As Orcas Atacam, Matam, Mas Não Comem as Presas

É impossível explicar por que motivo estas baleias assassinas não comem as suas presas, mas os especialistas apontam algumas possíveis razões.segunda-feira, 2 de julho de 2018

Por Elaina Zachos

Quando Jorge Cervera foi mergulhar com os amigos no mar de Cortez, em Baja, na Califórnia, tinha um propósito em mente: encontrar orcas. Entrar na água na presença de orcas é incrivelmente raro, diz Hauser, e assistir àquilo que estavam prestes a assistir mais raro ainda.

“Há sete anos que tenho esta obsessão por orcas”, diz Hauser, diretor-geral da operadora turística Pelagic Feet, “e sinto sempre uma certa nostalgia”.

Depois de uma hora a nadar, a equipa avistou um grupo de baleias brancas e negras.

“No total, eram cerca de seis orcas distribuídas por grupos de duas ou três. Cada vez que saltávamos para a água, elas aproximavam-se para nos analisar”, lembra Hauser. “Mas, por volta do décimo salto, algo mudou.”

As orcas repararam numa raia que tinha vindo à superfície, possivelmente para dar à luz, diz Hauser. E, em vez de passarem ao lado dos mergulhadores, as orcas começaram a brincar com a raia: nadando em seu redor, batendo-lhe e agarrando-a para a submergir a maior profundidade.

Hauser diz que a raia ficou imediatamente aturdida com a primeira pancada e que estava demasiado fraca e desorientada para tentar sequer escapar aos predadores. Este comportamento prolongou-se por cerca de uma hora e meia, até as orcas matarem a raia.

Os mergulhadores pensavam que, depois de a matarem, as orcas comeriam a presa. Mas, em vez disso, as orcas deixaram o corpo do animal morto afundar-se nas águas do oceano.

Veja uma Orca a Bater com a Cauda numa Raia - para "Brincar"
Veja uma Orca a Bater com a Cauda numa Raia - para "Brincar"
Um encontro tão próximo com orcas na Baja California é raro. O mergulhador e cineasta Jorge Cervera Hauser, e esta raia, estão surpresos com o sucedido. Uma das orcas usa a poderosa cauda para atordoar a raia. Por vezes, as orcas agitam a cauda como “brincadeira”, mas acabam por comer o animal atordoado ou morto. Embora as orcas comam raias, Hauser acredita que estas estavam a “exibir-se”. Elas bateram e cercaram a raia durante mais de uma hora, antes de a deixar afundar no mar sem ser ingerida. Ainda que ele pudesse ter sido esbofeteado pela cauda, diz Hauser, “foi a experiência subaquática mais incrível que tive na minha vida”.

“Já tive a oportunidade de nadar perto de grandes tubarões brancos, crocodilos de água salgada e até mesmo anacondas e fotografá-los”, recorda Hauser. “Mas a interação que me foi dada a viver e o comportamento que pude testemunhar foram, sem sombra de dúvida, a experiência subaquática mais extraordinária da minha vida.”

JOGO SUJO

As raias são uma presença habitual no Golfo da Califórnia e são conhecidas por serem o alimento de base da dieta alimentar das populações de orcas. Estes cetáceos, por sua vez, são conhecidos por brincar com as suas presas, antes de as comerem.

“Neste caso em particular, as orcas estavam apenas na brincadeira”, afirma Hauser.

Os especialistas dizem que este comportamento não é invulgar. “As baleias assassinas e muitos predadores matam, com frequência, seres que não comem, talvez por brincadeira, talvez para desenvolver ou aperfeiçoar a destreza”, escreve Robert Pitman do Departamento de Investigação do Ecossistema das Pescas da Antártida da Administração Nacional para a Atmosfera e Oceanos, numa mensagem de correio eletrónico. “Já vi um grupo de baleias assassinas perseguir um pinguim durante cerca de uma hora e meia na Antártida, matá-lo e deixá-lo a flutuar à superfície. Noutras ocasiões, as orcas comem, por norma, os pinguins.”

Mas as raias podem ser perigosas para as orcas, afirma David Bain, vice-presidente da Orca Conservancy, com sede em Seattle. As farpas que compõem a cauda de uma raia podem facilmente ferir uma baleia jovem, sem experiência, que invista contra uma raia.

Hauser diz que, quando batiam na raia, as orcas olhavam na sua direção, como se estivessem a exibir-se à frente dos mergulhadores.

“No início, não nos deram muita atenção e só se aproximavam para nos analisar e iam-se logo embora, mas, quando encontraram a raia, o jogo mudou”, escreve Hauser por correio eletrónico. “Era como se estivessem a tentar mostrar-nos aquilo que estavam a fazer e alternassem entre a interação com a raia e connosco. Durante mais de uma hora vivemos momentos tipo “Mãe, olha para mim!.”

Embora seja possivel que as orcas estivessem a exibir-se, Bain afirma que é mais provável que as baleias estivessem a ameaçar os mergulhadores.  Também podem ter estado a brincar com a raia para melhorar a destreza ou até podem não se ter sentido confortáveis a comer em frente de humanos.

Ou pode ter havido falhas de comunicação entre os elementos do grupo, afirma Bain. As orcas mais jovens podem ter matado indevidamente a raia, pensando que servisse de alimento a uma orca mais velha.

“É impossível apontar uma razão pela qual as orcas não comeram a presa”, diz Bain. “Por vezes, os miúdos têm uma ideia daquilo que querem fazer, mas os pais não alinham no espírito.”

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