Do Ódio à Admiração, e Hoje Sob Ameaça: Eis a Narrativa das Baleias Assassinas

Quanto mais aprendemos sobre as orcas, mais as adoramos. Mas podem as baleias assassinas sobreviver às mudanças drásticas que agridem o seu mundo?

Saturday, August 18, 2018,
Por Simon Worrall

Não se passaram muitos anos desde o tempo em que as baleias assassinas eram vistas como pragas violentas, abatidas a tiro, mortas com arpão, e até com balas de metralhadora por baleeiros, pescadores e organismos governamentais. Atualmente, o mundo aprendeu a admirar estas elegantes criaturas não apenas como predadoras de topo, mas também pelas suas sociedades complexas e pela sua capacidade de viver a dor. Mas, tal como Jason Colby explica no seu mais recente livro, Orca, a nossa relação de amor com as baleias assassinas pode ter surgido demasiado tarde, num tempo em que a diminuição das populações de peixes, a poluição marinha e outras forças empurram estas criaturas no caminho da extinção.

Quando a National Geographic conversou com Colby no Havai, o historiador canadiano explicou como as orcas manifestam comportamentos sociais complexos e inclusive sofrimento, por que um novo oleoduto, envolto em controvérsia, ameaça a sobrevivência destes cetáceos no Canadá, e como a escrita deste livro representou também uma viagem de redenção pessoal.

No livro, refere algumas razões interessantes que explicam a atração dos humanos pelas baleias assassinas. Fale-nos sobre essas mesmas razões.

A atração das pessoas pelas orcas surgiu em lugares e contextos diferentes, por uma multiplicidade de razões. No início, quando ainda sabíamos relativamente pouco sobre estas criaturas, havia algo muito dramático neste predador branco e preto, com dentes de lobo, que surgia na neblina da região nordeste. Mas, à medida que as fomos conhecendo melhor, as pessoas começaram a admirar aquilo que chamaríamos de laços familiares. Isso transformou a nossa perceção sobre estes cetáceos. Temos tendência para apreciar os animais que nos lembram a nós mesmos, com características que imaginamos em nós próprios. Essa é a razão do fascínio humano pelos laços familiares das orcas, sobretudo pelos seus grupos matriarcais. Estabelece-se um paralelo de emoções, que nos leva a ver estes seres de forma diferente e não como predadores solitários, como o grande tubarão-branco.

Fotografia de Cortesia de Oxford University Press

Quer em cativeiro, quer na natureza, as interações destes animais são muitas vezes afetuosas e complexas, que nós tendemos a reconhecer como interação cultural. As populações que temos na região nordeste têm os seus itinerários e práticas culturais. Por exemplo, os habitantes do Norte têm este spa de baleias em Bight, onde esfregam a pele em seixos macios nas proximidades da praia. Parece que esta é uma prática corrente entre as baleias, que lhes permite interagir socialmente.

Os habitantes do Sul têm um ritual fascinante quando se cruzam com um semelhante. As baleias dispõem-se praticamente em linha reta, com 100 ou 200 metros de distância, param e esperam um momento, e depois cumprimentam-se numa agitação frenética, que parece que encontraram entes queridos dos quais há muito haviam perdido rasto.

Sugere inclusive que estes cetáceos podem cometer suicídio. Fale-nos sobre Haida e a sua dor, e como um flautista ajudou na sua recuperação.

Algumas pessoas defenderam que os cetáceos cometem suicídio, como Richard O’Barry, um ativista que se opõe aos golfinhos em cativeiro do Dolphin Project, em Miami, e que esteve envolvido na realização do documentário The Cove, ou A Baía da Vergonha em português. O’Barry sugere que um dos seus golfinhos, que estava doente ou deprimido, se suicidou. Não nego que isso não aconteça, apenas não abordo essa questão no livro.

Haida é outro exemplo poderoso do tipo de relações que as orcas estabelecem. Este macho tinha vivido vários anos em cativeiro, na companhia de uma outra orca, chamada Chimo, também ela muito peculiar, e que viria a morrer mais tarde. Haida entrou então numa fase que os seus tratadores definiram como depressiva. Alguns afirmam que Haida também estava doente, mas parecia que este macho vivia numa espécie de melancolia.

Uma das formas que retirou Haida do estado depressivo foi a interação com um famoso flautista de jazz chamado Paul Horn, que tocou para Haida, arrancado-a à inércia. É perigoso projetar emoções humanas nos animais, mas parece, efetivamente, que as orcas, tal como as pessoas, sentem mágoa e experimentam oscilações emocionais.

Historicamente, as orcas e os humanos foram adversários, mas houve comunidades indígenas que colaboravam com as orcas. Fale-nos sobre o povo Kamchadel.

Existem algumas referências ao povo indígena Kamchadel nos relatórios da Expedição Bering, na região que é atualmente o leste da Rússia, onde os membros desta comunidade tinham desenvolvido uma espécie de técnica de caça solidária, na qual as orcas, que habitavam as águas locais, pareciam colaborar, atacando e ferindo grandes baleias, que os kamchadel matavam posteriormente, antes de partilhar a carne com as orcas.

Há um exemplo muito bem documentado na Austrália, na baía de Twofold, onde os baleeiros caucasianos se estabeleceram nos anos da década de 1830. Durante um século, a população de orcas colaborou com os baleeiros, alertando-os sempre que baleias de maior porte atravessavam a região, nadando até à baía para os chamar, antes de se lançarem no encalço dessas baleias e agirem em cooperação com os baleeiros.

Já todos ouvimos falar de ladrões de gado, mas, neste caso, fala em ladrões de baleias. Dê-nos uma perspetiva em primeira mão de um dos mais famosos ladrões, Ted Griffin.

Na década de 1960, Ted Griffin era uma figura bem conhecida na orla costeira de Seattle. Ele tinha começado no Aquário Marinho de Seattle em 1962, na altura da Feira Mundial de Seattle, e tinha-se tornado famoso em Puget Sound por capturar baleias assassinas. Ele foi também a primeira pessoa conhecida a nadar com uma baleia assassina.

Griffin trouxe uma baleia da British Columbia, chamada Namu, que se tornou mundialmente famosa, quando foi realizado um filme a seu propósito. Griffin publicou também um artigo na National Geographic em março de 1966, sob o título Criar Laços Com Uma Baleia Assassina, que foi lido em todo o mundo.

O lado mau da sua carreira surgiu na sequência do estrelato de Namu, quando a procura por orcas em cativeiro disparou em todo o mundo. Griffin procura dar resposta à procura capturando baleias assassinas, que, sabe-se hoje, habitavam as águas do Sul. Em Puget Sound, Griffin capturou dezenas de orcas e vendeu-as aos parques aquáticos em todo o mundo. E à medida que a captura de orcas prosseguia e cresciam as reservas das pessoas relativamente à atividade, em meia dúzia de anos, Griffin passou de herói, o maior amigo da baleia assassina, à maior ameaça, pelo menos das baleias assassinas da região nordeste, acabando por ser visto também como um pária naquela zona.

Tem de nos dizer o que aconteceu realmente à estrela do filme Free Willy, ou Libertem Willy. Não teve o final feliz que vimos no filme, pois não?

Não, e há ainda uma história controversa entre aqueles que participaram. Keiko, o protagonista do filme Libertem Willy, foi capturado na Islândia em 1979 e atuou em vários lugares. Mas, quando o filme foi feito no início da década de 1990, Keiko habitava numas instalações muito precárias nos arredores da cidade do México.  Com o sucesso do filme, foi lançada uma campanha para transferir Keiko para umas instalações melhores. Mas, logo de seguida, começou a ganhar força a ideia de que Keiko deveria ser devolvido às águas da Islândia. São gastos milhões de dólares para transferir Keiko para o Aquário de Oregon, em Newport.  Mas o projeto ambicioso para libertar Keiko nas águas islandesas deparou-se com inúmeros desafios.

Em primeiro lugar, Keiko não era uma animal saudável. Além disso, ninguém fazia ideia da estrutura social dos grupos de orcas que habitavam as águas islandesas ou a que família Keiko estaria ligado. Houve uma luta interna entre aqueles que queriam que Keiko fosse transferido para as águas de origem, mas temiam que nunca mais fosse capaz de apanhar peixes selvagens, e aqueles que acreditavam que, se fosse libertado, Keiko interagiria com as outras orcas e recuperaria a capacidade de apanhar peixes outra vez.

Há quem defenda que o destino de Keiko deve ser tomado como um final feliz, porque, em última análise, foi-lhe permitido ser livre outra vez. Alguns defendem inclusive que voltou a caçar. Mas as pessoas com quem falei, que cuidaram de Keiko na Islândia, afirmam categoricamente de que não existem provas de que Keiko tenha alguma vez voltado a apanhar peixe. Keiko acabaria por morrer de fome e pneumonia durante o inverno, ao largo da costa da Noruega.

Em vários sentidos, é um exemplo de como o nosso fascínio por uma história hollywoodesca dramática sobre a vida de uma baleia assassina se pode sobrepor a questões superiores e mais complexas sobre a saúde ecológica, a conservação e a sobrevivência das baleias na natureza.

O grupo das orcas habitantes do Sul está ameaçado de extinção e outros grupos são hoje dados como extintos. Fale-nos sobre a condição precária deste grupo e o que pode ser feito para o salvar.

Quando comecei a escrever o livro, o grupo das orcas habitantes do Sul estava reduzido a 76 espécimes selvagens, distribuídos por três grupos no total. Este verão pelo menos uma baleia foi dada como desaparecida, situando aquele número nos 75 indivíduos. Desde meados da década de 1980 que os números não eram tão baixos. Devo dizer que os números populacionais de orcas no mundo são razoáveis, mas esta população está classificada como ameaçada em ambos os lados da fronteira dos Estados Unidos e do Canadá.

A dada altura, o grupo terá totalizado provavelmente os 200 ou 250 indivíduos, quando habitavam um ambiente saudável e as populações de salmão-real, a sua principal presa, abundavam. Mas os danos ambientais e sobretudo a diminuição da sua principal fonte de alimentação tiveram enormes repercussões nos grupos de orcas. Uma coisa que gostaria de referir é que, depois de ter terminado a captura de orcas vivas nos anos de 1976 e 1977, o grupo das orcas habitantes do Sul estava reduzido a cerca de 70 elementos. No final dos anos 90, o número de indivíduos ascendia quase aos 100. Mas, nos últimos 20 anos, o número voltou a diminuir drasticamente.

A realidade com maior repercussão nestes grupos de orcas é, essencialmente, a ausência de disponibilidade de presas. Com a construção de barragens nos rios Colombia e Sacramento, assistiu-se a uma quebra acentuada dos fluxos migratórios do salmão-real. Outras ameaças incluem a poluição, o recrudescimento do tráfego marinho e a expansão controversa dos oleodutos nos arredores de Vancouver. Os habitantes do Sul não dependem apenas, e em primeiro lugar, das populações de salmão-real. Eles dependem, esmagadoramente, das populações de salmão-real do rio Frazer. E o oleoduto de Trans Mountain, que acaba de passar para a tutela do governo canadiano, ameaça a produção de salmões e o acesso destes àquele rio.

Tinha nove anos, quando regressou com o seu pai a Pedder Bay, onde ele tinha capturado três orcas para a indústria do entretenimento. Terminemos esta entrevista voltando ao início com essa história.

Eu tinha uma razão muito pessoal e também académica para escrever este livro, porque nos anos 70 o meu pai participou na captura de orcas vivas em ambos os lados da fronteira e, à medida que fui crescendo, vi como ele se debatia com o legado e a culpa que decorreram dessa fase da sua vida.

Eu tinha nove anos, quando voltámos a Pedder Bay. O meu pai não partilhou comigo as razões da visita. Alugámos um barco para navegar nas águas. O meu pai começou a contar-nos em detalhe a história de como tinha capturado orcas. Quando estava prestes a terminar a história, um grupo de orcas entrou na baía e aproximou-se do barco, começando a nadar e a brincar à nossa volta. Eu nunca tinha estado tão perto de orcas selvagens e um macho enorme aproximou-se tanto que eu quase conseguia tocar-lhe na barbatana.

Foi um momento espantoso e o meu pai deixou-se levar pelas emoções, quase uma espécie de colapso emocional. Simplesmente começou a chorar ao ver aquelas orcas. Hoje tenho a perfeita noção de que aquela reação estava carregada de uma culpa imensa que o acompanhava, sabendo que três das quatro baleias que tinha tirado daquelas águas tinham morrido em cativeiro. Creio que o meu pai nunca ultrapassou esse sentimento de responsabilidade e mais tarde ficou horrorizado por saber que aqueles foram os últimos três espécimes dos habitantes do Sul arrancados à natureza para viver em cativeiro. Por isso, durante o processo de escrita deste livro, debati-me com a responsabilidade da minha família nesta história e a responsabilidade da nossa região por esta criatura icónica, que tanto nos tem ensinado.

Esta entrevista foi editada por motivos de extensão e clareza.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeograhic.com.

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