Estas Misteriosas Baleias Entoam Jazz no Oceano

A baleia-da-Gronelândia, habitante das águas do Ártico, é capaz de entoar melodias distintas e complexas.quarta-feira, 16 de maio de 2018

O QUE ESTARÃO A FAZER ESTAS BALEIAS? VEJA AS FOTOGRAFIAS.

Na eterna sinfonia do oceano, existe uma maravilha entre os sons sibilantes do golfinho roaz e o canto melancólico da baleia-corcunda.

Novas gravações dos sons produzidos pela baleia-da-Gronelândia, um mamífero ainda pouco estudado, revelam que estes animais criam composições acústicas distintas e intrincadas, que se aproximam mais da música jazz do que dos acordes de Beethoven ou Bach.

Segundo Kate Stafford, uma bióloga marinha da Universidade de Washington, existem composições acústicas simples e previsíveis que as baleias entoam repetidamente durante estações ou anos.

"No que se refere à baleia-da-Gronelândia, o leque de composições acústicas é bastante diverso. Todos os anos, surge algo completamente novo.”

Para o seu mais recente estudo, Stafford instalou hidrofones, um equipamento de gravação específico para o meio aquático, durante os invernos de 2010 a 2014, no Estreito de Fram, um canal de água gelada entre a Gronelândia e o arquipélago de Svalbard, no Ártico.

Após analisar cinco anos de gravações dos sons emitidos pelas baleias-da-Gronelândia, Stafford e a sua equipa descobriram que os animais produziam, frequentemente, composições acústicas diferentes ao longo de uma estação. Stafford também não identificou padrões de sons que fossem repetidos nos anos seguintes.

"Este estudo é verdadeiramente interessante e fascinante”, afirma Laela Sayich, uma bióloga marinha do Instituto Oceanográfico de Woods Hole, que não esteve envolvida na investigação.

"SONS LOUCOS E FASCINANTES"

O interesse de Stafford pelas baleias-da-Gronelândia surgiu por mero acidente. Quando a sua colega, Kristin Laidre, viajou até à zona ocidental da Gronelândia para estudar os narvais, Stafford pediu-lhe que gravasse as melodias dos mamíferos marinhos.

Umas semanas mais tarde, em casa dos pais no estado de Oregon, Stafford recebeu um telefonema de Kaidre, na Gronelândia, que lhe perguntou: “Que raio é isto?”.

Uma baleia-da-Gronelândia nada nas proximidades de Spitsbergen, uma ilha do arquipélago de Svalbard, na Noruega.
Uma baleia-da-Gronelândia nada nas proximidades de Spitsbergen, uma ilha do arquipélago de Svalbard, na Noruega.
fotografia de Kit M. Kovacs and Christian Lydersen, Norwegian Polar Institute

Ela reproduziu uma gravação de “sons loucos e fascinantes”, recorda Stafford. “E não eram sons próprios de focas-barbudas, nem de narvais, pelo que só podiam ser de baleias-da-Gronelândia.”

Uma composição acústica típica de uma baleia-da-Gronelândia oscila, aproximadamente, entre os 45 e 90 segundos, sendo repetida sucessivamente ao longo das 24 horas de um dia.

"Por vezes, parecem gritos, outras vezes sons de gelo e, pontualmente, uma sirene da polícia”, afirma Stafford, cujo estudo foi divulgado na revista Biology Letters a 3 de abril.

Stafford desconhece ainda a razão por que estas melodias são tão diferentes, tal como o seu propósito. Na baleia-corcunda, apenas os machos vocalizam durante a época de acasalamento, mas os cientistas não sabem se este padrão comportamental se estende às baleias-da-Gronelândia.

Segundo Sayigh, “o sentido principal das baleias-da-Gronelândia é acústico e os seus cérebros estão extremamente bem adaptados ao processamento de sons. É fundamental estudar as suas composições acústicas para compreender melhor a forma como interagem com o mundo”.

UMA JANELA PARA O OCEANO

Enquanto a baleia-corcunda e outras espécies habitam águas mais quentes por determinados períodos, a baleia-da-Gronelândia passa uma vida inteira nas águas geladas do Ártico.

O mundo habitado pela baleia-da-Gronelândia é frio, escuro e remoto, o que dificulta a aproximação necessária ao estudo da biologia deste mamífero, até mesmo para um pequeno grupo de entusiastas dispostos a tentar. E, como se isso não bastasse, o auge da atividade acústica da baleia-da-Gronelândia ocorre no pino do inverno, quando os animais estão, geralmente, por baixo de camadas de gelo.

Essa era a razão pela qual muitos biólogos acreditavam que as composições acústicas da baleia-da-Gronelândia se assemelhavam às composições repetitivas e simples da baleia-corcunda.

Não obstante as dificuldades sentidas, os avanços tecnológicos tornaram possível que cientistas como Stafford utilizassem dispositivos de gravação concebidos para permanecer na água durante meses e até mesmo anos, para captar e registar as vocalizações da baleia-da-Gronelândia, incluindo no inverno.

Segundo Julien Delarue, um especialista em acústica aquática da JASCO Applied Sciences na Nova Escócia, no Canadá, “este estudo abre uma nova janela, com uma perspetiva para as vidas de animais que raramente vemos”.

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