Animais

Este Pássaro Entoa o Mesmo Canto Há 1000 Anos

A capacidade notável deste tico-tico-dos-pântanos americano de transmitir, na perfeição, o seu canto é um exemplo da passagem entre gerações de uma tradição cultural, dizem os especialistas. quarta-feira, 4 de julho de 2018

Por Annie Roth
Um macho do tico-tico-dos-pântanos entoa uma melodia antiga.

Todos os verões, os assobios melódicos de milhares de tico-ticos-dos-pântanos ecoam ao longo das zonas pantanosas da América do Norte. Estes pequenos pássaros, de penas castanhas, podem saber entoar poucos cantos, mas sabem-nos bem. Na verdade, eles não mudam de repertório há mais de 100 anos, segundo um novo estudo.

Os cientistas descobriram evidências de que o tico-tico-dos-pântanos, melospiza georgiana, tem entoado, provavelmente, as mesmas melodias há cerca de um milénio. Os tico-ticos juvenis reproduzem os cantos entoados pelos mais velhos com tal precisão, que o seu repertório musical se manteve, relativamente, inalterado durante esse tempo. Atualmente, os cientistas acreditam que estes tico-ticos preservam as suas tradições culturais com a mesma eficiência dos humanos, senão mais ainda. A equipa revelou as conclusões no dia 20 de junho, na revista Nature Communications.

“Demonstrámos que os tico-ticos-dos-pântanos raramente erram, quando aprendem os cantos, e eles não aprendem as melodias ao acaso, escolhendo as mais comuns em detrimento das mais raras”, afirma Robert Lachlan, um biólogo da Universidade Queen Mary de Londres e o autor principal do estudo.

Tal como os humanos, os juvenis do tico-tico-dos pântanos aprendem a comunicar imitando os adultos que os rodeiam. E, tal como os miúdos que aprendem apenas as músicas do momento, estes tico-ticos não memorizam todas as melodias que ouvem. Em vez disso, escolhem aprender as melodias que ouvem com frequência, uma estratégia de aprendizagem que os cientistas designam por predisposição conformista, a qual era tida até muito recentemente como um traço exclusivo da raça humana.

Entre 2008 e 2009, Lachlan e os seus colegas gravaram os chamamentos melódicos de 615 machos do tico-tico-dos-pântanos, que habitavam na região nordeste dos Estados Unidos. Com recurso a um software de análise acústica, os investigadores decompuseram cada composição melódica num conjunto de notas ou sílabas e avaliaram o nível de diversidade entre as composições.

A análise revelou que apenas dois por cento dos machos do tico-tico-dos-pântanos se desviaram do status quo musical.

Lachlan afirma que a combinação da predisposição conformista dos pássaros e a sua capacidade para imitar os mais velhos permite-lhes criar tradições, que persistem inalteradas durante séculos.

“Com estes dois ingredientes juntos, conseguem-se tradições, que são verdadeiramente estáveis. Os tipos de melodias que se ouvem hoje nos pântanos da América do Norte podem ser as mesmas que se ouviram há 1000 anos”, afirma Lachlan.

Este estudo é o primeiro a avaliar a longevidade das tradições musicais no âmbito de uma espécie de aves, e as suas conclusões são um ponto de partida para os cientistas na avaliação do impacto, causado pela perda de habitat, na evolução cultural das aves canoras.

“É realmente entusiasmante”, afirma Andrew Farnsworth, um ornitólogo da Universidade de Cornell. “Poder usar esta abordagem e estas conclusões para estabelecer comparações com as mudanças que decorrem da fragmentação e perda de habitat é realmente importante.”

As barreiras erguidas pelo Homem, tais como cidades, estradas e plantações, no seio do habitat de um animal podem transformar uma população indivisa num conjunto de grupos isolados, que raramente interagem.  Vários estudos demonstraram que este tipo de fragmentação pode impedir a transmissão cultural entre as populações de aves canoras.

Farnsworth espera que estudos futuros possam avançar “na mesma linha de trabalho”, referindo que “a noção de transmissão das tradições culturais é obviamente algo que nós, humanos, acarinhamos, e identificar esse potencial noutros organismos é absolutamente fascinante.”

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