não a deixaram com quaisquer sequelas, e ela afirma que a sua visão está ótima. Um ano e meio depois, ela já nem sequer se recordava ao certo que olho é que os vermes tinham infetado.

E, para aqueles que se estão a perguntar, não, ela não guardou nenhum. “Não quis passar mais tempo próxima daquelas coisas, para além do estritamente necessário.”

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