Formigas "Paramédicas" São as Primeiras a Resgatar e Curar as Suas Camaradas Feridas

De acordo com um novo estudo, as formigas Megaponera analis tratam umas das outras depois das batalhas e a taxa de êxito é surpreendentemente elevada.sexta-feira, 29 de junho de 2018

As formigas Megaponera analis, endémicas da África subsariana, fazem um cerco às colónias de térmitas, que comem às centenas, fazendo frente às picadas potencialmente letais das mais corpulentas térmitas-soldado que as defendem. Mas o que realmente despertou o interesse do mirmecologista Erik T. Frank para estas formigas foi o facto de transportarem os seus feridos para casa depois de um ataque — uma descoberta que Frank fez em 2017.

Na verdade, os resgates no campo de batalha são só uma parte da história. Quando regressam ao formigueiro, as formigas tratam das camaradas feridas por turnos, segurando cuidadosamente os membros feridos com as mandíbulas e as pernas anteriores ao mesmo tempo que "lambem" incansavelmente a ferida durante um período que pode chegar aos quatro minutos.

Esta descoberta constitui-se como a primeira vez que animais não humanos são observados a tratar os feridos de forma sistemática até que sarem. Frank e os colegas descrevem este comportamento num artigo publicado na revista Proceedings of the Royal Society B.

"Não estava à espera de que as formigas tivessem um sistema de tratamento dos feridos tão sofisticado — ou de que fosse necessário, na verdade", disse Frank à National Geographic.

Frank, que, na altura, era estudante de doutoramento na Universidade de Würzburg na Alemanha, questionava-se sobre o que aconteceria às formigas feridas depois de as camaradas as ajudarem no subsolo. Frank e os colegas da Estação de Investigação do Parque Nacional de Comoé, no nordeste da Costa do Marfim, criaram formigueiros artificiais encimados por uma cobertura transparente para que uma câmara de infravermelhos pudesse registar o que se passava no interior.

Verificaram que, quando as formigas voltavam ao formigueiro, examinavam cuidadosamente as camaradas feridas, usando as suas antenas para as sondar. A frequência com que sondavam as formigas feridas no formigueiro era mais do que duas vezes superior à frequência com que sondavam as formigas saudáveis.

Este comportamento revelou-se vital: 80 por cento das formigas feridas na experiência morriam em 24 horas quando se mantinham por si próprias. Mas se fossem tratadas pelas outras formigas nem que fosse por uma hora, só um décimo morria. Curiosamente, 80 por cento sobreviviam sem tratamento quando colocadas num ambiente estéril, pelo que Frank acredita que as infeções são a principal causa de morte e que este comportamento de "lamber as feridas" ajuda a impedir que as formigas morram.

Embora seja frequente observar animais a tratar das próprias feridas, havia muito poucas descrições de animais a tratar outros antes desta descoberta, entre as quais se conta o exemplo de um macaco-prego a ocupar-se da ferida na cabeça de uma cria.

TRIAGEM NO CAMPO DE BATALHA

Em trabalhos anteriores, Frank tinha descoberto que as formigas feridas libertam uma feromona que funciona como um foguete de sinalização para alertar os soldados de que há um elemento caído. Mas desta vez, Frank apercebeu-se de outra estratégia: exacerbar as feridas. Quando não havia ajuda à vista, as formigas feridas dirigiam-se diretamente para o formigueiro. Mas quando havia formigas por perto, cambaleavam e caíam, transmitindo a ideia de que as "feridas eram mais graves" como forma de atrair ajuda.

As formigas só recorriam a este expediente se as feridas não fossem letais. As formigas feridas de morte — das quais Frank retirava cinco pernas em vez de duas — eram deixadas ao seu destino pelos contendores no campo e nas experiências de laboratório. Esta triagem faz sentido, uma vez que assegura que as formigas não despendem recursos a tratar de casos perdidos; os insetos feridos que recuperavam continuavam a batalha, não obstante terem perdido membros. Frank descobriu que estes constituíam mais de um quinto dos contendores, embora representassem apenas cinco por cento do total da colónia.

Mesmo quando Frank espalhou a feromona de resgate sobre as formigas feridas, as camaradas continuaram a deixá-la ficar para trás. Uma cuidadosa análise de vídeo mostrou a razão deste comportamento: não foi por as formigas saudáveis se recusarem a resgatar as formigas feridas. As formigas moribundas recusaram-se a cooperar, batendo as pernas quando eram sondadas ou recolhidas, obrigando as formigas que vinham em seu auxílio a abandoná-las. Este fenómeno surpreendeu Frank.

"Nos casos em que é necessário um sistema de triagem nos humanos, a decisão sobre quem irá receber ajuda é tomada pelo médico: um sistema regulado de cima para baixo", apontou Frank. "Com as formigas, acontece exatamente o inverso."

Helen McCreery, estudante de pós-doutoramento da Universidade do Estado do Michigan, que estuda comportamentos sociais das formigas, considera o artigo entusiasmante, embora defenda que o comportamento faça sentido do ponto de vista evolutivo. "De que serve salvar um membro da colónia se sabem que não vai sobreviver?" pergunta. "Ainda assim, quando li que levam as formigas feridas para casa, estava longe de imaginar que tratavam das feridas."

Ainda há muito para aprender sobre a razão que leva os insetos sociais a tentar salvar-se uns aos outros, bem como sobre quando e como o fazem, afirmou. "É muito provável que haja outras espécies de formigas, ou de outros insetos sociais, que cuidem dos feridos."

E é algo que Frank, agora estudante de pós-doutoramento na Universidade de Lausanne, na Suíça, irá averiguar. O investigador quer saber se há outras formigas a apresentar comportamentos de resgate semelhantes. Além disso, Frank pretende continuar a estudar estas formigas para verificar se este comportamento de assistência impede infeções ou chega mesmo a tratá-las, o que poderá fazer das formigas uma nova fonte de antibióticos.

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