Animais

Caçadores Furtivos Apontam as Miras a Leões de Circo Resgatados

Numa província da África do Sul, pelo menos 20 leões mantidos em cativeiro foram mortos ou atacados por caçadores furtivos desde o início do ano. Quarta-feira, 4 Abril

Por Laurel Neme

Foi um final de conto de fadas, quando os 33 leões resgatados de circos no Peru e na Colômbia foram transportados de avião para um santuário na África do Sul, em maio de 2016. Ao pisarem o solo arenoso, após anos de maus-tratos, estes animais deverão ter sentido que tinham chegado ao paraíso.

Desde a sua chegada, dois dos leões machos, José e Liso, ambos alojados na secção para animais com necessidades especiais do Santuário para Grandes Felinos Emoya, estabeleceram de imediato uma ligação. Liso cuidava de José, que tinha sofrido danos cerebrais, em consequência de sucessivas pancadas no crânio, infligidas quando este era um animal de circo, guiando-o no interior do cercado.

Quando a equipa da Animal Defenders International os viu pela primeira vez, no Peru, os dois leões pareciam “furacões cheios de raiva  e sempre a rosnar”, recorda Jan Creamer, CEO e cofundadora desta organização londrina sem fins lucrativos. Mas com o emprego de rotinas tranquilizadoras e o tratamento delicado no seu novo lar, os animais rapidamente se acalmaram.

Foi então que, nas primeiras horas do dia 29 de maio de 2017, a tragédia se abateu sobre os dois felinos: caçadores furtivos invadiram o santuário, envenenaram José e Liso no interior do seu cercado, tendo, posteriormente, decepado as suas cabeças, caudas, patas e retirado-lhes as peles.

Estas mortes são apenas a ponta do icebergue de uma nova e preocupante tendência: os caçadores furtivos estão a matar leões mantidos em cativeiro em santuários, reservas naturais privadas e instalações específicas para reprodução, para obterem partes dos seus corpos.

Na Ásia, há grande procura de ossos de leão, para serem usados na medicina tradicional — como tónicos e vinhos — e, sobretudo, como um substituto para remédios feitos a partir e ossos de tigre, cujos efetivos populacionais na natureza rondam os 3900 indivíduos. Os dentes e as garras de leão também são muito procurados na China e em outros países asiáticos, sendo usados em colares, bem como em outros tipos de adornos e bugigangas. Em alguns países africanos, as cabeças, caudas e patas são usadas na medicina tradicional, conhecida como muti.

“Ficámos profundamente abalados”, diz Tim Phillips, também cofundador da Animal Defenders, tal como Creamer, acerca do assassinato de José e Liso. “Vivemos com estes animais durante bastante tempo. Participámos diretamente na sua reabilitação individual, e fizemos muito para chegar até eles. Tornámo-nos tão próximos. Eram dos nossos preferidos.”

Phillips afirma que a prioridade agora é encontrar os assassinos de José e Liso. “Estes indivíduos provocaram as pessoas erradas. Mataram dois membros da família ADI, e isso é algo de que não nos vamos esquecer.”

Quem São os Responsáveis Por Estas Mortes?

A Animal Defenders International encontra-se a trabalhar em conjunto com a polícia sul-africana, bem como a reunir informação acerca de outros ataques a leões mantidos em cativeiro por entidades privadas. Em 2015 não houve um único ataque. “Foi só em 2016 que estes ataques tiveram início, tendo vindo a aumentar desde então”, diz Phillips. “Enquadram-se num padrão horrível.”

Segundo a Animal Defenders, nos primeiros oito meses de 2017, pelo menos 20 leões mantidos em cativeiro, incluindo José e Liso, foram mortos ou atacados na província do Limpopo, situada no nordeste do país. A tendência é crescente — durante todo o ano de 2016, foram denunciados 18 ataques. A maioria das vítimas foram envenenadas e mutiladas, tendo-lhes sido removidas as cabeças, patas e outras partes dos seus cadáveres.

Paul Funston, diretor sénior do programa para a conservação de leões da Panthera, uma organização dedicada à proteção de felinos selvagens de todo o mundo, afirma que, nos últimos anos, houve também “um aumento brutal” do número de leões mortos em meio selvagem. “Os caçadores furtivos decepam a cabeça e as patas, deixando para trás a carcaça mutilada. Mais tarde, removem dentes e garras. É muito menos frequente removerem também os ossos, pois é um processo moroso.”

Funston sugere que alguns dos indivíduos responsáveis por estas mortes poderão estar também envolvidos na caça ilegal de rinocerontes — por vezes, encontram-se partes de cadáveres de leões, que poderão ser legais, em carregamentos de chifres de rinoceronte traficados. Por exemplo, quando as autoridades moçambicanas apreenderam 23 chifres de rinoceronte no aeroporto de Maputo, em março de 2016, encontraram entre eles 19 dentes e 57 garras de leão. A prisão, em maio de 2017, de um dos cabecilhas do tráfico de chifres de rinoceronte no Vietname, também produziu partes de cadáveres de leão. Em fevereiro de 2017, foram presos sete suspeitos na África do Sul, acusados do tráfico de chifres de rinoceronte, marfim de elefante e de garras e dentes de leão. Uma outra apreensão em junho revelou um carregamento de chifres de rinoceronte e ossos de leão.

Qual o Papel do Comércio Legal?

Phillips acredita que o comércio internacional legal de ossos e outras partes de leões criados em cativeiro contribui para esta matança, ao fazer disparar a procura. A decisão de manter este comércio legal foi uma concessão feita durante a reunião do ano passado na África do Sul, entre os 182 países que fazem parte da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (CITES). Foi rejeitada uma proposta para terminar todo o comércio de leões e de partes dos seus corpos, tendo, ao invés, sido decidido proibir apenas o comércio internacional de ossos, dentes e garras de leões selvagens, continuando a ser permitido no caso de se tratarem de leões criados em cativeiro.

Segundo Funston, no passado, os conservacionistas não achavam que o comércio de partes de corpos de leões fosse uma ameaça grave. Acreditava-se que os verdadeiros problemas seriam a perda de habitat, a caça de espécies que servem de presa aos leões, tirando-lhes as suas fontes de alimentos, o conflito com os humanos materializado na predação do gado e a caça de troféus.

Entre 2008 e 2011, a África do Sul exportou legalmente 1160 esqueletos de leões criados em cativeiro, pesando quase 11 toneladas, tendo sido anunciada em junho uma quota de 800 esqueletos para 2017.

Na Ásia, as vendas de ossos, dentes e garras têm disparado, e Funston crê que tal se deve, pelo menos em parte, ao estímulo de novos mercados, provocado pelo comércio legal. “Anteriormente, havia o vinho de osso de tigre”, diz. “Agora podemos comprar vinho de osso de leão — é um produto completamente novo.”

Colman O’Criodain, o diretor de políticas para a fauna selvagem do Fundo Mundial para a Natureza, partilha da mesma opinião. Num comentário para o jornal The Guardian, O’Criodain afirmou que, “tal como sucede com o comércio de tigres criados em cativeiro, também o comércio de ossos de leões criados em cativeiro aumenta a procura de ossos de grandes felinos, dificultando os esforços envidados na aplicação da lei.”

Segundo Funston, a responsabilidade não será do aumento da procura de produtos da medicina tradicional em África. “Sempre houve procura de partes de corpos de leão para muti”, afirma. “O que mudou? Não consigo identificar nenhum motivo nem nenhum fio condutor para este recrudescimento. Isto é inteiramente provocado por uma nova procura no Extremo Oriente.”

 

Michael ‘t Sas-Rolfes, bolseiro de investigação ao abrigo do Programa sobre o Tráfico Ilegal de Espécies Selvagens Oxford Martin e investigador principal de um projeto futuro que aborda o comércio de ossos de leão, salienta que certos ossos das patas dos leões são usados pelos africanos em práticas tradicionais de adivinhação, para prever problemas pessoais ou de saúde. O investigador reconhece que, apesar de José e Liso poderem ter sido mortos não pelos seus ossos, mas para serem usados como muti, a procura de ossos na Ásia poderá estar a desempenhar um papel crucial no aumento do número de leões mantidos em cativeiro que são mortos.

De acordo com 't Sas-Rolfes, mesmo que as mortes de leões mantidos em cativeiro não estejam diretamente ligadas ao mercado asiático, podem ser indiretamente influenciadas por este. Na África do Sul, acrescenta, “a caça de leões é uma prática comum, sendo uma fonte de baixo custo de partes de corpos para os sul-africanos.” Mas agora que as carcaças de leão “têm um maior valor para o mercado de exportações, o fornecimento do mercado local de certeza já não é tão seguro ou barato como anteriormente, podendo esse ser um fator para o aumento da caça furtiva para muti.”

O investigador salienta ainda que os criadores de leões da África do Sul foram fortemente afetados pela proibição de outubro de 2016, da importação de troféus obtidos a partir de leões criados em cativeiro, imposta pelo Serviço de Pescas e Vida Selvagem norte-americano, uma vez que foi determinado que este tipo de caça destes felinos não tinha nenhum valor no que respeita à conservação. “Muitos criadores perderam um dos seus mercados mais rentáveis”, afirma 't Sas-Rolfes, o que significa que alguns deles poderão ter passado a criar animais para a obtenção de ossos. “Neste momento, não é um negócio estável.”

Apesar de não ser possível estabelecer uma ligação direta entre a decisão da CITES e a morte dos nossos leões, Phillips afirma que “faz tudo parte da mesma tapeçaria.” Todos os mercados de partes de cadáveres de leão — desde a medicina tradicional aos troféus — são uma mistura entre legalidade e ilegalidade, prossegue. Os leões mantidos em cativeiro são presas fáceis, e “até que tenhamos uma proteção mais abrangente, e tornemos a venda de quaisquer partes dos cadáveres destes animais extraordinariamente difícil, estas mortes irão continuar.”

“Não podemos reagir com base em suposições ou rumores, em especial dada a carga emocional de alguns destes assuntos”, diz Yuan Liu, porta-voz da CITES. “Sendo uma convenção fundamentada na ciência e em factos, a CITES irá analisar e ter em consideração os dados disponíveis antes de retirar quaisquer conclusões, e tomar uma decisão baseada em dados científicos.”

A CITES, acrescenta Liu, encontra-se a conduzir um estudo, que será terminado em julho de 2018, focando o comércio legal e ilegal de leões, incluindo dos seus ossos, bem como de outras partes do corpo e derivados, para averiguar a origem e as rotas de tráfico, entre outros aspetos desse comércio. “Apenas e só quando este estudo estiver terminado é que a [CITES] se encontrará em posição de emitir qualquer comentário relevante.”

Guardas Armados no Santuário Emoya

A proteção dos restantes 31 leões resgatados pela Animal Defenders International, que se encontram alojados no santuário Emoya, é dispendiosa — “uma tremenda e súbita despesa extra”, diz Jan Creamer. A organização desembolsa $7000 (cerca de €6000) para o pagamento de guardas armados, fora outras despesas, necessárias ao melhoramento da segurança.

Para ajudar a custear estas despesas, a Animal Defenders, em conjunto com o músico Moby, lançou o Fundo Anticaça Furtiva José e Liso. Este fundo, cujo primeiro objetivo é atingir os 100 000 dólares (cerca de 86 000 euros), servirá para apoiar as investigações dos agentes anticaça furtiva da polícia sul-africana, para ajudar a recolher e a analisar informação, e para identificar padrões de caça furtiva, por forma a capturar os responsáveis pelas mortes de José e Liso e apresentá-los à justiça. Os donativos serão ainda usados para investigar e obter provas relacionadas com as mortes de outros leões e grandes felinos mantidos em cativeiro, para ajudar a perceber o que se está a passar e onde.

Phillips tem esperança de que a tragédia que se abateu sobre os dois leões ajude a pôr um ponto final no comércio de partes de cadáver destes animais, antes que se atinja a escala aterradora do tráfico de tigres. José e Liso, diz Phillips, “viveram juntos, cuidaram um do outro e — tragicamente — morreram juntos.”

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