Animais

A Sobrevivência dos Rinocerontes-Brancos-do-Norte Depende da Saúde do Último Macho da Espécie

Restam apenas três rinocerontes-branco-do-norte, e uma infeção galopante ameaça levar a melhor sobre o mais forte. Quinta-feira, 15 Março

Por Elaina Zachos

Na primavera de 2017, os tratadores do último macho de rinoceronte-branco-do-norte inscreveram-no numa aplicação digital de encontros para sensibilizarem o mundo para a questão da conservação das espécies (animais e vegetais). Mas agora, infelizmente, a saúde deste raríssimo rinoceronte está enfraquecida, estando a sua subespécie mais perto do que nunca da extinção.

Sudan, um macho de rinoceronte-branco-do-norte com 45 anos, padece de uma terrível infeção na perna direita traseira, que se desenvolveu no ano passado na sequência de uma patologia relacionada com a idade do animal.

A infeção não está a reagir ao tratamento, e os tratadores começam a considerar a hipótese da eutanásia caso as dores se intensifiquem e se tornem insuportáveis para Sudan.

"Tem sido uma grande luta", desabafa Kaddu Sebunya, presidente da African Wildlife Foundation. "Estamos muito preocupados com o facto de o macho estar doente, e com a possibilidade o perdermos. É uma situação desesperante.”

Sudan é um dos últimos da sua espécie. Vive com duas fêmeas de idade avançada — Fatu e Najin — no Ol Pejeta Conservancy, no Quénia, onde é vigiado vinte e quatro horas por dia sete vezes por semana por guardas armados. Os rinocerontes têm uma esperança média de vida de entre os 40 e os 50 anos, e todos estes exemplares já passaram a idade fértil.

Em tempos acreditou-se que subespécie dos rinocerontes-brancos-do-norte surgiu em Chad, na República Democrática do Congo, mas, infelizmente, as suas populações decresceram exponencialmente. Os mais de 2000 exemplares em 1960 passaram a apenas 15 em 1984, restando apenas três destes animais nos dias de hoje.

A perda de habitat e caça furtiva são alguns dos fatores que mais têm ameaçado as populações de rinocerontes ao longo das últimas décadas em África e na Ásia. Acredita-se que a queratina dos seus cornos funcione como uma cura para a as ressacas e é um ingrediente frequentemente utilizado na medicina tradicional Asiática. Contudo, muitos são os cientistas que sublinham que estas curas são completamente ineficazes.

"Este é um bom exemplo do que é África a perder a sua herança”, afirma Sebunya, radicalizado em Nairobi, no Quénia, mas originalmente do Uganda. “Como poderemos explicar isto à próxima geração de africanos? Não podemos ser tão arrogantes e desprezar as outras espécies africanas.”

A Desaparecer

À beira da extinção, a população de rinocerontes-brancos-do-norte continua a decrescer. Em novembro de 2015, um rinoceronte-fêmea de 41 anos chamado Nola teve de ser eutanásiado no Jardim Zoológico de San Diego, por causa de um surto de uma doença dolorosa. Uns meses mais tarde, em julho, Nabiré, uma fêmea de 31 anos, também faleceu num jardim zoológico da República Checa, após complicações relacionadas com um quisto. Uma fêmea de 34 anos chamada Suni morreu de causas naturais em outubro de 2014.

Nesta fase, a conservação destes animais através de um método de reprodução tradicional não parece ser uma opção viável, e é praticamente impossível a menos que seja encontrado um macho a viver na natureza. Mas esse cenário é altamente improvável. Por isso, os cientistas decidiram concentrarem-se no laboratório em busca de ideias para salvar esta espécie à beira da extinção.

Colheram gametas de rinocerontes vivos e deram alguns passos no sentido da fertilização in vitro com substitutos de rinocerontes-brancos do Sul. No entanto, este é um esforço que pode demorar mais de uma década até dar resultados.

E os Rinocerontes-Brancos-do-Sul?

Os rinocerontes-brancos, uma das cinco espécies de rinocerontes dividem-se em duas subespécies: os do norte e os do sul. Os do norte são mais pequenos, com a coluna reta, e crânios achatados e sem rugas entre as costelas, de orelhas e caudas peludas, e com o chifre dianteiro atarracado. Já os rinocerontes-brancos-do-sul são maiores, tem crânios côncavos, e costas com os ombros ligeiramente corcundas, com um corpo mais peludo, costelas enrugadas, e um corno dianteiro mais comprido. 

Tal como os seus parceiros do norte, as populações de rinocerontes-brancos-do-sul têm vindo a decrescer. Na viragem do século, só restava meia-dúzia de exemplares desta subespécie — que, como o próprio nome indica, são nativos do sul de África. Esforços desenvolvidos pelo governo têm ajudado a revitalizar a população destes rinocerontes na África do Sul, existindo atualmente, e graças aos programas de criação e radicalização, cerca de 20 000 exemplares. Paralelamente também existe, e apesar de legal e controlada não deixa de ser controversa, a caça desportiva a estes animais.

Nos últimos anos, o comércio de cornos de rinoceronte voltou a ser legal na África do Sul, apesar dos rinocerontes-brancos-do-sul continuarem a ser considerados pela International Union for Conservation of Nature como uma espécie ameaçada.

"O que se passa com os rinocerontes é algo que, se não formos muito cuidadosos, vai acontecer com muitas mais espécies africanas”, alerta Sebunya. “Está a acontecer debaixo dos nossos narizes, e ainda podemos fazer algo em relação a isso, não só para proteger os rinocerontes, mas todas as outras espécies.”

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