Animais

Podem os Lobos de Chernobyl Transmitir Mutações?

Um novo estudo levanta a possibilidade de que os lobos eurasiáticos de Chernobyl possam estar a transmitir mutações decorrentes da radiação às outras populações de lobos.segunda-feira, 30 de julho de 2018

Por Douglas Main
Não está identificado o número de lobos em Chernobyl que possam ter sido afetados pela radiação, ainda que a sua população esteja a aumentar, levantando questões sobre a forma como estes espécimes possam estar a afetar o ambiente envolvente.

Os animais selvagens vagueiam livremente em torno da central nuclear de Chernobyl, no norte da Ucrânia, o local do pior desastre nuclear do mundo, que libertou uma imensa nuvem radioativa que se propagou e contaminou a região, em 1986.

Os estudos sugerem que um número expressivo de lobos eurasiáticos e outros animais de grande porte vivem na Zona de Exclusão de Chernobyl, uma área com cerca de 2590 quilómetros quadrados, com a dimensão aproximada da ilha de Rhode Island, de onde foi evacuada toda a população e onde não é possível regressar.

Embora a zona não seja habitada por humanos, os animais não estão a salvo da radiação e dos efeitos na saúde, uma área de investigação ativa e, por vezes, controversa. Persistem ainda muitas interrogações em torno das mutações possíveis, causadas pela radiação, nas várias espécies de animais e da eventual propagação a áreas exteriores.

UM PERCURSO ÉPICO

Numa experiência recente, os investigadores seguiram o rasto de 13 lobos, com coleiras que mediam os índices de radiação, e descobriram, sem surpresa, que os animais estavam expostos a níveis mais elevados de radioatividade, quando circulavam em áreas com maior índice de contaminação. Mas uma observação no estudo, publicado no European Journal of Wildlife Research, despertou a atenção da comunidade científica: um jovem macho com colar percorreu 402 quilómetros para fora da região, primeiro seguindo para este em direção à Bielorrússia, depois à Ucrânia e, por fim, à Rússia.

Este é o primeiro registo da migração de um lobo numa grande distância, partindo do interior da Zona de Exclusão de Chernobyl para as áreas circundantes, diz o coordenador do estudo Jim Beasley, um ecologista da vida selvagem da Universidade da Georgia, nos Estados Unidos.

Os lobos jovens machos são conhecidos por percorrer grandes distâncias à procura de parceiras para acasalar, por isso o episódio em si não causa grande estranheza, diz Beasley, mas é mais um elemento de prova que sugere a presença de vastas populações de animais na região de Chernobyl.

“Sabemos que a população de lobos na Zona de Exclusão de Chernobyl é elevada”, afirma o primeiro autor do estudo Michael Byrne, que se dedica ao estudo da ecologia e da migração de animais, na Universidade do Missouri. “É de esperar que, quando uma qualquer população atinge um determinado número, haja uma capacidade máxima de indivíduos, levando os mais jovens a dispersar-se”.

“Chegou a altura dele sair e fazer-se à vida”, diz Byrne, em jeito de brincadeira.

Segundo o autor, este percurso épico levanta também outra interrogação: podem ou não os animais transmitir mutações às populações de lobos que habitam no exterior da Zona de Exclusão de Chernobyl?

TRANSMISSÃO E PROPAGAÇÃO DE MUTAÇÕES?

Estudos efetuados noutros animais, na sua maioria de pequeno porte, como aves, roedores e insetos, mostram que a radiação de Chernobyl pode causar mutações e ter efeitos nefastos na saúde, afirma Tim Mousseau, um biólogo da Universidade da Carolina do Sul, que não participou no novo estudo.

Segundo Mosseau, estudos desenvolvidos em animais como andorinhas-das-chaminés e ratos-do-campo sugerem que estas mutações podem ser transmitidas às gerações seguintes. Estes pequenos animais também são passíveis de transferir para o ambiente contaminantes radioativos através dos seus movimentos, sublinha Mosseau.

Mas até ao momento, o panorama não é tão claro no que respeita à população de lobos, afirma. “É certamente admissível”, diz, embora não haja registo de vastas populações de lobos nas imediações de Chernobyl, às quais seja possível transmitir estas mutações.  Nos animais de pequeno porte que habitam a área, a exposição à radiação tem sido associada a tumores, cataratas, cérebros mais pequenos e algumas deficiências de desenvolvimento.

Anders Møller, um cientista da Universidade de Paris-Sud, argumenta que, uma vez que a maioria das mutações têm efeitos perniciosos, é pouco provável que um lobo afetado pela radiação tivesse sido capaz de percorrer distâncias tão grandes. Além disso, Møller refuta a ideia de que a população de lobos possa estar a aumentar em Chernobyl, conforme sugerem alguns cientistas, que afirmam que as populações de lobos também estão a prosperar na Europa.

A RADIAÇÃO

Em linha contrária, o trabalho de Møller mostra que as áreas críticas, com níveis de radiação elevados, apresentam um baixo índice populacional de vida selvagem, admitindo que os animais que habitam estas zonas possam sofrer danos genéticos. A paisagem de Chernobyl é bastante diversa, uma grande parte permanece intocada, enquanto algumas zonas ainda registam elevados níveis de radiação.

“Posso ir de olhos vendados a uma zona ao acaso em Chernobyl e sou capaz de lhe dizer o nível de radiação de base, em função do número de pássaros que habitam a zona” e da quantidade de cantos audíveis, afirma Møller.

Uma das questões debatidas centra-se na necessidade compreender a dimensão do papel de Chernobyl enquanto fonte ou sumidouro das populações de animais que habitam em redor. Byrne e os colegas acreditam que a região pode ser uma fonte para o aumento demográfico da população de lobos, e, se assim for, tal significa que qualquer dano genético causado pela radiação pode estender-se a outras populações da espécie.

Os autores sublinham a necessidade de desenvolver novos estudos para dar resposta às interrogações que surgiram no decurso do trabalho de investigação.

“Eu não quero afirmar que os animais de Chernobyl estão a contaminar o mundo”, afirma Byrne. “Mas se existem quaisquer outras formas de mutação que podem ser transmitidas, há que tomá-las em linha de conta.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês em nationalgeograhic.com.

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