Brian Skerry Reencontra o Golfinho "Rapariga Afegã"

O fotógrafo Brian Skerry mergulha nas águas do oceano para captar a beleza de um golfinho e da sua cria.quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Muitas vezes vejo o meu trabalho como uma amálgama de momentos passados no mar. As fotografias de animais selvagens são o resultado de um disparo feito no momento certo, quando o animal é fotografado sob uma combinação perfeita de luz, movimento, cor e elegância. E, enquanto uma fotografia pode ser vista durante décadas, o momento em que foi tirada, esse, mantém-se em espírito, como uma aparição que se esbate no tempo e se fecha no passado. Mas essa é a beleza da fotografia: a procura para congelar o momento no tempo e contar uma história com cada fotograma.

Em 2012 e durante quase todo esse ano, estive inteiramente dedicado à história sobre a capacidade cognitiva dos golfinhos. Um dos locais onde trabalhei foi nas Bahamas, onde a Dra. Denise Herzing se dedica ao estudo dos golfinhos malhados selvagens há mais de 30 anos. Antes de me juntar a Herzing numa viagem de pesquisa nesse verão de 2013, estivemos longas horas à conversa a falar não só sobre o seu trabalho, mas também do potencial fotográfico destes animais.

Para minha surpresa, Herzing referiu que a cria de golfinho que tinha sido fotografada por Flip Nicklin e feito a capa da edição de setembro de 1992 da revista da National Geographic ainda nadava por aquela zona. Nassau era o nome que lhe tinham dado.

Segundo Herzing, pouco tempo depois da história ter sido publicada, a última que a revista dedicou aos golfinhos, Nassau perdeu a ponta da barbatana dorsal num ataque de tubarões e, desde 1992, que se tornou ela própria progenitora, tendo dado à luz várias vezes.

Por isso, entre as muitas imagens que estava determinado a conseguir nessa viagem às Bahamas, estava uma fotografia de Nassau, a rapariga que fez a capa do ano de 1992, hoje mais velha e mais sensata, mas ainda forte. À semelhança da determinação de Steve McCurry para encontrar novamente a sua Rapariga Afegã, também eu esperava poder encontrar e fotografar este golfinho em particular, muitos anos mais tarde.

Contudo, pouco antes de chegar ao navio de pesquisa, fiquei a saber que, pela primeira vez em 30 anos, os golfinhos se tinham dispersado a partir da zona onde eram vistos habitualmente. Alguns tinham sido avistados a cerca de 145 quilómetros de distância, e outros estavam desaparecidos. A minha esperança de encontrar Nassau era, na melhor das hipóteses, reduzida.

Na maior parte dos dias, encontrámos golfinhos e eu pude tirar umas quantas fotografias. Tudo maravilhoso, mas o meu golfinho afegão continuava a escapar-me. Todas as noites, deitado no meu beliche, perguntava-me ansiosamente se o encontraria. O oceano era vasto, os golfinhos tinham-se dispersado e o tempo urgia.

Na tarde do sexto dia, Herzing gritou da proa: “Acho que encontrámos a Nassau!”. Corri para o púlpito e Herzing tinha um sorriso rasgado estampado no rosto. A rapariga da capa estava, de facto, no grupo dos 12 golfinhos, e a nova cria, Nautilus, estava com ela.

Nas duas horas que se seguiram, nadei com este grupo de golfinhos selvagens, e, nesse tempo, senti-me entrar no seu mundo. Nassau manteve-se à distância grande parte do tempo. Mas, por breves momentos, esta grande senhora aproximou-se nadando com elegância e fazendo-se acompanhar do pequeno Nautilus, que nadava abaixo da progenitora.

Os laços entre crias e progenitoras são fortes. No meio deste mar tropical, em tons de azul, gerações de golfinhos enfrentaram predadores e tempestades e assistiram à diminuição das populações de peixes das quais se alimentam. Neste dia, porém, vi golfinhos a brincar com algas, a saltar sobre o púlpito da embarcação e uma progenitora que acariciava a cria com ternura, enquanto nadavam. Tal como outras tantas experiências que já vivi, este foi um momento no mar, uma aparição que começou a esbater-se no momento em que despi o fato de mergulho ao entardecer desse dia.

Ainda assim, a imagem permanece e dá-nos um vislumbre de uma sociedade complexa, que ainda estamos a conhecer.
 

Sharks, uma das exposições mais emblemáticas da National Geographic, está instalada na Galeria da Biodiversidade da Universidade do Porto até ao final do ano. Não perca a oportunidade de ver uma nova perspetiva dos tubarões, pelo olhar de Brian Skerry.

Nota do editor: Recebemos uma nota atualizada da Dra. Denise Herzing, fundadora e diretora do departamento de investigação do Programa do Golfinho Selvagem, que refere que “Nassau, hoje com 29 anos, mantém-se ainda no seio do nosso grupo desde o verão de 2017 e tem uma cria de dois anos chamada Nautica”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.

Continuar a Ler