Uma Fotógrafa Está Determinada a Salvar os Grandes Felinos

Em honra do Dia Mundial do Leão, Beverly Joubert partilha o seu trabalho para proteger estes predadores de topo e os espaços que habitam.sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Esta história faz parte do projeto da National Geographic, Mulheres de Impacto, centrado nas mulheres que quebraram barreiras nas respetivas áreas, com reflexos nas suas comunidades, e inspiraram a ação. 

A eterna paixão e o talento fizeram de Beverly Joubert uma heroína no domínio da fotografia da vida selvagem. Joubert é uma exploradora residente da National Geographic, realizadora, fotógrafa e cofundadora da iniciativa Grandes Felinos da National Geographic.

Juntamente com o marido, Dereck, Beberly dedicou mais de 30 anos à fotografia e à documentação da condição precária dos animais selvagens em África. O casal vive no Botswana e viaja pelo continente africano, trabalhando incansavelmente para ajudar a preservar os espaços selvagens em África e os animais que os habitam.

Para assinalar o Dia Mundial do Leão, falámos com Beverly sobre a sua paixão por estes grandes felinos, sobre a importância destes animais nos ecossistemas africanos e sobre o seu mais recente trabalho para proteger estes predadores.

O que a levou a estudar e proteger os grandes felinos?

Os grandes felinos são o porta-estandarte mais icónico e romântico da vida selvagem, e a sua força animal é fascinante. Protegê-los tornou-se na missão das nossas vidas.

Porque é que os grandes felinos são tão importantes?

Eles conduzem os ecossistemas da savana da mesma forma que os elefantes conduzem a mudança nas florestas e os hipopótamos nos pântanos. Por exemplo, no nosso documentário Tribe versus Pride, os leões mantêm as grandes presas em movimento. Durante os ataques recorrentes dos leões, os antílopes correm e a ação revolve os solos, tornando-os permeáveis às águas das chuvas e alimentando os prados.

Na verdade, um planeta sem o som áspero da meia-noite, do chamamento de um leopardo no interior da floresta, ou o som grosseiro do primeiro balbucio do rugido de um jovem leão na madrugada seria um planeta incrivelmente solitário. Um mundo onde a natureza foi domesticada e tornada segura e aborrecida não teria qualquer significado para muitos de nós.

Quais são as maiores ameaças que enfrentam estes felinos?

A ignorância e a ganância. A ignorância do quão devastadora pode ser a caça em safáris para estes felinos. A Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies de Plantas e Animais Selvagens Ameaçadas ainda permite o abate, por ano, de 660 leões macho, basicamente por diversão ou para alimentar egos. As pessoas que matam leões em massa para dar lugar às culturas e ao gado parecem ter-se esquecido de que os grandes felinos contribuem para o crescimento da vegetação rasteira que alimenta esse mesmo gado. E há ainda a considerar o comércio de ossos, que se afirmou como um modelo de negócio na África do Sul, e que alimenta uma indústria perversa em falência moral, que ameaça atualmente todos os grandes felinos, desde os jaguares aos tigres.

Qual o papel dos media nos esforços desenvolvidos para proteger estes felinos?

Os media ajudam-nos a combater a ignorância. Quando se vê um filme ou se lê um artigo, deixa de se poder invocar o desconhecimento sobre a matéria. Não se desaprende um assunto desta natureza, por isso só nos resta lidar com a ganância.

Como é um dia normal para si no Botswana?

Hoje, acordámos por volta da 4h30m da manhã e, depois de resolvermos uns problemas com a bateria do carro, atravessámos o rio e encontrámos um leão macho ao amanhecer. Filmámo-lo durante uma hora e depois seguimos o rasto de um outro bando. Queríamos apanhar-lhes o passo, porque apercebemo-nos de que o grupo tinha deixado para trás uma cria ferida ontem. Descobrimos que tinham voltado para apanhar a cria, mas ela não vai sobreviver, por isso passámos algum tempo em contemplação, refletindo sobre a forma como alguns desistem de viver num mundo selvagem e é positivo, até necessário, manter a definição de natureza selvagem.

Mais logo, vamo-nos debruçar sobre a logística envolvida na transferência de um rinoceronte e escrever umas cartas aos doadores que podem auxiliar na transferência. Vamos também receber uma equipa de especialistas contra a caça furtiva para debater algumas questões com o Dereck.

Depois, com a luz da tarde, saímos para o terreno para filmar nas horas mágicas até ao crepúsculo. Eu vou fotografar e fazer a recolha de alguns sons.

Ao cair da noite, regressamos à base, jantamos, pomos a conversa em dia, dormimos, esperamos pelo amanhecer e ouvimos os chamamentos dos leões.

Estabelece laços com algum dos animais que estuda e protege?

Sim, frequentemente. Seria difícil se isso não acontecesse. No entanto, criar laços profundos com os animais não nos dá o direito de intrometer e interferir nos processos naturais. Muitas vezes, sentimos uma enorme angústia, como quando vemos uma cria, que acompanhámos durante cinco meses, morrer, abandonada e entregue à sua sorte, mas isso é natural.

Como é trabalhar de perto com o seu marido nestes projetos?

Creio que não existe realmente outra forma de fazer aquilo que fazemos. Ao longo do tempo, desenvolvemos uma relação ao nível celular ou espiritual que nos preenche na melhor aceção da palavra. Pode ser amor e companheirismo, mas para nós vai muito além disso. Esforçamo-nos para que esta parceria resulte, assim como não damos nada por garantido, procurando manter o entusiasmo e a capacidade de nos deixarmos surpreender e envolver um pelo outro, mas não é difícil, porque partilhamos os mesmos interesses e paixões de base.

Fale-nos sobre as Olimpíadas Maasai.

O evento surgiu na sequência de uma troca de impressões com os anciãos. Como é que se pode levar uma geração de guerreiros a envolver-se ativamente na sociedade, não só da cultura maasai, mas de outra cultura qualquer, e redirecionar toda aquela energia contida para algo positivo, e não negativo?  

Nos Estados Unidos, pode ser o futebol. No Quénia, deixámos de matar leões para trabalhar no terreno e seguir o seu rasto. A resposta tem sido tão positiva que se deixou de matar leões.

Como é a sua relação com os anciãos e os guerreiros da tribo Maasai?

Extremamente positiva, no sentido em que interagimos com honestidade e procuramos soluções como esta. Também ajuda o facto de empregarmos, através da nossa empresa de turismo, Great Plains, mais de uma centena de maasai e de patrocinarmos o evento através da Great Plains Conservation e da iniciativa Grandes Felinos. Eles sentem que somos uma parte da solução.

Que mensagem espera que o público retire do documentário Tribe versus Pride?

Que é importante preservar as culturas e que as soluções decorrem do respeito por essas mesmas culturas. Perceber que as coisas têm de mudar para todos nós, para a natureza, para os leões, para o ambiente e para o nosso futuro coletivo. A população de leões aproxima-se atualmente dos 2000 indivíduos no Quénia. Com uma população de 2 000 000 de pessoas, os masaai podiam facilmente dizimar esta população de leões de importância vital, mas, através desta iniciativa, desta parceria, podemos iniciar um processo de esperança.

Esta entrevista foi editada por motivos de extensão e clareza.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeograhic.com.

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