Relatos Antigos Explicam o Decréscimo das Populações de Macacos de Nariz Empinado

O entusiamo dos chineses por manterem registos rigorosos de quase tudo conta com pelo menos dois mil anos e tem sido muito útil à comunidade científica.quarta-feira, 20 de junho de 2018

Na China do século XI, o estudioso Lu Dian coligiu uma enciclopédia com descrições das bestas, das aves, dos insetos e das árvores locais. Umas das espécies que descreveu é um macaco com “uma cauda dourada e felpuda que vive nas montanhas de Sichuan.” Segundo Lu Dian, os ossos deste macaco eram utilizados na medicina da altura, e a pele aproveitada para fazer tapetes e almofadas.

O primata de que nos falava Lu Dian é conhecido como o “macaco de nariz empinado”. Graças à sua pelagem lustrosa, face em tons de azul claro, e suposto potencial medicinal, os imperadores interessavam-se especialmente por estes macacos sem nariz, e os escritores faziam questão de registar e descrever cada vez que avistavam um exemplar.

Um milhar de anos mais tarde, um grupo de primatologistas debruçou-se sobre estas descrições de macacos de nariz empinado, tentando reconstruir a sua distribuição histórica e perceber como a atividade humana, e, por conseguinte, a degradação do ambiente, estão a contribuir para o recente declínio desta espécie em toda a China. Os resultados do estudo foram publicados este ano na revista científica Diversity and Distributions.

Este feito só foi possível graças ao idiossincrático entusiasmo milenar dos chineses por manterem registos rigorosos de quase tudo aquilo com que se deparam. Estes registos incluem poesia, periódicos e relatos utilizados não só para revelar padrões no que às populações de macacos de nariz empinados diz respeito, mas também de elefantes, gibões e até de pragas de gafanhotos.

Apesar de estes textos antiquíssimos não nos revelarem exatamente por quantos indivíduos eram compostas as comunidades destes macacos na altura em que foram escritos, estes ilustram bem a forma como a espécie, outrora espalhada pelo território chinês, tem vindo a ocupar um espaço cada vez mais restrito e a optar por viver em áreas remotas.

A referência mais antiga a estes animais surge por volta do terceiro século antes de Cristo, sendo descrito na enciclopédia Erya como um “animal com um estranho nariz e uma cauda comprida.”

Estes escritos antigos fazem menção dos macacos tanto em regiões de baixa como de elevada altitude, ao longo de todo o este, centro e sul da China. Contudo, com o passar do tempo, — e principalmente por volta de 1700 d.C., altura que marcou um aumento considerável das populações destes animais — os registos de observações destes macacos começaram a corresponder a áreas cada vez menores.

“Com o passar dos anos, observou-se um decréscimo progressivo das comunidades destes primatas, e depois, de repente, nas regiões este, sudeste e centro da China, desapareceram de todo”, afirma Paul Garber, um primatologista da Universidade do Illinois e coautor do estudo.

Hoje, existem na China quatro variedades de macacos de nariz empinado e todas elas vivem sobretudo em regiões montanhosas, remotas, situadas no oeste e sudoeste do país. Contudo, estas populações são de pequenas dimensões e encontram-se numa situação muito vulnerável. Existem, por exemplo, apenas 800 macacos de nariz empinado cinzentos a viverem na natureza.

O aumento da população humana, o desenvolvimento da agricultura, a caça e a desflorestação são algumas das principais razões pelas quais as comunidades destes primatas são cada vez mais reduzidas, razões, essas, que se intensificaram particularmente à medida que a China duplicou a sua população ao longo dos últimos 60 anos, sacrificando assim os habitats dos macacos.

Com obstáculos tão limitadores, se não forem tomadas as devidas medidas, é expetável que vejamos extintas muitas espécies animais no decorrer dos próximos 50 anos.

“Existem primatas não-humanos em cerca de 90 países espalhados pelo mundo, mas muitos desses países têm economias muito limitadas e poucos académicos e investigadores”, explica-nos Garber. “Neste momento, a China é um caso atípico... É um país que se encontra numa posição em que reúne condições para fazer algo muito significativo para atenuar a degradação do ambiente.”

A melhor medida para proteger os macacos passa pela criação de reservas naturais, diz-nos Zhao Xumao, um primatologista da Academia Chinesa de Ciências, em Pequim, que trabalhou no projeto responsável por coligir e reconstruir todos os registos encontrados a respeito dos macacos de nariz empinado.

Foram criadas mais de 38 reservas naturais com o intuito de preservar a espécie, e quase todos os indivíduos que a compõem encontram-se a viver nelas. Brevemente — assim que o governo concluir os esforços para estabelecer o Nujiang Grand Canyon National Park —, o macaco de nariz empinado preto, uma espécie gravemente ameaçada que vive junto à fronteira com o Myanmar, estará entre as espécies que vivem protegidas nas reservas naturais. O projeto para o estabelecimento desse espaço enquanto reserva natural foi aprovado em 2016.

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