Como Reagem os Animais Selvagens aos Incêndios?

Os grandes incêndios, como aqueles que lavram na Califórnia do Norte, podem ferir alguns animais e, enquanto a maioria tenta escapar às chamas, algumas espécies prosperam. quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Por Sarah Zielinski, Elaina Zachos
Esta história foi originalmente publicada no dia 14 de setembro de 2015, tendo sido atualizada a 30 de julho de 2018, com informações sobre os incêndios mais recentes que atingem a Califórnia.

Neste momento, dezenas de incêndios lavram em várias regiões do mundo. No início de julho, um incêndio de grandes proporções atingiu a Grécia, e o calor constante e o tempo seco que se fazem sentir este verão prepararam o terreno para os incêndios que deflagraram na Suécia, Noruega, Finlândia, Espanha e Inglaterra. Na América do Norte, estados como a Califórnia, o Oregon e o Alasca relataram incêndios persistentes e mortíferos, que já consumiram milhões de hectares de terra só este ano.

Atualmente, os incêndios na Carolina do Norte deixam à sua passagem um rasto de destruição. O incêndio de Carr, em Redding, uma cidade situada a 260 quilómetros a norte de Sacramento, já reclamou várias vidas e destruiu centenas de edifícios. Mas, para algumas espécies de animais selvagens, que evoluíram com o fogo, o cenário não é assim tão sinistro.

Nestas regiões, “a vida selvagem mantém uma longa relação com o fogo”, disse numa entrevista anterior a ecologista de ecossistemas Mazeika Sullivan da Universidade Estatal de Ohio. “O fogo é um elemento natural destas paisagens.”

Muitos animais têm a capacidade de fugir ao calor. Os pássaros podem voar para longe, os mamíferos podem correr e os anfíbios e outras criaturas pequenas refugiam-se no subsolo, escondem-se no interior de troncos ou procuram abrigo por baixo das rochas. E outros animais, incluindo os de grande porte como o alce, procuram refúgio em ribeiros e lagos.

UMA VANTAGEM SURPREENDENTE

Gabriel d'Eustachio, um bombeiro florestal na Austrália, conta que, em 2014, assistiu a um movimento em massa de pequenos invertebrados, que fugiam das chamas. “Somos ultrapassados por esta onda de bicharada rastejante que se antecipa às chamas”, afirma.

Os fogos podem beneficiar os predadores que se alimentam dos animais em fuga. Ursos, guaxinins e aves de rapina, por exemplo, foram vistos a caçar criaturas a fugir das chamas. Alguns estudos sugerem que várias espécies de aves podem inclusive ajudar a disseminar o fogo na Austrália e, ao fazê-lo, podem precipitar a fuga de pequenos animais, movidas pelo instinto de caça.

"Nessas situações de curto prazo”, como quando os animais fogem das chamas, “há sempre vencedores e vencidos”, explica Sullivan.

Um nível moderado de fogo em zonas onde este ocorre de forma natural pode também aumentar a mancha florestal e criar uma maior diversidade de micro-habitats, desde campos a céu aberto a florestas regeneradas, conforme sugerem alguns estudos. Uma diversidade de biomas suporta múltiplas espécies de animais e o ecossistema como um todo.

Os cientistas não dispõem de estimativas razoáveis sobre o número de animais que morrem, anualmente, em incêndios, até mesmo os mais devastadores, que dizimam populações ou espécies inteiras.

Alguns animais morrem asfixiados pelo fumo ou engolidos pelas chamas, geralmente aqueles que não correm suficientemente depressa ou encontram abrigo que os proteja. Os animais jovens e pequenos são grupos particularmente vulneráveis em situações de incêndio, e algumas das suas estratégias de fuga podem não ser muito eficazes, por exemplo o instinto natural de um coala levá-lo-á a trepar uma árvore, correndo o risco de ficar encurralado.

O calor também pode matar, até mesmo os organismos que habitam nas profundidades do subsolo, tais como os fungos. Jane Smith, uma micóloga do Serviço Florestal dos Estados Unidos, em Corvallis, no estado de Oregon, registou temperaturas tão altas como 700o Celsius por baixo dos troncos, consumidos pelas labaredas, e 100o Celsius a cinco centímetros abaixo da superfície.

AUMENTOS DAS NUVENS PIROCUMULO

Os incêndios da Califórnia afetam mais do que uma vida orgânica. As altas temperaturas, em particular, estão a formar novas nuvens, denominadas nuvens pirocumulo ou nuvens de fumo. As nuvens pirocumulo, geradas habitualmente por erupções vulcânicas, formam-se rapidamente quando o calor esgota a humidade da vegetação, que se agarra às partículas de fumo e condensa à medida que aquelas sobem. Estas nuvens gigantes, de tom cinzento escuro, estão saturadas de fumo e cinza e podem atingir quase oito quilómetros de altura.

Em alguns casos, as nuvens pirocumulo contêm humidade suficiente para desencadear chuvas intensas que extinguem os incêndios. Mas, na Califórnia, as nuvens estão a dificultar os esforços de combate ao fogo. As nuvens pirocumulo podem levar a mudanças drásticas e súbitas de temperatura, gerando ventos imprevisíveis e extremos, os quais podem avivar as chamas de um incêndio.

AGENTES DE MUDANÇA

As áreas selvagens como as florestas e as pradarias crescem naturalmente e mudam a sua composição ao longo do tempo. Uma floresta com um ano terá uma fauna e flora diferentes daquelas que habitam uma floresta com 40 anos. Uma perturbação como um incêndio de grandes proporções pode servir como uma espécie de botão de reiniciação, que abre caminho ao nascimento de uma nova floresta, diz Patricia Kennedy, uma bióloga da vida selvagem da Universidade Estatal de Oregon, em Union. E “muitas espécies precisam desta reiniciação.”

O que acontece exatamente depois de um incêndio depende da paisagem, da gravidade do incêndio e das espécies envolvidas. Mas o evento desencadeia sempre uma sucessão de mudanças, à medida que plantas, micróbios, fungos e outros organismos recolonizam a terra queimada. O envelhecimento de árvores e plantas implica mudanças na luz e noutros aspetos, que se repercutem na composição das espécies de criaturas, que habitam a área.

Os ribeiros e outras massas de água que fluem através da área ardida também podem mudar. O fluxo de água, a turvação, a química e a estrutura podem ser alterados. Os peixes podem migrar temporariamente para outras zonas. E os invertebrados aquáticos podem ir morrendo sucessivamente, afetando os animais em terra.

"A água e a terra”, diz Sullivan, “estão intimamente ligadas.”

DEIXA-SE ARDER?

Muitas espécies precisam, efetivamente, do fogo como uma parte da sua história de vida. O calor das chamas pode estimular alguns fungos, como os morchella, levando-os a libertar esporos. Algumas plantas apenas produzem semente após um incêndio. Sem fogo, esses organismos não conseguem reproduzir-se e tudo aquilo que dependa deles será afetado.

Embora um fogo possa ter resultados positivos inesperados para algumas espécies, o excesso de incêndios têm consequências nefastas para a maioria. Desde o início da década de 1970, a época de incêndios na zona oeste dos Estados Unidos aumentou de cinco para mais de sete meses. As alterações climáticas estão a provocar o aumento das temperaturas, fazendo com que o gelo no cume das montanhas derreta e tornando as florestas, privadas de humidade, mais suscetíveis aos incêndios.

Tal como Kennedy afirma, um incêndio é um acontecimento negativo, quando acontece no nosso quintal. Mas até certo ponto, pode ser um evento saudável para uma floresta e, pelo menos, para alguns dos animais que a habitam.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeograhic.com.

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