Animais

Como Pode a Ciência Forense Ajudar o Animal Mais Traficado do Mundo?

Os investigadores desenvolveram um método simples e fácil de usar para recolher as impressões digitais nas escamas do pangolim.quinta-feira, 12 de julho de 2018

Por Rachael Bale
Um pangolim-de-cauda-longa, Manis tetradactyla, na República Democrática do Congo.

Os investigadores britânicos testaram um método para recolher as impressões digitais nas escamas do pangolim, um mamífero em risco de extinção, que se alimenta de formigas e térmitas, e que se acredita ser um dos animais mais traficados do mundo. Com recurso às convencionais folhas de gel usadas nos cenários de crime para recolher impressões digitais e outros elementos de prova, os investigadores da Universidade de Portsmouth, em Inglaterra, e a Sociedade Zoológica de Londres recolheram com sucesso impressões digitais nítidas nas escamas do pangolim. Desta forma, as autoridades policiais internacionais podem, no exercício da lei, fazer uso desta tecnologia simples para identificar os caçadores furtivos e os traficantes, que comercializam ilicitamente as escamas do pangolim.

Durante a última década, cerca de um milhão de pangolins foram caçados e traficados, essencialmente para a produção de medicamentos asiáticos tradicionais e como iguaria em restaurantes orientais. As quatros espécies do pangolim asiático estão seriamente ameaçadas de extinção, e a diminuição drástica dos números populacionais das espécies asiáticas desviou a atenção dos traficantes para as quatros espécies do pangolim africano, também estas em risco de extinção. O comércio internacional das oitos espécies de pangolins e partes dos seus corpos é, por conseguinte, proibido.

“Tanto quanto é do nosso conhecimento, nenhuma autoridade está a usar as tradicionais folhas de gel de recolha de vestígios para investigar um crime contra a vida selvagem, e esta é a primeira vez que foi feito o levantamento de impressões digitais, com valor probatório, nas escamas do pangolim”, escreveu Christian Plowman, um antigo detetive da New Scotland Yard e consultor em assuntos judiciais na Sociedade Zoológica de Londres. Plowman e o seu antigo chefe na Metropolitan Police, Brian Chappell, que leciona atualmente na Universidade de Portsmouth, tiveram a ideia durante uma pausa para o café.

“Estávamos a falar de um método simples e fácil de usar, que se adequasse a um vasto leque de ambientes geográficos e com o menor número de complicações possível”, disse Plowman.

Os kits de impressões digitais que usam pó, pincéis e fita consumiam muito tempo na recolha de vestígios e eram talvez demasiado grandes para os agentes no terreno, que têm de entrar e sair rapidamente de cena, por forma a minimizar a exposição aos caçadores furtivos, que podem ainda circular pela zona, afirmou Chappell. “Porque não experimentar as folhas de gel de recolha de vestígios?”, pensaram.

A técnica foi testada pelos investigadores da universidade que obteve as escamas de pangolins cedidas pelas autoridades alfandegárias do Reino Unido. Os investigadores verificaram que as escamas do pangolim passaram pelas mãos de diversas pessoas, tendo recolhido as respetivas impressões digitais, com recurso às tradicionais folhas de gel. As imagens obtidas foram, posteriormente, interpretadas por um leitor biométrico concebido para o efeito.

Os resultados iniciais eram promissores. Cerca de 90 por cento das impressões digitais recolhidas nas escamas dos pangolins de várias espécies reproduziam imagens com contornos nítidos e detalhados. Os guardas das reservas de vida selvagem em Cameroon e no Quénia testam atualmente o método no terreno. Segundo Plowman e Chappell, esta técnica já tinha sido usada pelos guardas quenianos para recolher impressões digitais das presas de marfim dos elefantes, e os investigadores da Universidade de Portsmouth conseguiram inclusive recolher impressões digitais das penas de algumas aves.

Jac Reed, um técnico forense sénior em Portsmouth e um antigo investigador criminal, que trabalhou neste projeto, disse que o valor deste método assenta no “baixo nível tecnológico”, que o torna bastante acessível.

“Esta técnica é também muito importante para combater o tráfico nos países em vias de desenvolvimento, que podem não ter acesso a tecnologias mais avançadas e equipamento forense dispendioso”, disse Reed num comunicado.

“Este novo método é um instrumento promissor no combate ao comércio ilegal de pangolins”, disse Paul Thomson, um biólogo na área da conservação e cofundador da organização Save Pangolins, sem fins lucrativos, que não esteve envolvido no projeto. Além disso, pode auxiliar os investigadores na identificação dos caçadores furtivos ou dos intermediários, mas, segundo Thomson, é essencial deter os cabecilhas destas redes de tráfico, pondo assim termo à atividade. “Estas técnicas avançadas devem ser aplicadas a cada etapa da cadeia da criminalidade contra a vida selvagem”, escreveu numa mensagem de correio eletrónico.

Mas os traficantes aprendem depressa, e Chappell admite que, caso esta técnica seja implementada em larga escala, é expectável que os traficantes comecem simplesmente a usar luvas. Mas, para além do potencial deste método no âmbito do trabalho de investigação e do processo criminal, ele é também a prova de que algumas técnicas existentes no seio das autoridades judiciais podem ser usadas no combate à criminalidade contra a vida selvagem.

Chappell sublinha que é muito importante manter a dinâmica deste processo, para mostrar aos criminosos que cada vez mais são usadas técnicas inovadoras que se destinam a prevenir e a identificar o tráfico de espécies selvagens.

Wildlife Watch é um projeto de divulgação de artigos de investigação, desenvolvido pela National Geographic Society, em colaboração com a National Geographic Partners, orientado para a exploração e o crime contra a vida selvagem. Conheça outras histórias da iniciativa Wildlife Watch aqui, e saiba mais sobre a missão, sem fins lucrativos, da National Geographic Society em nationalgeographic.org. Envie-nos as suas sugestões, opiniões e ideias de histórias em ngwildlife@natgeo.com.
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