O Aumento de Baleias Sem Barbatana Caudal Preocupa os Cientistas

Os especialistas afirmam que o enredamento das baleias em equipamentos de pesca e outros objetos é a causa provável destes ferimentos macabros.domingo, 27 de maio de 2018

Alisa Schulman-Janiger observava as baleias-cinzentas ao largo da costa mexicana, em 1985, quando foi surpreendida pela visão arrepiante de um coto, que emergia à superfície do oceano, ao invés de uma majestosa barbatana caudal.

Era uma baleia sem cauda. “Fiquei, literalmente, de boca aberta”, recorda.

Desde então, têm sido esporádicos os avistamentos de baleias sem barbatana caudal na costa oeste da América do Norte. Mas só este ano já foram avistadas, pelo menos, três baleias-cinzentas sem cauda, que migravam para norte ao longo da costa da Califórnia, um aumento que deixou Schulman-Janiger preocupada com o bem-estar destes grandes cetáceos.

Não há indícios que sugiram que estes animais tenham sido vítimas de um ataque de uma orca ou que tenham embatido num navio, afirma Schulman-Janiger. Pelo contrário, tudo aponta para que estes ferimentos tenham sido causados pelo enredamento em equipamentos de pesca.

Quando estes grandes cetáceos marinhos se alimentam em zonas poluídas com equipamentos de pesca, destroços e outros objetos fabricados pelo Homem, pode acontecer ficarem presos em cordas e redes pela base da barbatana caudal, implicando o corte gradual da mesma ou o estrangulamento da circulação sanguínea até à atrofia total.  

E o prognóstico para estas baleias não é bom: “É muito provável que a maioria delas, senão todas, morra na sequência destes ferimentos”, afirma Justin Viezbecke, coordenador de um programa de auxílio a baleias enredadas nas águas da Califórnia, desenvolvido pela Administração Nacional dos Oceanos e da Atmosfera, na sigla inglesa NOAA.

O CONTO DE UMA BALEIA

Sem a barbatana caudal, a alimentação torna-se uma tarefa árdua: as baleias-cinzentas precisam da cauda para ganhar impulso e, consequentemente, mergulhar em direção ao fundo do mar, onde filtram pequenos crustáceos.

Além disso, a migração de longas distâncias inerente à espécie, desde as zonas de procriação no México às zonas de alimentação no Ártico, torna-se um verdadeiro desafio sem uma cauda que permita impulsionar a viagem. A ausência da barbatana caudal impede as progenitoras de defender as crias dos ataques das orcas.

Em face desta situação, Schulman-Janiger, uma bióloga especialista em baleias, que dirige o Projeto de Censo e Comportamentos da Baleia-Cinzenta, da Sociedade Americana de Cetáceos, está fascinada com a capacidade de adaptação de alguns animais à sua limitação física.

As baleias-cinzentas sem barbatana caudal, que Schulman-Janiger observou, giram à direita sobre si mesmas, num movimento semelhante ao de um saca-rolhas, para ganhar impulso e mergulhar, após terem emergido à superfície para respirar.

Schulman-Janiger tem particular fascínio por uma fêmea sem barbatana caudal, que foi avistada várias vezes ao longo dos anos, fazendo-se acompanhar de uma cria em algumas ocasiões. “Não sabemos como é que ela conseguiu migrar até ao Alasca”, afirma.

Não está clara ainda a razão pela qual apenas são avistadas baleias-cinzentas sem a barbatana caudal, tendo em conta que as baleias-corcundas são as maiores vítimas de enredamento entre as espécies de baleias que habitam as águas da América do Norte.

Pieter Folkens, um técnico da NOAA especializado no desenredamento de baleias, acredita que as baleias-cinzentas dependem menos das respetivas barbatanas caudais do que as de outras espécies, pelo que conseguem sobreviver mais tempo sem as respetivas caudas.

"As baleias-azuis e as baleias-corcundas têm de ganhar impulso e investir contra as suas presas para se alimentarem e para tal precisam da força de uma barbatana caudal”, descreve, numa mensagem de correio eletrónico.

APENAS UMA BARBATANA CAUDAL?

O aumento do número de baleias avistadas sem as respetivas caudas está em linha com o aumento generalizado de situações de enredamento de baleias ao longo dos anos. Entre os anos 2000 e 2012, registou-se uma média anual de 10 incidentes, segundo dados da NOAA. Em 2017, registaram-se 31 incidentes, afirma Folkens.

A razão para este aumento é ainda desconhecida, embora se possa admitir que as pessoas estejam mais atentas ao problema, realça Folkens.

Baleia Salva Vida de Mergulhadora?
11 de janeiro de 2018 - Nan Hauser, uma bióloga que dedicou quase três décadas da sua vida ao estudo de baleias-jubarte, experienciou um encontro único em setembro de 2017. Durante 10 minutos, foi empurrada e levantada pela baleia. Hauser pensou que a estaria a tentar matar. No, entanto, assim que chegou ao seu barco, viu um tubarão-tigre nas proximidades. Hauser mudou de ideias, pensando que a baleia estava a protegê-la. Esta afirmação não foi bem aceite, sendo que até ela própria compreende o ceticismo. Apesar disso, as baleias-jubarte são conhecidas por salvar animais - baleias ou até outras espécies - de predadores. Desconhece-se ainda a razão deste comportamento. As imagens na primeira pessoa recriam a situação que Hauser vivenciou. Contudo, é praticamente impossível determinar a motivação desta baleia.

Mas o número de baleias também tem aumentado, pelo que as probabilidades de enredamento também aumentam. Segundo Folkens, as populações de baleias-cinzentas, baleias-azuis e baleias-corcundas aumentaram nos últimos anos.

Algumas baleias que ficam enredadas em equipamentos de pesca podem ser salvas. Especialistas em vida selvagem, com formação específica no salvamento de baleias, libertaram seis dos 31 casos comunicados em 2017, na costa ocidental dos Estados Unidos da América, afirma Folkens. Também se registam situações de alguns animais que se libertam sozinhos.

Mas encontrar uma solução a longo prazo é um desafio. Os cientistas não sabem ao certo como e onde é que as baleias se enredam nos equipamentos de pesca, uma vez que percorrem grandes distâncias, antes de serem descobertas.

Alguns setores da indústria pesqueira estão a desenvolver esforços para encontrar formas de prevenir o enredamento destes grandes cetáceos. Um desses setores é o da criação de caranguejos na Califórnia, que acondiciona os crustáceos em gaiolas de pesca suspensas nas águas por longas cordas. Estes equipamentos contribuíram para um número recorde de enredamentos em 2016.

Viezbicke espera que estes grandes mamíferos marinhos conheçam um futuro melhor. Ficar enredado numa rede de pesca, afirma, “limita a sua capacidade de ser uma baleia”.

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