Animais

Porque é que os Corvos e as Gralhas São as Aves Mais Inteligentes do Planeta?

Os seus cérebros podem ser minúsculos, mas estas aves são conhecidas por rivalizar com crianças e símios.Sunday, May 27

Por Amelia Stymacks
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Até ao século XX, as aves eram, em grande parte, postas de lado como seres patetas. Quão inteligente se pode ser com um cérebro do tamanho de uma noz?

Quanto mais estudamos a inteligência das aves, mais suposições caem por terra. Estudos mostram, por exemplo, que as gralhas constroem ferramentas, os corvos resolvem quebra-cabeças e os papagaios alardeiam vocabulário diversificado.

As aves otimizam o espaço afeto aos seus minúsculos cérebros, arrumando no seu interior um amplo conjunto de neurónios, maior ainda que o dos mamíferos.

Mas, na verdade, o que permite qualificar uma ave como um ser inteligente? A definição deveria ser mais ampla do que é na realidade, dizem os cientistas.

“Ser capaz de voar até à Argentina, regressar e aterrar no mesmo arbusto – nós não valorizamos essa inteligência num conjunto de outros organismos,” afirma Kevin McGowan, um perito em gralhas do Laboratório de Ornitologia de Cornell, em Ithaca, Nova Iorque. “Nós restringimos o campo de ação a atividades que acreditamos que apenas nós podemos fazer.”

Mas, se estamos a falar de um padrão de inteligência, como por exemplo a mímica do discurso humano ou a resolução de problemas, “ele resume-se sempre aos papagaios e aos corvídeos,” afirma McGowan.

CORVOS

Membros da família dos corvídeos (pássaros canoros incluindo corvos, gralhas, gaios e pegas-rabudas, para referir alguns) figuram entre as aves mais inteligentes, embora o corvo comum se destaque dos demais pela sua capacidade de resolução de problemas de maior complexidade, segundo McGowan.

Um estudo publicado em 2017 na revista Science revelou que os corvos até planeiam tarefas de antemão – um comportamento que se acreditou, durante muito tempo, ser exclusivo dos humanos e outros primatas.

Através de uma simples experiência, os cientistas ensinaram um grupo de corvos uma forma de obter alimento com recurso a uma ferramenta. Quando, quase 24 horas depois, lhes foi oferecida uma seleção de objetos, os corvos optaram, novamente, por aquela ferramenta em particular e realizaram a tarefa para obter a recompensa.

“Os macacos não conseguiram completar tarefas semelhantes,” referiu Mathis Osvath, um investigador da Universidade de Lund, na Suécia, em entrevista prévia.

GRALHAS

Enquanto as gralhas apresentam desempenhos quase tão bons quanto os dos corvos na resolução de testes de inteligência, McGowan sublinha que as gralhas possuem uma memória desconcertante no que diz respeito ao rosto humano, sendo capazes de se lembrar se aquela pessoa em particular representa uma ameaça.

“As gralhas parecem ter noção de que cada pessoa é diferente e que a abordagem tem, necessariamente, de ser diferenciada.”

Por exemplo, as gralhas são mais cautelosas com novos rostos do que os corvos, mas, em contrapartida, estão mais à vontade com humanos com os quais interagiram anteriormente, segundo um estudo publicado em 2015 na revista Behavioral Ecology and Sociobiology.

“As gralhas que andam por aqui conhecem o meu rosto,” diz McGowan. Se, no início, os pássaros, que viviam nas proximidades do laboratório pareciam não gostar que McGowan se aproximasse dos seus ninhos, hoje adoram-no, sobretudo desde que começou a deixar-lhes pequenos mimos.

“Elas conhecem o meu carro, a forma como ando, elas identificam-me a 16 quilómetros de distância a partir do ponto onde me encontraram pela última vez. Elas são, absolutamente, fantásticas.”

Num conhecido estudo publicado em 2015 na revista Animal Behaviour, os investigadores ocultaram os rostos com máscaras, e, enquanto seguravam gralhas embalsamadas, espalharam comida em zonas frequentadas por gralhas no estado de Washington.

As gralhas acorreram praticamente em massa, importunando as pessoas e alertando outras gralhas nas proximidades. Quando os investigadores regressaram semanas mais tarde, usando as mesmas máscaras, mas de mãos vazias, as gralhas voltaram a importunar as pessoas e, nos dias que se seguiram, voavam sobre o local com clara desconfiança.

PAPAGAIOS-CINZENTOS-DO-CONGO

Ainda que muitas espécies de papagaios tenham uma natural apetência pelo discurso humano, o papagaio-cinzento-do-Congo é o mais competente.

“Muita coisa se passa naqueles pequenos cérebros do tamanho de uma noz,” diz McGowan. “E eles vivem durante tantos anos que podem desenvolver a inteligência e acumular muitas memórias.”

Nos anos 50, a psicóloga especialista em estudos comparativos da Universidade de Harvard, Irene Pepperberg, começou a ensinar um papagaio-cinzento-do-Congo, Alex, sons próprios da língua inglesa. Antes de morrer prematuramente em 2007, Alex dominava, sensivelmente, cerca de cem palavras e usava-as em contexto, compreendendo até os conceitos de igual, diferente e zero.

Atualmente, Pepperberg trabalha com outro papagaio-cinzento-do-Congo, Griffin, na Universidade de Harvard. Griffin consegue identificar formas e cores, tendo sido iniciado no conceito de zero.

CACATUAS

As cacatuas são o primeiro animal observado a criar um instrumento musical.

Quando faz a corte, a cacatua-das-palmeiras macho, que habita a Austrália, usa galhos e sementes para criar baquetas. Cada macho tem um estilo musical próprio, um ritmo só seu que cria ao matraquear com as baquetas em árvores ocas.

Embora as cacatuas-das-palmeiras não dancem enquanto baqueteiam nas árvores, outras espécies revelaram natural talento para a dança, acompanhando o ritmo de músicas.

O vídeo de Snowball, uma cacatua-de-crista-amarela em cativeiro, a dançar ao som dos Backstreet Boys, conquistou a Internet há alguns anos atrás.

A atuação de Snowball, para além de deliciosa, permitiu aos cientistas descobrir que os pássaros podem acompanhar uma batida. Ao acelerar e desacelerar a música, os cientistas concluíram que Snowball tem, efetivamente, noção de compasso e ritmo.

QUÍSCALO-DE-CAUDA-GRANDE

Embora os corvídeos e os papagaios recebam todo o mérito por serem aves inteligentes, diz McGowan, “há por aí aves subestimadas” que ainda não foram, devidamente, reconhecidas.

Os quíscalos-de-cauda-grande, por exemplo, pertencem à mesma família dos melros e dos papa-figos, um grupo nem sempre considerado, particularmente, inteligente.

No entanto, quando sujeitos aos testes clássicos desenvolvidos com gralhas e corvos, os quíscalos-de-cauda-grande passaram com distinção.

Segundo o estudo publicado em 2016 em PeerJ, os quíscalos foram desafiados a completar quebra-cabeças, cujo prémio era um pedaço de comida. Eles não só conseguiram resolver o problema, como também adaptaram, agilmente, as suas estratégias, quando as regras do quebra-cabeças foram alteradas.

Mais, cada quíscalo abordou o quebra-cabeças de modo diferente, evidenciando formas de pensamento individualizado, uma qualidade que partilham com os humanos.

O ANO DO PÁSSARO

Em 1918, o Congresso aprovou o Tratado sobre as Aves Migratórias para proteger as aves da matança arbitrária. Para assinalar o centenário, a National Geographic associou-se à National Audubon Society, à Birdlife International e ao Laboratório de Ortinologia de Cornell para declarar 2018 como o ano do pássaro. Fique atento às novas histórias, mapas, livros, eventos e conteúdos dos média a publicar ao longo do ano.

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