Porque É que as Cobras Têm Dois Pénis e os Jacarés Estão Sempre Eretos

Desde pénis com picos a um clitóris extra, não falta variedade nos órgãos reprodutores dos répteis.

Friday, June 29, 2018,
Por Tina Deines
Jacaré-do-Mississippi
O jacaré-do-Mississippi macho, Alligator mississippiensis, mantém o seu pénis ereto mas escondido no interior do corpo até ao acasalamento.
Fotografia de Joel Sartore/National Geographic Photo Ark

Mais de dez mil espécies de répteis de todas as formas e tamanhos apressam-se e deslizam pela Terra, desde cobras Thamnophis a crocodilos - e as suas partes baixas são igualmente variadas.

Desde pénis pontiagudos a vários pénis - ou nenhum pénis - os répteis possuem o equipamento de acasalamento mais invulgar do planeta.

A maioria do conhecimento atual dos órgãos sexuais dos répteis centra-se nos órgãos masculinos, mas os cientistas estão, cada vez mais, a orientar o estudo dos órgãos sexuais femininos - é um pouco mais complicado, uma vez que os órgãos femininos se situam no interior do animal.

DOIS É MELHOR QUE UM

Cobras e lagartos têm não um, mas dois pénis, denominados hemipénis.

Christopher Friesen, investigador da Universidade de Sidney, afirma que ter dois hemipénis pode beneficiar os machos durante o acasalamento.

Esta fotografia mostra os dois hemipénis de uma cobra masculina do cabo (Naja nivea) em África do Sul.
Fotografia de Tony Phelps, NaturePL

"No caso das cobras Thamnophis que estudei, conseguir acasalar de um lado da fêmea ou do ouro poderá ser útil numa competição intensa de acasalamento", afirma.

Isto porque as cobras formam aquilo que Friesen denomina "enormes agregações de acasalamento", nas quais entre 5 a 100 machos competem por uma única fêmea, procurando por ela na bola de acasalamento. "Pode ser vantajoso ser flexível relativamente ao lado da fêmea onde um macho se encontra, porque utilizam o hemipénis mais próximo da fêmea para acasalar."

As Orgias Encurtam a Vida das Cobras Macho

E não são só os machos que se estão a duplicar. Os lagartos e as cobras-fêmeas possuem dois clitóris, ou hemiclitóris, que foram primeiramente descritos nos lagartos Varanus fêmea em 1995 por W. Böhme como “reflexos em miniatura dos hemipénis dos machos.”

Os hemiclitóris e as suas funções ainda são "pouco conhecidos", mas devem ser considerados como uma característica inerente aos lagartos e cobras fêmea, como comunicaram os investigadores Soledad Valdecantos e Fernando Lobo da Universidad Nacional de Salta, Argentina, num estudo de 2014.

OU NENHUM É MELHOR QUE UM

Por outro lado, a tuatara - um réptil que se assemelha a um lagarto - não tem nenhum pénis.

Duas tuataras, Sphenodon punctatus, no Jardim Zoológico de Wellington Zoo. Os machos, como muitas aves, não têm pénis sequer.
Fotografia de Joel Sartore/National Geographic Photo Ark

Em vez disso, o macho simplesmente monta a fêmea e coloca a abertura da sua cloaca - a cavidade onde se localiza o aparelho intestinal, genital e urinário nos répteis- sobre a cloaca da fêmea. Tal permite-lhe transferir o seu esperma para a cloaca da fêmea.

A maioria das aves acasala de forma semelhante - a maioria das aves macho não tem falo e, em vez disso, transmite o esperma através do contacto entre cloacas. Uma exceção notável encontra-se nos patos, que apresentam pénis e vaginas celebremente longos e em forma tubular.

PÉNIS FEMININOS FUGAZES

Investigadores na Austrália fizeram uma descoberta curiosa no ano passado, enquanto estudavam embriões do dragão barbudo, um grande lagarto que vive em ambientes secos. Aparentemente, as fêmeas desta espécie crescem temporariamente o equivalente de um pénis de lagarto enquanto ainda estão dentro do ovo.

“A forma como estas fêmeas crescem hemipénis, o equivalente a um pénis mamífero, era decididamente estranha”, afirmou a investigadora Vera Weisbecker da Universidade de Queensland num comunicado da Science Daily.

Um dragão barbudo oriental, Pogona barbata, no Jardim Zoológico de Auckland. As fêmeas de uma espécie relacionada, o dragão barbudo central, crescem hemipénis.
Fotografia de Joel Sartore/National Geographic Photo Ark

As fêmeas perderam os seus hemipénis à medida que se aproximavam da altura de incubação. Esta investigação contribui para aquilo que Weisbecker chama de "conhecimento insuficiente" dos órgãos sexuais dos répteis fêmea.

LAGARTOS COM PICOS

Os hemipénis de lagartos e cobras exibem pequenos picos e ganchos.

Os cientistas têm algumas ideias sobre o porquê dos hemipénis exibirem este tipo de ornamentação. Segundo uma teoria, o formato dos órgãos sexuais masculinos e femininos adaptou-se para que o acasalamento possa ocorrer apenas entre um macho e uma fêmea da mesma espécie. Os órgãos sexuais de machos e fêmeas da mesma espécie encaixam e os picos e ganchos podem ajudar o macho a manter o seu hemipénis no lugar durante o acasalamento.

Uma cobra Thamnophis sirtalis, no Jardim Zoológico de Oregon. Estas cobras, tal como outras cobras e lagartos, têm dois pénis denominados "hemipénis".
Fotografia de Joel Sartore/National Geographic Photo Ark

 

Um estudo realizado revelou que estes picos e ganchos também podem aumentar a duração da cópula, aumentando assim o êxito do acasalamento.

"Gostaria de salientar que os órgãos sexuais femininos têm de ser estudados para compreendermos totalmente a função da elaboração de órgãos sexuais masculinos", afirma Frieson.

JACARÉS QUE ESTÃO SEMPRE ERETOS

Os jacarés-do-Mississippi macho estão sempre preparados. A maioria dos outros pénis de animais, se não todos, aumentam de tamanho a partir de um estado de flacidez, mas os aligátores mantêm o seu permanentemente ereto.

E não é só - o pénis sai do interior do corpo do animal e, depois, volta a entrar como um elástico. Diane Kelly, investigadora e especialista em falos animais da Universidade de Massachusetts, afirmou à National Geographic em 2013 que este pénis “elástico permanentemente ereto” é “muito estranho”.

O crocodilo-de-água-salgada macho, como o jacaré-do-Mississippi, também mantém o seu pénis ereto, mas escondido dentro do corpo.
Fotografia de Joel Sartore/National Geographic Photo Ark

Kelly tem uma teoria sobre como um pénis permanentemente ereto "quase a flutuar livremente" sem músculo associado consegue sair da cloaca do animal. Após ter visualizado este vídeo, Kelly teceu a hipótese de que um par de músculos que envolve o pénis — levator cloacae — contrai para forçar a saída do pénis.

Até agora, o fenómeno também já foi observado em crocodilos-de-água-salgada no Nilo e na Austrália. "Esperamos que tal se verifique em todos os crocodilídeos", afirma Kelly via e-mail.

A investigadora ainda está a tentar obter espécimes vivos e com maturidade sexual para testar a sua teoria. Kelly afirma que apesar do pénis permanecer ereto, a glande — a estrutura bulbosa na ponta — infla e cada espécie tem o seu próprio aspeto e formato.

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