Os Gatos Domesticaram-se a Eles Próprios. É o que nos Mostra o ADN Mais Antigo Destes Seres.

Uma pesquisa genética abrangente aos gatos sugere que, mesmo depois de estes felinos terem entrado nas nossas vidas, mantiveram inalterada, durante milhares de anos, a grande maioria das suas caraterísticas originais.terça-feira, 5 de junho de 2018

Demonstrando que são efetivamente felinos, os gatos demoraram o tempo que quiseram até saltarem para o colo dos humanos. 

Num abrangente estudo sobre o surgimento e proliferação  dos gatos domésticos, a análise do respetivo ADN sugere que os gatos viveram milhares de anos perto dos humanos antes de serem domesticados. Durante esse tempo, os seus genes mudaram pouco desde quando eram gatos selvagens, à exceção de uma recente atualização: as riscas e as manchas características dos gatos tabby.

Os investigadores pesquisaram o ADN de mais de 200 gatos que abrangem os últimos nove mil anos, incluindo amostras do gato romeno antigo, de múmias de gatos egípcios e espécimes de animais selvagens africanos modernos. Duas grandes linhagens de gatos contribuíram para o felino doméstico como o conhecemos hoje, de acordo com um estudo publicado na Nature Ecology & Evolution.

Os antepassados dos gatos domésticos que conhecemos hoje existiam entre o sudoeste da Ásia e a Europa, já em 4400 a.C. Os gatos começaram, provavelmente, por se fixar perto das comunidades de agricultores no Crescente Fértil, há cerca de 8000 anos, onde se estabeleceram como caçadores de ratos, numa relação mutuamente benéfica com os humanos.

Ratos e ratazanas são atraídos pelas culturas e outros subprodutos agrícolas produzidos pelas civilizações humanas. E provável que tenham seguido as populações de roedores e, consequentemente, se tenham frequentemente aproximado das aglomerações de humanos.

"É provável que tenha sido assim que ocorreu o primeiro encontro entre humanos e gatos", diz o coautor do estudo, Claudio Ottoni, da Universidade de Lovaina. "Não foi o caso de as pessoas terem pegado em alguns gatos e coloca-los dentro de gaiolas", diz ele. Em vez disso, as pessoas permitiram que os gatos se autodomesticassem.

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Uma segunda linhagem, composta por gatos africanos que dominaram o Egito, espalhou-se pelo Mediterrâneo e pela maior parte do Velho Mundo, desde por volta de 1500 a.C. Este gato egípcio devia revelar comportamentos que o tornaram atraente para os seres humanos: eram sociáveis e mansos.

Os resultados sugerem que as populações humanas pré-históricas começaram, provavelmente, a levar consigo gatos no percurso das rotas comerciais antigas, terrestres e marinhas, para controlar as pragas de roedores.

GENERALIZAÇÃO DO GATO TABBY 

Através da comparação do ADN dos gatos ao longo da história, o estudo dá uma ideia de como os animais estavam a evoluir, mesmo antes de as pessoas começarem a espalhá-los pelo mundo, diz Ottoni.

Surpreendentemente, os gatos selvagens e domésticos não apresentaram diferenças significativas quanto à sua composição genética, e um dos poucos traços distintivos disponíveis foi a pelagem característica dos gatos tabby.

O estudo dá pistas sobre a causa do surgimento tardio das pelagens manchadas ou listadas, que começaram a aparecer em gatos tabby domesticados na Idade Média. O gene das pelagens de tipo tabby remonta ao Império Otomano no sudoeste da Ásia e, mais tarde, tornou-se comum na Europa e na África.

Foi apenas no século XVIII, no entanto, que as marcas se tornaram suficientemente comuns para serem associadas a gatos domésticos, e, no século XIX, os fãs de gatos começaram a selecionar os que tinham marcas características para criar raças extravagantes.

ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO PERFEITOS 

No geral, os gatos tornaram-se companheiros domésticos sem que para isso tivessem de ter mudado muito, diz a geneticista evolutiva e coautora do artigo, Eva-Maria Geigl. Os gatos domésticos assemelham-se fisicamente aos gatos selvagens, mas não são solitários, tolerando humanos e outros gatos.

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Tudo isto contrasta com o que se passou com os cães, os primeiros animais a serem domesticados, acrescenta Geigl. Os cães foram selecionados para executar tarefas específicas — o que nunca aconteceu no caso dos gatos, e essa seleção de características específicas é que levou à diversificação dos cães e à existência das muitas raças que conhecemos hoje.

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"Eu acho que não havia necessidade de sujeitar os gatos a um tal processo de seleção, uma vez que não era necessário mudá-los", diz Geigl. "Eles já eram perfeitos como eram".

Embora nem todos concordem com a perfeição dos gatos, os felinos estão, hoje, entre os animais de estimação mais populares do mundo. Há cerca de 74 milhões de gatos a viverem nos lares dos americanos.  

"Temos descoberto coisas incríveis sobre a origem dos gatos, o quanto evoluíram e que tipo de impacto que tiveram nos seres humanos", diz Ottoni.

"Eu acho que estudar esta espécie vai permitir que se perceba melhor como ocorreu o processo de domesticação".

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