O Que Um Peixe Que Caminha Nos Pode Ensinar Sobre a Evolução

Este pequeno peixe achatado, parecido com uma raia, tem muito em comum com os humanos.

Sunday, February 25, 2018,
Por Sarah Gibbens
Veja: Este Peixe "Caminha" Como os Nossos Antepassados Pré-Históricos
Veja: Este Peixe "Caminha" Como os Nossos Antepassados Pré-Históricos
9 de fevereiro de 2018 - Este animal é um elasmobrânquio, e pode-nos dar algumas pistas acerca da evolução do comportamento de locomoção terrestre. Sabemos que alguns peixes são capazes de se mover no fundo do oceano de uma forma similar a andar. Não sabíamos era quão similar... até agora. A maioria dos vertebrados terrestres caminham como método principal de locomoção. Os circuitos neurais essenciais para caminhar são diferentes dos que a maioria dos peixes usam para nadar. Para nadar, a locomoção é garantida por músculos em redor da espinha dorsal. Para andar, a locomoção tem como base um controlo preciso dos músculos dos membros. Análises genéticas recentes revelam que este elasmobrânquio possui os mesmos genes que os animais de quatro patas. Esta descoberta ajuda a desvendar as origens das criaturas terrestres.

Há quatrocentos milhões de anos, é possível que, até desenvolverem a capacidade de andar, as primeiras criaturas se tenham contorcido desajeitadamente antes de se conseguirem mover com confiança.

Esta característica ainda se pode observar nas Rajidae, uma espécie da família das raias que pouco evoluiu ao longo dos últimos 100 milhões de anos. Um novo estudo, publicado na revista Cell, identificou um peixe que possui as ligações neuronais necessárias para andar como os humanos.

Fisicamente, os Rajidae são semelhantes às raias, no entanto têm uma relação de parentesco mais próxima dos tubarões. Têm sensivelmente o tamanho de um prato de jantar, sendo também tão achatados como um prato, com uma longa cauda a abanar.

Ao contrário das outras espécies de peixes, que abanam a coluna para nadarem em frente, os Rajidae mantêm-na praticamente direita ao nadarem. Esta é uma característica comum em animais terrestres, que em vez de abanarem coluna, utilizam os músculos das pernas para se movimentarem.

Jeremy Dasen, um professor associado da NYU School of Medicine, Neuroscience Institute, contou-nos que há muito que se interessa pelos comportamentos motores, tais como a capacidade de caminhar. Já estudou cobras, um animal que descreve como um tetrápode que “perdeu os membros”.

"Deparei-me com um vídeo, no Youtube, que mostrava a forma como os Rajidae se movem”, conta-nos, explicando que percebeu de imediato que esta espécie poderia esconder dados importantíssimos para a investigação científica.

Enquanto observavam esta espécie a deslocar-se na água de uma forma atípica, os cientistas queriam saber mais a respeito do processo celular que “indicava” ao peixe para se deslocar daquela forma.

"O processo pelo qual uma célula fertilizada se transforma num organismo sempre foi alvo de grande fascínio da minha parte”, complementa Dasen.

O laboratório já havia testado o circuito neuronal dos ratos, tendo percebido que ao inativar certos genes os ratos passavam a coxear ou mesmo a ficar paralisados.

Para estudar os Rajidae, os investigadores isolaram os neurónios responsáveis pelo sistema motor e analisaram o ADN. Analisaram especificamente os embriões de Rajidae, pois é nesta fase que, tanto os Rajidae, como os humanos, desenvolvem os circuitos neuronais. 

Nas primeiras fases do desenvolvimento dos Rajidae, estes impulsionam-se servindo-se da coluna, mas assim que os ovos eclodem a coluna torna-se rígida e passam a usar as barbatanas para nadar.

"Tendo comparado os ratos com os Rajidae, ficámos a saber que tudo aquilo que é importante para a locomoção nos ratos também se verifica nos Rajidae”, afirma Dasen.

O estudo mostra-nos que tanto os Rajidae como os mamíferos apresentam os mesmos “interruptores genéticos”. Essencialmente, os genes que dizem aos Rajidae para mexerem as barbatanas são os mesmos que nos dizem para mexermos as nossas pernas e os nossos braços.

Esta descoberta, afirma Dasen, leva a que os investigadores acreditem que o código genético dos animais terrestres se tenha começado a desenvolver nos peixes, quando os animais ainda não haviam abandonado o oceano. Um grande avanço, que ajudou os cientistas a terem um conhecimento mais completo deste nosso antepassado pré-histórico.

Perceber melhor a genética fundamental da locomoção também terá implicações médicas no futuro.

"Se pensarmos em patologias como a esclerose lateral amiotrófica ou em lesões na espinal medula, ter um conhecimento básico de como estes circuitos neuronais funcionam será fundamental para podermos pensar em como reparar as partes danificadas”, explica.

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