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O Que Um Vídeo Impressionante de Uma Caçada de Orcas nos Diz Acerca da Sua Inteligência

Um vídeo de uma expedição da National Geographic à Antártida mostra um grupo de orcas a trabalhar em conjunto para “fazer uma onda” que arraste uma foca-caranguejeira de um bloco de gelo marinho para o oceano. Será isto um sinal da cultura das baleias?Thursday, February 1, 2018

Por Craig Welch


O trabalho de equipa é inquestionável: quatro orcas precipitam-se sobre uma foca encalhada num bloco de gelo marinho no oceano Antártico. No último instante, as baleias mergulham em simultâneo, criando uma onda que submerge o pedaço de gelo, arrastando a foca-caranguejeira — uma potencial refeição — para a água.

A foca escapa. Mas talvez não pela razão que possamos pensar.

As imagens incríveis, captadas no início de janeiro pela equipa Lindblad durante a Expedição Lindblad National Geographic, no canal Grandidier, na margem oeste da península Antártica, documentam em que medida as baleias assassinas — que são, tecnicamente, golfinhos — do Continente Branco trabalham em equipa quando caçam.

As baleias precipitam-se repetidamente e em sincronia, originando uma ondulação de dimensão suficiente para agitar a pequena plataforma de gelo e afundar a foca. Quando a foca, rapidamente, regressa à segurança do gelo, as baleias empurram a face inferior da placa, partindo-a em pedaços mais pequenos. Noutras ocasiões, chegaram a ser avistados grupos de orcas a virar plataformas de gelo ao contrário. Quando estas plataformas flutuantes são demasiado grandes, as baleias mergulham de forma a criar uma ondulação sob as placas, na esperança que se quebrem.

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“Já presenciei este comportamento inúmeras vezes”, diz Ari Friedlaender, especialista em baleias antárticas e explorador da National Geographic, que falava ao telefone de Punta Arenas, onde se preparava para embarcar num avião com destino à Antártida, para mais uma temporada de investigação dos cetáceos. “As baleias estão coordenadas, há vocalizações, elas trabalham em concertação. É espantoso assistir a este comportamento de cooperação.”

Segundo Robert Pitman, especialista em orcas da National Oceanic and Atmospheric Administration (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica), que escreveu vários artigos científicos acerca deste comportamento, “Também é possível que um único animal conseguisse derrubar a foca. Mas funciona muito melhor quando se trabalha em conjunto.”

Este trabalho de equipa é sinal de aprendizagem e inteligência — e um comportamento completamente diferente do exibido por outros grupos de orcas, mesmo aqueles que habitam nas proximidades. Há quem chame a isto uma espécie de cultura.

EXPLORANDO A CULTURA DAS BALEIAS

Brian Skerry, um fotógrafo da National Geographic, passou vários anos a estudar e a fotografar baleias e golfinhos, encontrando-se atualmente a trabalhar num projeto plurianual, que pretende explorar e documentar a cultura das baleias.

Não há nenhuma definição clara e geralmente aceite de cultura, mas a maioria dos cientistas concorda que a cultura inclui a capacidade de uma comunidade para criar e partilhar comportamentos, transmitindo-os de geração em geração. Os antropólogos e zoólogos dividem-se em considerar se as espécies não humanas possuem a capacidade para realmente experienciar a cultura, mas os cetáceos — bem como os primatas — incluem muitas espécies, como é o caso das orcas, que têm mantido o debate aceso.

“As orcas são a maior e, possivelmente, mais inteligente espécie de golfinhos”, afirma Skerry. E os golfinhos contam-se entre os animais mais sofisticados no que diz respeito ao desenvolvimento de estratégias de alimentação únicas, consoante a sua geografia.

Por exemplo, para um artigo de capa da National Geographic acerca da inteligência dos golfinhos de 2015, Skerry fotografou inúmeras espécies a alimentarem-se. Nas Baamas, ao largo de Bimini, os roazes recorriam à ecolocalização para encontrar peixes escondidos na areia do fundo do mar, posicionando-se numa posição vertical e usando os seus focinhos — denominados rostros — para desenterrar a sua refeição. Por sua vez, na Baía da Flórida, não muito longe dali, a mesma espécie caça de forma completamente diferente, agitando o lodo até levantar uma nuvem que cerca (envolve?) as tainhas. Quando os peixes fogem das águas turvas, um outro grupo de golfinhos embosca-os.

“É uma aprendizagem geracional”, explica Skerry. Estes comportamentos são ensinados e aprendidos pois são estratégias que funcionam em determinado local.

As baleias assassinas exibem comportamentos semelhantes. Na Patagónia, as orcas precipitam-se costa adentro, capturando crias de foca que se encontram na praia, um comportamento que elas aprenderam com outros membros da sua família.

“Isto é muito característico destas sociedades matrilineares”, Skerry acrescenta. Ele tem uma fotografia tirada na Argentina de uma mãe orca a atirar uma cria de foca arctocefalina pelos ares. Num dos cantos da imagem, pode-se ver uma cria de orca. “É isto que acontece na Antártida. Este animais incrivelmente inteligentes estão a aprender uns com os outros.”

A SINGULARIDADE DAS FAZEDORAS DE ONDAS

Na Antártida, algumas orcas alimentam-se maioritariamente de peixes e pinguins. Outras caçam sobretudos baleias-anãs. E depois há as orcas “fazedoras de ondas”. Todos os três tipos são geneticamente distintos, não se cruzando entre si, e podendo, inclusivamente, tratar-se de três espécies diferentes.

Não se sabe ao certo porque é que as suas estratégias de alimentação são tão diferentes. Mas nenhuma delas é tão enérgica como a alimentação das fazedoras de ondas.

Este comportamento foi oficialmente identificado em 1981, quando sete baleias foram avistadas a nadar diretamente sobre uma plataforma de gelo e a afundar uma foca. Porém, não foi observado novamente até 2008. Foi então, em 2009, que Pitman e os seus colaboradores assistiram ao comportamento 22 vezes em 12 dias, parecendo indicar se tratava de um fenómeno disseminado.

Quando as orcas caçam, começam por erguer o rostro em direção ao céu, posicionando-se na vertical e fazendo “spyhopping”, para tentar identificar as espécies de foca que se encontram no gelo. Assim que a foca entra no mar, as baleias afogam-na em vez de a morderem, possivelmente, para tornar a alimentação mais fácil.

As orcas deslocam-se em grupos familiares, e os caçadores partilham todos o mesmo parentesco. Isto torna o trabalho de equipa mais simples — “Quando caçamos com um grupo com o qual partilhamos algum grau de parentesco, a comunicação é mais fácil”, diz Pitman. “E elas fá-lo-ão juntas durantes décadas.”

Pitman chegou a observar orcas a caçarem três focas no espaço de poucas horas. Durante o seu tempo de vida, as fêmeas do grupo poderão participar na captura de 10 000 focas, remata.

“SOCIEDADES SOFISTICADAS”

Skerry diz que o objetivo do seu trabalho é contribuir para que as pessoas comecem a ver a vida nos oceanos de forma diferente — há interações infinitamente mais complexas do que aquilo que poderíamos pensar.

“Não é um lugar cheio de criaturas desprovidas de inteligência e impiedosas”, prossegue. “Há sociedades complexas e sofisticadas nos oceanos, civilizações, com os seus próprios dialetos, linguagens, e estratégias parentais e de alimentação. E nós só vemos uma pequena porção disto.”

E, Skerry acrescenta, compreendemos ainda menos.

Como que a reforçar o seu argumento, Pitman diz que as orcas fazedoras de ondas se alimentam quase exclusivamente focas-de-weddell — não de focas-caranguejeiras. Estas baleias são muito boas a distinguir uma espécie da outra.

Mas não são perfeitas.

“Elas são muito exigentes relativamente àquilo que querem, e, por vezes, podem arrastar uma foca para dentro de água, aperceber-se que é a espécie errada e deixá-la partir em liberdade”, afirma Pitman.

Pode ser isso que aconteceu neste vídeo, diz. As orcas, perfeitamente adaptadas para ver dentro de água, terão tentando arrastar a foca para o oceano, para só então se aperceberem que não era a refeição que procuravam.

“Seria praticamente impossível uma foca escapar de uma situação destas”, diz Pitman. “O meu palpite é que as orcas se terão afastado e deixado o animal em paz. Elas poderão, efetivamente, tê-lo deixado escapar.”