Animais

A Ciência Por Detrás da Psíquica dos Animais Que Preveem os Resultados do Mundial de Futebol

Aquiles, o gato, acertou na previsão dos resultados de alguns jogos do Mundial de Futebol de 2018, mas os especialistas dizem que o animal não pode prever o futuro.quinta-feira, 12 de julho de 2018

Por Elaina Zachos
Aquiles, o gato, um animal vidente do Mundial de Futebol de 2018 da FIFA, prevê o resultado do jogo entre o Brasil e a Costa Rica.

Normalmente, Aquiles, um gato surdo, de pelagem branca, vive na cave do Museu Hermitage em São Petersburgo e anda à caça de ratos. Mas, para o Mundial de Futebol de 2018, o animal foi glorificado pelas suas  capacidades de previsão das seleções vencedoras dos jogos de futebol.

Os treinadores dizem que o gato prevê o resultado do jogo seguinte, comendo a ração de uma das duas taças, identificadas com as bandeiras dos países das seleções que disputam a partida. Até ao momento, Aquiles previu os resultados de vários jogos, incluindo a vitória da Rússia sobre a Arábia Saudita e, posteriormente, sobre o Egito, a vitória do Irão no jogo contra Marrocos, assim como a do Brasil sobre a Costa Rita. Falhou nas previsões dos jogos que davam como certas as vitórias da Suíça sobre a Suécia e da Nigéria sobre a Argentina.

No ano passado, o felino previu os resultados de três dos quatro jogos de futebol da Taça das Confederações da FIFA. Mas, apesar das vozes populares que defendem as capacidades clarividentes do gato, os especialistas afirmam que Aquiles não é capaz de prever o resultado do Mundial de Futebol.  

FELINO DE LUXO

“Não estou convencida”, diz Kristyn Vitale, uma investigadora de felinos do Laboratório de Interação Humana e Animal da Universidade Estatal de Oregon. “Simplesmente não houve qualquer estudo sobre essa matéria.”

Vitale afirma que, tal como os humanos, os gatos tendem a manifestar preferência por um lado, por isso Aquiles pode ter escolhido uma taça em particular, apenas porque prefere o lado onde a taça se situa e não pela seleção que aquela representa.

Aquiles também pode ter escolhido determinada taça sugestionado pelas expressões ou comportamentos dos humanos em seu redor. No início do século XX, as pessoas acreditavam que um cavalo batizado Clever Hans sabia fazer contas. Quando alguém lhe pedia para fazer uma soma ou uma subtração, Hans acertava sempre no resultado. Mas quando a pessoa se escondia por detrás de uma barreira, Hans baralhava-se nas contas.

Como se veio a confirmar, o cavalo apreendia pistas subtis que o humano lhe dava, ora inclinando ligeiramente o corpo, ora olhando com entusiasmo. À semelhanca de Hans, Aquiles também pode sentir as reações positivas dos seus treinadores ou adeptos de futebol, que podem influenciar a escolha de determinada taça.

Os gatos sabem distinguir quantidades, afirma Vitale, e bastará que os treinadores coloquem inadvertidamente mais ração numa das taças, para que o gato manifeste preferência pelo recipiente com mais alimento.

“Isto pode significar que os gatos exploram mais o universo do que aquilo que somos levados a pensar ou são realmente sensíveis a pistas que nós não identificamos”, afirma Vitale. “Qualquer animal cognitivo tem a capacidade de observar o mundo em seu redor e estabelecer associações.”

PREVER O FUTURO

Esta não é a primeira vez que se debate a noção de futuro de um animal. Em 2005, Óscar, o gato do hospício, ganhou fama por ser capaz de identificar os pacientes com perturbações mentais que estavam perto da morte. O felino, habitualmente tímido, saía do seu refúgio para levar conforto aos doentes moribundos nas suas últimas horas.

“Uma pessoa morreu, depois duas…”, escreveu David Dosa, um investigador na área da saúde, num blogue sobre a perturbação mental, “nos últimos tempos, morreram cerca de 20 ou 30 pessoas, cujas mortes Óscar previu, sem que tivesse falhado uma, a tal ponto que as pessoas começaram a manifestar espanto pela peculiar capacidade do gato.”

Tal como Aquiles, outros animais revelaram dotes de previsão dos resultados dos jogos. O acerto das previsões de Paul, um polvo particularmente inteligente, causou surpresa, quando revelou os resultados do Mundial de Futebol de 2010, e Mani, o periquito psíquico, foi também notícia durante a mesma competição. Mais recentemente, um porco chamado Marcus terá também previsto os resultados dos jogos do Mundial de Futebol de 2018, assim como o vencedor do torneio de ténis de Wimbledon e o resultado da votação do Brexit.

“É um fenómeno cultural interessante que estejamos a voltar-nos para os animais, na esperança de que prevejam o futuro”, refere Vitale.

“Pode haver pessoas que ganhem afeto pelos animais por via desta aparente capacidade”, diz Lori Marino, uma neurocientista e especialista em comportamento e inteligência animal. “Mas, de uma forma geral, creio que é um aspeto mais negativo do que positivo.”

“Não existem evidências científicas sólidas que suportem a ideia de que os animais são dotados de capacidades psíquicas com dimensão sobrenatural”, diz Marino. “´Deixem os animais serem aquilo que são e parem de os instrumentalizar.“

Uma versão anterior desta história mencionava incorretamente Kristyn Vitale como Kristyn Vitale Shreve, uma doutoranda da Universidade Estatal de Oregon. A história foi atualizada.

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