Como Podemos Estudar as Baleias Ameaçadas de Extinção? Através das Secreções Nasais.

Uma nova técnica permite aos cientistas medir, com rigor, os níveis hormonais das baleias, através da análise do muco nasal que estas criaturas expelem ao emergir à superfície para respirar.

Friday, August 3, 2018,
Por Jason Bittel
Peculiar aparelho, de certa forma semelhante a um alcoolímetro.
Este peculiar aparelho, de certa forma semelhante a um alcoolímetro, consegue recolher o muco nasal de uma baleia para efetuar medições científicas, que fornecem informações sobre a saúde destes cetáceos. Esta fotografia foi tirada ao abrigo da licença #14233 emitida pela Administração Nacional para a Atmosfera e Oceanos e de uma licença do Departamento de Pesas e Oceanos do Canadá, em conformidade com a legislação que regula as espécies em risco.
Fotografia de Anderson Cabot Center for Ocean Life, New England Aquarium

Ficará surpreendido com a quantidade de informação que se pode recolher a partir do espiráculo de uma baleia.

Os cientistas levam quase uma década a tentar recolher informações de relevo a partir do ar e líquidos expelidos pelas baleias. Os líquidos presentes nas exalações de uma baleia contêm informações importantes sobre a sua maturidade reprodutiva, o tempo de gestação, o metabolismo e os níveis de stress.

Existem formas de obter o jato de líquidos expelidos pelas baleias, acompanhando os animais que emergem à superfície, recolhendo amostras das exalações, com um cabo telescópico, e recuando logo que possível para não causar qualquer tipo de perturbação nos animais. Alguns investigadores conseguiram recolher amostras com recurso a drones equipados com caixas de Petri.

Mas, uma vez recolhidas as amostras, as exalações das baleias e a sua utilidade na investigação ficam muitas vezes comprometidas pela água salgada.

Uma vez que as baleias emergem à superfície do oceano para respirar, a água salgada mistura-se com os líquidos que expelem, diluindo as amostras, à semelhança de um alcoolímetro que identifica a presença de álcool, sem que consiga, no entanto, quantificar a respetiva concentração.

Felizmente, existe um método que permite extrair o material relevante da exalação de uma baleia, segundo um novo estudo publicado na revista Scientific Reports. Ao medir uma substância conhecida por ureia, um subproduto natural do metabolismo presente no sangue, na urina e nas exalações, os investigadores podem determinar, com rigor, o grau de diluição da amostra recolhida.

Desta forma, a ureia é uma espécie de descodificador que permite aos cientistas registar valores exatos para as hormonas e outros marcadores biométricos.

“Esta ferramenta tem, efetivamente, o potencial para ampliar a nossa perspetiva”, afirma Elizabeth Burgess, uma cientista assistente no Anderson Cabot Center for Ocean Life, no Aquário de Nova Inglaterra, e a principal autora do estudo que descreve esta técnica.

AS BALEIAS CERTAS PARA O TRABALHO

Segundo Burgess, nem ela, nem os coautores do estudo teriam ainda descoberto a importância da ureia, se não se tivessem cruzado com as baleias certas, as baleias-francas-do-Atlântico-Norte, Eubalaena glacialis, que habitam as águas gélidas naquela região.

Apesar de existirem pouco menos do que 450 espécimes destes gigantes ameaçados de extinção, as baleias-francas-do-Atlântico-Norte são uma das espécies mais estudadas do planeta. Os cientistas mantêm uma lista de cada indivíduo que integra a população, incluindo detalhes como o sexo, idade, genética e historial de reprodução.

A equipa usou a informação de que dispunha sobre as baleias-francas-do-Atlântico-Norte para recolher amostras dos níveis hormonais encontrados nas exalações destes cetáceos e confrontaram-nas com as amostras recolhidas com recurso a outros métodos, tais como amostras de sangue e de fezes.

“Baseámo-nos em mais de 40 anos de recolha de amostras do Consórcio da Baleia-Franca-do-Atlântico-Norte, catalogadas pelo Aquário de Nova Inglaterra”, afirma Burgess.

Diane Gendron, uma bióloga marinha do Instituto Nacional Politécnico do México e pioneira no campo da investigação das exalações das baleias, considerou o novo estudo “muito importante para a monitorização a longo prazo”, uma vez que é muito mais simples obter amostras de exalações destas criaturas do que amostras fecais.

Afinal de contas, nunca se sabe quando é que uma baleia poderá defecar.

A análise da ureia poderá ajudar os cientistas a compreender melhor a fisiologia das baleias, incluindo a forma como estes animais respondem aos fatores de stress, como a poluição sonora e os enredamentos em equipamentos de pesca, atualmente a primeira razão de morte das baleias-francas-do-Atlântico-Norte.

Para as baleias-francas-do-Atlântico-Norte, esta descoberta científica veio fora de tempo. Passaram-se quase 20 anos desde que os investigadores identificaram uma nova cria no seio da população, e alguns especialistas temem que a espécie se extinga dentro de 20 anos.

O MUNDO MARAVILHOSO DO MUCO NASAL DAS BALEIAS

Embora as baleias-franca-do-Atlântico-Norte sejam a espécie mais ameaçada, estão longe de ser os únicos animais com espiráculo a beneficiar de um alcoolímetro melhorado.

Na Universidade de Manitoba, Justine Hudson, estudante a frequentar o mestrado, passa dias no terreno tentando recolher amostras das secreções nasais das baleias-brancas para medir os níveis de stress na população.

“Este estudo contribuirá, efetivamente, para a minha investigação”, afirma Hudson. “As nossas amostras contêm muita água, porque estamos a recolhê-las de baleias-brancas que nadam livremente nas águas, o que torna difícil quantificar o volume de vapor exalado presente na amostra”.

Tal como no caso das baleias-francas-do-Atlântico-Norte, encontrar formas de estudar as baleias-brancas, sem causar perturbação, é o objetivo.

“O nosso trabalho é desenvolvido em Churchill, Manitoba, e os membros da comunidade pediram-nos que estudássemos as baleias-brancas da forma menos invasiva possível”, diz Hudson.

“A recolha de amostras não invasivas é igualmente importante para o estudo dos níveis de stress, porque muitas das técnicas usadas para estudar o stress”, como por exemplo a recolha de amostras de sangue, “podem desencadear respostas de stress”.

É sempre entusiasmante fazer parte de algo novo, diz Burgess. Mas participar no aperfeiçoamento de uma nova técnica traz consigo “uma emoção especial extra”. Técnica essa que poderá vir a ser utilizada por outros biólogos dedicados ao estudo das baleias em formas nunca antes pensadas”.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês em nationalgeograhic.com.

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