As Orcas Vigilam os Seus Mortos, Revelando Emoções Complexas

Uma orca do Pacífico Nordeste terá criado laços profundos com a sua cria, antes desta morrer, o que poderá explicar a sua longa permanência junto do corpo.quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Uma orca chamada J35 carrega há mais de uma semana o corpo da cria morta, empurrando-a com a cabeça, ao largo da costa do Pacífico Nordeste. A triste cena é o exemplo maior e a confirmação da complexidade da trama de emoções que atravessa a vida destes sofisticados cetáceos, dizem os especialistas.

“Sei que não é a primeira vez que é observado um comportamento desta natureza no seio do Grupo J. Há 15 anos foi registado um comportamento idêntico”, diz John Ford, um investigador que se dedica ao estudo das orcas na Universidade de British Columbia. “As baleias têm uma predisposição muito vincada para cuidar das suas crias, e essa tendência natural estende-se, obviamente, às crias que morrem à nascença.”

A J35, apelidada de Tahlequah, é um membro com 20 anos que integra o Grupo J das Baleias Assassinas Habitantes do Sul, há muito objeto de estudo, e que, a par da sua família alargada ameaçada de extinção, os Grupos K e L, habita um vasto território, que abrange as águas ao largo de Seattle, Vancouver e Victoria, na British Columbia.

Emboras as orcas, assim como os golfinhos, sejam conhecidas por cuidar das crias mortas durante cerca de uma semana, a vigília de J35 começou no dia 24 de julho e ainda se mantinha no dia 2 de agosto. Segundo os especialistas, este é o período de luto mais longo registado à data relativamente a uma orca.

Jenny Atkinson, diretora-executiva do Museu da Baleia em Friday Harbor, na British Columbia, confirmou, por correio eletrónico, que Tahlequah ainda carrega a sua cria.

Enquanto J35 permanece junto ao corpo da cria, alguns especialistas interrogam-se sobre a razão de tamanho apego. Poderá ter sido porque a cria viveu apenas 30 minutos após ter nascido? Atkinson acredita que a dor de Tahlequah seja mais profunda, porque, após 17 meses de gestação, o animal teve então a oportunidade para estabelecer uma ligação emocional com a cria, antes desta morrer.

“Penso que isso é bem possível,” consente Ford.

A morte de mais uma cria é um duro golpe para o Grupo J, que, em três anos, ainda não registou um nascimento bem-sucedido. Juntos, os três grupos totalizam 75 indivíduos, e o tempo escasseia para assegurar a sua viabilidade. Ken Balcomb, fundador e principal investigador do Centro de Investigação da Baleia, dá-lhes cinco anos.

“Temos no máximo mais cinco anos de vida reprodutiva no seio desta população para que tal esteja assegurado”, o que implica crias viáveis. “Se isso não acontecer dentro de cinco anos, a viabilidade dos grupos ficará seriamente comprometida.”

Balcomb aponta a falta de alimento como o principal culpado. “Há muito tempo que temos vindo a alertar para a magreza progressiva destas baleias, que se alimentam sobretudo de peixe, e cuja taxa de mortalidade tem vindo a aumentar”, escreve no site do centro.

“O salmão-real constitui a principal fonte de alimentação das baleias desta população em risco de extinção. Lamentavelmente, também o salmão-real é ele próprio uma espécie ameaçada de extinção”, acrescenta.

Mas a preocupação mais imediata centra-se em perceber se Tahlequah sobreviverá a esta dura provação. Os especialistas observaram que Tahlequah tenta a todo o custo manter a cria a flutuar nas águas agitadas do mar, e, mesmo com o auxílio dos outros elementos do grupo, isso requer um dispêndio de energia que Tahlequah poderá não conseguir manter.   

Segundo os especialistas, essa é uma grande preocupação para a comunidade de baleias assassinas residentes do Sul. Estando Tahlequah no auge da sua vida reprodutiva aos 20 anos de idade, o grupo precisa dela para assegurar a reprodução da espécie.

“Mesmo sem contabilizar esta morte, esta é uma população em crise”, afirma Atkinson. “Estas baleias precisam da nossa proteção e apoio, se queremos que sobrevivam.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

Continuar a Ler