A Pesca Pode Estar a Tornar os Peixes Menos Sociáveis e Mais Agressivos

Ao privar o cardume de indivíduos com certos traços de personalidade, a pesca com anzol pode suscitar reações imprevistas no seio das populações de peixes.quinta-feira, 9 de agosto de 2018

A perca-azul, Lepomis macrochirus, popular pelo seu sabor e por ser fácil de capturar, morde o isco facilmente, se for sociável.
A perca-azul, Lepomis macrochirus, popular pelo seu sabor e por ser fácil de capturar, morde o isco facilmente, se for sociável.
fotografia de George Grall, National Geographic Creative

Os peixes simpáticos podem não acabar na última posição, mas têm maior probabilidade de serem capturados, revela um estudo recente.

A perca-azul, Lepomis macrochirus, uma espécie encontrada na região central do Oeste e no Sul dos Estados Unidos, não é muito difícil de capturar e muitos consideram este peixe bastante saboroso. Mas nem todas as percas-azuis são criadas de forma igual. Um estudo publicado recentemente em Animal Behaviour revelou que as percas-azuis que se apressam a morder o isco evidenciam maior predisposição social e menor agressividade do que as demais.

As percas-azuis são peixes relativamente gregários e tendem a deslocar-se em grupos. Os indivíduos mais sociáveis têm um papel importante no seio do grupo, ajudando a procurar alimento, a identificar o melhor habitat e a evitar predadores, afirma Mike Louison, um biólogo comportamental da Universidade de McKendree em Lebanon, no estado de Illinois, que concluiu o estudo como parte da sua tese de doutoramento na Universidade de Illinois.

Mas o afastamento destes indivíduos do cardume, “pode gerar uma disfunção no seio do grupo”, afirma Louison.

Diversos estudos sobre alguns peixes e outros animais, tais como pássaros e moscas da fruta, sugerem que a sociabilidade, tal como a agressividade, tem uma importante componente genética. Se uma população é privada dos seus elementos mais sociáveis, é compreensível que essa mesma população possa adotar um comportamento menos social.

“Quando a seleção incide, especificamente, sobre indivíduos com determinados traços comportamentais, a população poderá evoluir na direção oposta”, afirma Louison. Os indivíduos que ficam para trás podem evoluir para uma “versão mais irritadiça em modo peixe", diz em tom de brincadeira.

Dito isto, não é claro o quão moldáveis são estes traços comportamentais e se o afastamento ou não dos indivíduos mais sociáveis do seio do grupo poderia ter, efetivamente, um impacto significativo no material genético da população, afirma o coautor do estudo Cory Suski, um biólogo especialista no setor da pesca da Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign, e, em tempos, orientador da tese de doutoramento de Louison.

TUMULTO NO TANQUE

Para o estudo, Louison e os colegas capturaram vários espécimes de perca-azul num tanque em Illinois, no qual todos os animais foram identificados. Os peixes capturados foram imediatamente devolvidos à água. Mais tarde, o tanque foi esvaziado e os animais, incluindo os peixes que não tinham sido capturados, foram transportados vivos para o laboratório.

Posteriormente, os investigadores conduziram uma série de experiências com os 19 peixes que tinham sido capturados e os outros 19 que tinham escapado à apanha, tendo adaptado para o efeito um aquário de grandes dimensões, criando dois compartimentos, separados por uma divisória transparente. Num dos compartimentos, os investigadores colocaram seis percas-azuis do tanque, escolhidas aleatoriamente. No outro compartimento, foi colocado, à vez, um dos 38 peixes.

No compartimento, o espécime solitário nadava livremente, ora detendo-se perto da divisória e interagindo com as percas-azuis no outro compartimento, ora escondendo-se num refúgio instalado no extremo oposto.

Os investigadores filmaram os movimentos de cada animal em dois ensaios diferentes, medindo o tempo que cada espécime passava junto da divisória, em interação com os outros peixes no compartimento ao lado, e o tempo que passava escondido ou confinado ao extremo oposto do aquário. Os resultados mostraram que os peixes capturados no tanque eram, efetivamente, mais sociáveis do que os peixes que não tinham sido capturados.

Os cientistas realçaram que as percas-azuis com maior probabilidade de captura eram consideravelmente mais sociáveis do que aquelas que tinham escapado à apanha, revelando também um menor grau de agressividade, ainda que ligeiro, relativamente às demais, embora esta correlação careça de outros fundamentos a analisar num estudo próximo.

Porque é que os peixes mais sociáveis têm maior probabilidade de ser capturados? Os peixes com maior predisposição social tendem a movimentar-se em grupos, e se os atrairmos com um engodo ou lançarmos um anzol com um isco num lago, é mais provável que nos deparemos com um vasto cardume do que com um peixe solitário, conclui Louison.

A competição também pode ter alguma influência. No momento em que um eventual pedaço de comida aterre no seio do grupo, pode desencadear-se uma corrida para ver quem chega primeiro, mesmo que as suas identidades não sejam claras, afirma Louison. “Não há tempo para refletir sobre o assunto”, diz.

Mas “quando se é um solitário, há tempo para refletir” e possivelmente para evitar o isco, acrescenta Suski.

CONSEQUÊNCIA INDESEJADAS

O estudo vem integrar um crescente conjunto de trabalhos sobre os vários impactos biológicos da pesca com anzol. Alguns estudos mostram, por exemplo, que os peixes com predisposição genética para um crescimento rápido têm consideravelmente maiores probabilidades de serem capturados. Isto favorece, por seu turno, os peixes com crescimento mais lento.

Outro estudo mostra que as fêmeas da perca-negra, Micropterus salmoides, que têm menores probabilidades de ser capturadas, são piores progenitoras. À semelhança da perca-azul, os machos da perca-negra protegem os locais de nidificação, e os peixes que tendem a defender esses locais têm maiores probabilidades de serem capturados, presumivelmente porque olham os engodos de pesca como potenciais predadores, explica Louison.

Embora cada espécie tenha as suas próprias idiossincrasias, os resultados obtidos com o estudo do comportamento da perca-azul podem aplicar-se a outros peixes com sistemas sociais semelhantes, afirma Shaun Killen, uma bióloga da Universidade de Glasgow, que não participou no estudo.

Louison e os colegas esperam poder estudar os impactos deste fenómeno nos peixes no seu habitat natural, um facto que permanece ainda pouco claro à data. 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com. Contribuição da tradutora Ana Rodrigues

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