Como o Excesso de Imagens de Animais Pode Comprometer a sua Sobrevivência

O uso de imagens de animais carismáticos nos vários espaços e plataformas pode, eventualmente, distorcer a forma como percecionamos as suas populações selvagens.

Por Cecelia Smith-Schoenwalder
Publicado 20/08/2018, 15:19

Representações generalizadas de animais na cultura pop, em anúncios, filmes, fotografias e lojas de brinquedos, podem, na realidade, comprometer as hipóteses de sobrevivência dos animais na natureza, sugere um novo estudo.

Franck Courchamp da Universidade de Paris-Sud ficou intrigado com a noção de carisma que as pessoas reconhecem nos animais. Courchamp queria saber: que espécies as pessoas consideram carismáticas? E quais as implicações de ter o tal fator para as populações de animais que habitam na natureza selvagem?

Courchamp e outros investigadores pediram a mais de 4500 pessoas de 69 países, que participaram num inquérito online, para classificar as espécies que consideravam mais carismáticas. Os investigadores também consideraram a informação recolhida em inquéritos feitos em escolas, páginas web de jardins zoológicos e cartazes de desenhos animados.

Num estudo publicado este mês na revista PLOS One, os investigadores elaboraram uma lista com as espécies mais carismáticas. A maioria dos animais identificados como carismáticos são mamíferos terrestres, de grande porte. No topo da lista, surgiam os tigres, seguidos dos leões, elefantes, girafas, panteras, pandas, chitas, ursos polares, lobos e gorilas.

“Um denominador comum é que temos de ter um elemento que nos impressione de uma forma ou de outra, e o tamanho impressiona as pessoas”, diz Courchamp.

Apesar dessa uniformidade, o estudo revelou que os participantes descreviam cada espécie apoiando-se num conjunto de traços: raro, ameaçado, belo, adorável, impressionante e perigoso. Na lista das 20 espécies, apenas os tubarões falharam um dos seis traços, não tendo sido designados como adoráveis.

Um jovem chimpanzé espreita através da folhagem no Parque Nacional de Taï, na Costa do Marfim.
Fotografia de MICHAEL NICHOLS, NATIONAL GEOGRAPHIC CREATIVE

POPULAÇÕES VIRTUAIS

Os investigadores queriam também saber se o carisma dos animais jogava a seu favor e perguntaram aos inquiridos sobre o estado de conservação das várias espécies. Pelo menos metade dos inquiridos não se apercebeu que cinco das dez espécies dos animais mais carismáticos estavam ameaçadas.

Esta parte do estudo, que foi publicado separadamente na revista PLOS Biology, revelou que as pessoas estavam ao corrente da situação difícil dos pandas, tigres e ursos polares, mas desconheciam a condição precária dos leões, das chitas, dos gorilas e das girafas.

E apenas uma espécie da lista dos dez mais carismáticos, conforme apurado neste estudo, não estava ameaçada a nível mundial: os lobos-cinzentos, Canis lupus.

O estudo também revelou que estamos inundados de imagens destas criaturas, mesmo quando os números populacionais tendem a diminuir na natureza. Por exemplo, o francês deverá ver em média cerca de quatro leões por dia em anúncios e outras representações da cultura pop, vendo num ano um número de animais superior àquele que existe em toda a região da África Ocidental.

O estudo sugere que este excesso de imagens pode contribuir para criar “uma população virtual” de animais na mente das pessoas, levando-as a acreditar de que existem na natureza mais indivíduos do que aqueles que existem na realidade.

“Precisamente porque os vemos em todo o lado, não nos apercebemos de que estes animais estão ameaçados de extinção, e não nos empenhamos como deveríamos para os proteger”, diz Courchamp.

As conclusões põem em evidência uma preocupação importante, diz Scott Creel, um professor na área da biologia de conservação e da ecologia da Universidade Estatal de Montana. “Sobressai o facto de as pessoas desconhecerem a condição na natureza de muitos animais que consideram carismáticos”, diz Creel.

Creel sugere que as espécies consideradas carismáticas têm qualidades que levantam dificuldades à sua conservação. Os vertebrados de grande porte vivem muitos anos, percorrem grandes distâncias e enfrentam a ameaça da caça furtiva, todos eles aspetos que tornam estes animais difíceis de salvar, explica Creel.

Joe Walston, vice-presidente para os programas de conservação no terreno da Wildlife Conservation Society. disse que não deixa de ser paradoxal que não tenhamos sido capazes de proteger as espécies que mais acarinhamos.

“Creio que estes dois estudos sublinham um aspeto muito importante: que a condição das espécies mais acarinhadas no mundo é mais precária do que as pessoas imaginam, pelo que merecem mais atenção e maior empenho na sua conservação do que aqueles que lhes temos dedicado”, diz Walston.

CONTRIBUIR PARA CONSERVAR

A ideia das “populações virtuais” tem força, mas os cientistas, com quem a National Geographic falou, realçaram, tal como Courchamp, que não foi estabelecida ainda qualquer relação causal entre as representações omnipresentes de animais e as impressões do público sobre a sua abundância na natureza ou o seu estado de conservação. Mas é uma área promissora para novos estudos, afirmam.

Os autores do estudo sugerem que as empresas que beneficiam do uso destas imagens deviam afetar uma pequena percentagem dos respetivos lucros aos esforços de conservação e campanhas de informação.

“Isso não só seria justo, como também poderia beneficiar todos os envolvidos”, diz Courchamp.

Para as entidades envolvidas é uma forma positiva de projetar a respetiva imagem junto do público, por exemplo. Além disso, se a mascote de uma empresa é declarada extinta, isso poderá afetar a organização numa perspetiva de marketing, diz o Courchcamp.

Algumas empresas levam isto muito a sério, afirma o investigador, sublinhando os esforços de conservação desenvolvidos por marcas como a Jaguar e a Lacoste. Mas é pequeno o número de empresas que “revelam uma preocupação genuína pela conservação das espécies em torno das quais desenvolvem o seu trabalho”, acrescenta.

THE LION’S SHARE

A ideia de que os anunciantes paguem para apoiar os animais que retratam pode estar a conquistar terreno.

No mês passado, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento anunciou The Lion’s Share, uma iniciativa que pedia aos anunciantes, que usam representações de animais, que contribuíssem com apoios para as criaturas e respetivos habitats.

“As imagens de animais aparecem em cerca de 20 por cento da publicidade que vemos. No entanto, e apesar disso, os animais nem sempre recebem o apoio que merecem. Até agora.”, afirmou num vídeo de promoção da campanha o embaixador de The Lion’s Share, Sir David Attenborough.

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, que administrará o fundo, tenciona angariar cerca de 87 milhões de euros por ano, em três anos. O dinheiro destina-se a dar suporte aos programas de conservação da vida selvagem e do bem-estar dos animais, implementados pelas Nações Unidas e por organizações da sociedade civil.

Para Courchamp, esta iniciativa “é uma notícia empolgante”.

“Foram exatamente essas as nossas recomendações, e parece que estamos a dar os primeiros passos na direção certa”, afirma.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeograhic.com.

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